Publicado em 20/01/2016 as 12:00am

Estudos contrariam ideia que relaciona imigrantes à criminalidade nos EUA

Apesar de as últimas reações contra a imigração nos Estados Unidos não terem sido tão descaradas quanto as observadas recentemente na Finlândia, Alemanha e Itália, a conexão entre estrangeiros e criminalidade tem sido um tema dominante dos dois lados do A

Nos Estados Unidos, como na Europa, muitas vezes após episódios em que estrangeiros são acusados de crimes e outros problemas, segue-se uma reação contra os imigrantes. Mas os estudos mostram que, pelo menos nos Estados Unidos, os imigrantes cumprem muito mais a lei do que os nativos do país, independentemente de raça, classe ou formação.

 

"Os imigrantes sempre são um bode expiatório conveniente", disse na quarta-feira (13) Walter A. Ewing, um pesquisador sênior do Conselho de Imigração Americano, um grupo sem fins lucrativos em Washington.

 

"É sempre fácil culpar o outro grupo por todos os problemas da sociedade", disse Ewing em entrevista por telefone. Embora as imigrações sejam obviamente diferentes na Europa e nos Estados Unidos, "há universalidade na xenofobia, na reação instintiva. É o medo, atacando o seu objeto".

 

Ewing colaborou com Rubén G. Rumbaut, professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Irvine, e Daniel E. Martinez, professor de sociologia da Universidade George Washington, em um estudo divulgado em julho, que utilizou dados do censo, dados do FBI e outros dados estatísticos para refutar os estereótipos sobre os imigrantes. Ele mostrou, por exemplo, que entre 1990 e 2013, enquanto a parcela de estrangeiros na população dos EUA quase dobrou e o número de imigrantes não autorizados mais do que triplicou, o crime violento diminuiu 48% e os crimes contra a propriedade caíram 41%.

 

O estudo também mostrou que as taxas de encarceramento de norte-americanos eram muito mais elevadas do que entre migrantes.

 

Esses resultados, segundo o estudo, reiteram o que outras pesquisas confirmam há mais de um século: "A esmagadora maioria dos imigrantes não é de 'criminosos', em nenhuma acepção do termo."

 

Rumbaut disse em uma entrevista por telefone que os autores do estudo, que vem sendo desenvolvido há mais de um ano, preferiram fazer uma grande divulgação por meio do Conselho de Imigração Americano do que uma publicação em veículo acadêmico mais obscuro de forma a combater uma onda de declarações políticas anti-imigração da época.

 

"Os imigrantes não vêm para cá cometer crimes e receber auxílio", disse Rumbaut. "Eles vêm para cá para trabalhar mais do que os locais."

 

Apesar de as últimas reações contra a imigração nos Estados Unidos não terem sido tão descaradas quanto as observadas recentemente na Finlândia, Alemanha e Itália, a conexão entre estrangeiros e criminalidade tem sido um tema dominante dos dois lados do Atlântico.

 

Donald Trump, candidato presidencial republicano, por exemplo, tem sido amplamente acusado de alimentar paixões contrárias à imigração, propondo um muro para conter os mexicanos, que ele descreveu como vorazes, e uma moratória nas visitas de todos os muçulmanos do exterior para os Estados Unidos, para o caso de haver terroristas entre eles.

 

Rumbaut disse que essa noção de ilegalidade entre os imigrantes prospera independentemente das evidências contrárias.

 

"É uma 'ideia zumbi' –fica voltando dos mortos", disse ele.

 

Um estudo de 2007 por Rumbaut e Ewing também mostrou que a maioria dos imigrantes é cumpridora da lei, assim como um estudo publicado na mesma época por Robert J. Sampson, um sociólogo de Harvard, que demonstrou uma relação inversa entre a imigração e a criminalidade, um padrão que Sampson disse que "derruba estereótipos populares".

 

Os dois estudos foram divulgados quando os Estados Unidos estavam envolvidos em um debate raivoso e politicamente carregado sobre a reforma da imigração, agravado pelos assassinatos de três adolescentes em Newark, New Jersey, atribuídos pela polícia a pessoas que estavam no país ilegalmente.

 

Na época, como está ocorrendo agora em partes da Europa, muitos políticos norte-americanos protestaram contra aqueles que estavam no país sem permissão. Um dos episódios mais lembrados foi uma visita de 2007 a Newark pelo deputado Tom Tancredo, republicano do Colorado. Ele era candidato presidencial e adversário ardente da imigração e, paradoxalmente, neto de imigrantes italianos.

 

Tancredo ficou famoso por ter declarado que a imigração tinha criado "guetos linguísticos onde milhões de imigrantes não falam inglês e imitam os padrões de vida como os encontrados no Haiti".

 

Os críticos de Tancredo apontaram que as suas declarações eram semelhantes àquelas do deputado republicano Henry Cabot Lodge, em 1891, durante uma onda de chegadas da Rússia, Polônia e Itália -inclusive os avós de Tancredo.

 

Lodge, que muitos anos mais tarde ajudou a impedir os Estados Unidos de se juntarem à Liga das Nações, teria dito que a imigração "está fazendo o maior aumento relativo de raças estranhas ao corpo do povo americano e de pessoas das classes mais baixas e analfabetas dentro dessas raças".

Fonte: braziliantimes.com