Publicado em 23/03/2016 as 8:50am

Pastor Silair: "Nós não temos uma igreja para religiosos. Religião mata!"

Pastor Silair: "Nós não temos uma igreja para religiosos. Religião mata!"

Um dos maiores líderes religiosos brasileiros fora do Brasil, Pastor Silair Almeida celebra este mês de março 25 anos de pastorado na Flórida. Figura controversa, dono de fortes opiniões e com participação ativa na comunidade inclusive em âmbito político (no CRBE - Conselho Regional de Brasileiros no Exterior), o Pastor Silair foi muitas vezes criticado por sua postura e coleciona ao longo dessas duas décadas e meia muitas conquistas e desafios. Ele recebeu a reportagem do BT para falar um pouco dessa experiência e sobre os planos para o futuro.

 

Brazilian Times - Como o senhor se sente chegando nesta data, 25 anos de ministério, que é um marco tão importante?

Pastor Silair - São 25 de anos só na PIB Flórida. Na verdade já são 30 anos de ministério. Mas aqui no Sul da Florida são 25 anos. Em março de 1991 saímos de Salvador, eu a Debora, minha esposa, com a Rebeca - depois tivemos mais um filho aqui, o Lucas – deixamos a Bahia para começarmos uma aventura do zero. A ideia era cuidar dos brasileiros, que eram poucos naquela época – só tínhamos duas lojas, a Brasil Original e a Via Brasil – e o desafio era saber onde estavam os brasileiros e como alcançá-los. Iniciamos com o futebol no Butterfly Word; por lá estivemos três anos jogando com a comunidade, e assim fomos conhecendo os brasileiros. Logo no início percebemos que o envolvimento social com a comunidade seria essencial, tanto para conhecer como para servir a comunidade.

 

BT - O que o fez perceber essa necessidade?

PS - Vendo Muita gente que chegava sem recurso financeiro algum; sem roupas, sem comida, sem amigos, e às vezes vindo pelo México. E a gente se tornou um porto seguro para essas pessoas, distribuindo cestas básicas – serviço que existe há 25 anos sem parar uma semana- e roupas. Hoje a gente tem um supermercado que trabalha com a moeda “solidário”. As pessoas recebem o “solidário” e compram o que elas querem; está tudo na prateleira. Temos 30 mil peças de roupas no nosso PIB shop. Temos 26 carros de empréstimo que rodam na comunidade…

 

BT - Para quem? Quem pode usar os carros?

PS - Para quem precisa. Não precisa ser membro da igreja. Qualquer pessoa que precise de um carro emprestado por um mês, dois, três… o que for

 

BT - Mas para quem tem necessidade mesmo.

PS - Para quem está em necessidade e possa provar que tem essa necessidade. Também temos o banco de trabalho. É um sistema no qual temos uma pessoa conectando quem está precisando de trabalho e quem está oferecendo trabalho. Fazemos essa ponte. E assim fomos crescendo bastante até 2008. Chegamos a ter 2,000 membros. Mas em 2008 veio a crise e na crise financeira nós perdemos 450 membros para o Brasil. Pessoas que desistiram do sonho americano e foram embora. E nós passamos a crise com bastante dificuldade, de 2008 a 2012, e voltamos a crescer. Hoje temos recebido muita gente do Brasil, que tem green card, cidadania, e está voltando para cá. E também há muitas pessoas que estão vindo aventurar, começar do zero.

 

BT - Nesses 25 anos a sua figura sempre teve um papel forte na comunidade e às vezes sendo alvo de críticas. Houve uma época em que a igreja era muita criticada também, por ser inclusiva. Como o senhor enfrentou essas críticas?

PS - Nossa igreja sempre foi muito aberta para todas as pessoas. Nós chamamos de uma igreja saudável. Uma igreja que sempre caminhou em direção da aceitação da pessoa como ela é. Não significa que a gente quer que a pessoa permaneça no mesmo estado; a gente propõe mudanças, mas nós entendemos que quem faz a mudança é Deus. Não é permitida à entrada de pessoas perfeitas na nossa igreja. Aqui só é permitida a entrada de pessoas que reconhecem que tem dificuldades, que tem lutas e que precisam ser ajudadas. Por isso temos aqui um Ministério que se chama “Celebrando a Recuperação”, onde recebemos pessoas que lutam em todas as áreas das suas vidas – alcoolismo, drogas, prostituição, depressão, etc-… essas pessoas são amadas, acolhidas, encorajadas, motivadas, e a gente vê a transformação de Deus na vida dessas pessoas.

Nós não temos uma igreja para religiosos. Detestamos religiosos; não suportamos a religião. Religião mata. Religião é uma canoa furada. Nós temos uma igreja para pessoas que querem relacionamento com Deus. Nós queremos uma igreja baseada nos princípios de Jesus, que diz: - “Ame a Ele acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. E eu cito sempre um exemplo de quando os religiosos trouxeram uma mulher diante de Jesus para apedrejá-la, porque a lei e a religião diziam que ela teria que ser morta, e todos estavam com pedras na mão, e Jesus disse: - Quem dentre nós não tiver pecado que atire a primeira pedra. E diz o texto bíblico que pouco a pouco as pedras foram caindo pelo chão e os homens se retiraram. E diante da mulher trêmula Jesus falou – Mulher, cadê teus acusadores? Ninguém te apedrejou? Então também eu não te condeno.

Então nossa igreja é uma igreja de inclusão, de amor, de aceitação, de amor incondicional na vida pessoas, por isso ela pode ser chamada de qualquer coisa. Uns chamam de clube da 33, que é nossa rua. Outros chamam de igreja superficial. Outros chamam de igreja liberal. Podem chamar de qualquer nome. Nós entendemos que é isso que Deus quer para a vida da nossa igreja.

