Publicado em 1/02/2016 as 12:00am

Brasileira relata abuso, cativeiro, prisão e medo de ser deportada

Letícia ficou presa cinco anos acusada de posse de drogas e hoje vive com medo de sair de casa, pois o ICE quer deportá-la

A primeira coisa Letícia Castaneda fez, quando ela saiu da cadeia do Condado de Bristol e Casa de Correção, em junho de 2013, foi ajoelhar-se e tocar à grama em North Dartmouth.

Nos últimos cinco anos, Letícia viveu mais um pesadelo americano do que um sonho e esta liberdade significou um momento de alívio. Mas enquanto ela não sabia, na época, que seu caso evoluiria para uma grande vitória para os defensores da liberdade e diretos civis em Massachusetts.

No dia 23 de dezembro saiu uma decisão federal do 1º Circuito da Corte de Apelações, que permitiu que pelo menos 100 outros imigrantes permaneçam no país. "Tudo que eu queria era sair", disse Castaneda. "Isso não é vida para ninguém. Você não vê o sol", continuou.

Ela saiu e retornou para Lowell, onde voltou a rever os amigos e parentes.

O US Immigration and Customs Enforcement (ICE) ainda busca deportá-la para o Brasil, seguindo um esforço nacional para reprimir os imigrantes indocumentados que tenham sido condenados por determinados crimes.

A brasileira aplicou para um visto especial que pode permitir que ela torne-se uma residente legal EUA. Mas nada é certo ainda, e por isso ela raramente sai de sua casa com medo de funcionários da imigração.

O caso movido em favor da brasileira questiona se os imigrantes indocumentados que tenham tido condenados por certos crimes violentos ou relacionados a drogas, podem ser pegos pelas autoridades de imigração, após anos de sua se sua sentença cumprida e mantidos sob custódia, sem audiência de fiança.

Segundo o advogado que defende Letícia, Greg Romanovsky, várias pessoas que foram deportadas teriam reivindicações possivelmente aceitas, mas não tiveram acesso a uma representação legal.

Agora com 32 anos de idade, mãe de um filho de 10 e grávida de uma menina, Letícia chegou aos Estados Unidos em 2000, quando ainda tinha 17 anos de idade. Na época, ela queria estar perto de sua mãe, que agora é residente legal no país, e escapar da violência em sua cidade natal, Porto Alegre (Rio Grande do Sul). “Se você tem bons sapatos, você é assaltada. Eu fui assaltada cinco vezes em um ano”, disse. Em Lowell, ela encontrou trabalho, família e felicidade.

 

Abuso, cativeiro e prisão

Em 2008, surgiu na vida dela Carlos Luz e este foi o pior ano de sua vida. Quando ela fala sobre o seu passado, suas batalhas legais e o seu futuro incerto, entra em prantos. A brasileira disse que não consegue se lembrar quantas vezes ele a manteve cativa e abusou dela. “Ela tentou fugir várias vezes e algumas destas tentativas resultaram nas cicatrizes que hoje ela tenta esconder quando conversa com alguém”, disse o advogado.

Um dia, durante o período de cativeiro, Letícia estava em um carro com Carlos e várias outras pessoas quando a polícia parou o veículo. Durante a fiscalização, os policiais encontraram cocaína.

A brasileira disse que a droga era de Carlos, mas sob a lei estatal, o fato dela estar ali foi o suficiente para uma prisão.

Em outubro do mesmo ano, ela foi condenada por posse de substância Classe B e em 2010 entrou em condenada a liberdade condicional.

Sua vida, ainda que um trauma interrompido por este fato, parecia que ia melhorar. Mas em março de 2009, Carlos foi preso depois de Letícia relatou um incidente horrível de abuso. Ele foi deportado para o Brasil, onde ele está cumprindo uma sentença de assassinato, segundo afirmou ela.

Durante vários anos, Letícia trabalhou na área de limpeza e cuidado de seu filho. Eles celebraram o seu oitavo aniversário com uma festa em maio de 2013. No dia seguinte, os funcionários do ICE a prenderam e levaram-na em custódia e começou o processo de deportação com base na sua prisão cocaína de 2008.

Letícia foi enviada para um centro de detenção de imigração, no Condado de Bristol.

A prisão, que duraria três meses, trouxe de volta memórias horríveis. Letícia viveu momentos tristes e tinha pesadelos que gritava tão alto que outros detentos se queixaram.

Sob a lei federal, imigrantes indocumentados que são condenados por crimes violentos e alguns relacionados com a droga estão sujeitos a detenção obrigatória - eles podem ser detidos indefinidamente durante seus processos de deportação, sem chance de fiança.

A lei diz que o ICE pode começar a detenção obrigatória de tais imigrantes "quando o estrangeiro é liberado" da custódia da polícia por seu crime. Letícia foi colocada em liberdade e agora espera conseguir sua legalização. Para permanecer no país, ela pediu um U-Visa, um visto especial dado a vítimas de crimes traumáticos.

O processo está pendente há mais de dois anos e agora ela aguarda no limbo, com medo de sair de casa e ser pega e deportada. "Eu queria ser legal e poder trabalho", disse ela.

 

 

Fonte: braziliantimes.com