 

BT - Qual foi a maior conquista dos últimos 25 anos?

PS - Nós saímos de um grupo de imigrantes, sem expressão, lutando pela sobrevivência, e todos diziam que brasileiro nunca ia conseguir nada aqui; e hoje temos um patrimônio de 12 mil metros quadrados, com dois templos/auditório para mais de 1,000 pessoas, várias salas. É o quarto maior patrimônio de igrejas em Broward, entre os americanos inclusivo. E isso foi uma conquista muito grande da comunidade, para a comunidade, servindo a comunidade; essa foi uma conquista material.  Mas nós vivemos várias fases. Eu apresentei à igreja várias crianças, como bebê, que hoje estão formados, são dentistas, engenheiros, casados…  a conquista de ver toda uma geração sendo criada e que tem trazido tanto bem, é um orgulho para nossa comunidade. Outra conquista foi abrir a igreja para fora alcançando o Haiti, onde temos três orfanatos com 127 crianças; Cuba, ajudando há 20 anos nesse processo de abertura; alcançamos os Índios Ticunas - 60 mil índios que tem sido ajudado há mais de 10 anos por essa igreja, e comunidades ribeirinhas de Manaus. Estar em lugares do mundo onde ninguém quer estar é o nosso grande desafio, nossa grande conquista. E também temos a conquista de servir a comunidade através do Itamaraty. Fui representante no CRBE (Conselho de Representantes Brasileiros no Exterior) e agora sou porta-voz da Flórida junto ao governo. Muitas conquistas nós tivemos para a comunidade como um todo.

 

BT - Quando o senhor saiu de Salvador, há 25 anos, já imaginava tudo isso? Já tinha ideia de onde queria chegar aqui? Imaginava chegar aonde chegou?

PS - Não imaginava. Em 1998 eu fiz um curso de 26 dias no Havaí e aqueles 26 dias mudaram tudo porque eu tive que fazer uma ‘Proposta de Vida Para o Resto da Minha Vida’. E foi assim que nasceu o sonho de fazer uma igreja forte, que alcançasse toda a comunidade, e lá eu escrevi todos esses sonhos, alvos… de lá eu passei a ensinar alvos, propósitos para igreja e tenho visto pessoas realizando sonhos. Eu acredito muito em estabelecer alvos, sonhos e propósitos de vida. Eu não imaginava que chegaria a esse ponto mas estava preparado para o que viesse e queria chegar muito longe. Mas ainda não chegamos na África… quero chegar lá e ajudar bastante as igrejas na África. São conquistas que ainda faltam.

 

BT - Nesses anos de crises certamente presenciou muitos momentos tristes e duros. Tem algum momento em que o senhor lamentou ou que achou que a comunidade não iria superar? Passou em algum momento a sensação de falha da comunidade?

PS - Em 2008, quando enfrentamos a maior crise econômica do país, o desespero tomou conta da comunidade. E aquele espírito de que não ia dar certo assolou a todos. E eu fui um portador de esperança. Eu sempre encorajei a todos. Mas vi histórias que me entristeceram muito, vi famílias separadas pela imigração; vi a injustiça imigratória – desde 2002 sem uma nova lei. (Foi duro) Ver o sacrifício de anos, de milhares de brasileiros, ir por água abaixo ao perder a casa dos sonhos; Ver pessoas entrando em depressão, ver suicídios. E recentemente tem me entristecido o fato de perdemos um jovem a cada mês em acidentes de carro, de overdose, etc… eu creio que nossos jovens estão sem rumo e nós precisamos colocar uma direção nessas vidas.

 

BT - Os jovens certamente estão sem direção. O problema das drogas tem sido muito grande na comunidade, fora das igrejas. Como o senhor vê esse problema? Qual é hoje o maior desafio de trazer essas pessoas para uma recuperação?

PS - Então, esta semana eu tive uma reunião no consulado com o embaixador e com o conselho de cidadãos da Flórida e discutimos o problema dos jovens brasileiros. Acho que tem que ser uma ação mais inclusiva, não pode ser o papel de uma igreja só, nem das igrejas. Tem que ser de toda a sociedade. Nós estamos produzindo uma cartilha para os jovens. Inclusive no site do consulado há uma lista de lugares onde os jovens podem se recuperar. Acho que precisamos fazer um grande movimento comunitário, envolvendo toda a sociedade, para descobrir a razão por trás das drogas. É falta de identidade? Não sei quem sou? Não sei se sou brasileiro ou Americano? É falta de relacionamento com os pais, dentro de casa? Então precisamos primeiro descobrir o problema e depois termos uma ação muito intensa. O embaixador aceitou fazer uma cartilha, junto com o Conselho (de Cidadãos Brasileiros da Florida) e creio que quando parte do Itamaraty, vindo do Consulado, vira um problema mais abrangente, se torna um problema da sociedade e não de uma igreja só. E eu quero ser parte disso. Precisamos promover debates, palestras para que possa haver a conscientização independente da igreja. Nós vamos ter agora a 5 Conferência de Brasileiros no Mundo, em Salvador, e um dos pontos que eu levarei para a conferência é justamente a problemática dos jovens e adolescentes ao redor do mundo que estão sem identidade brasileira.

 

BT - Quais os projetos e alvos da igreja a partir dos 25 anos?

PS - Quais são os sonhos da igreja daqui pra frente? Primeiro sonho eu já apresentei para a igreja, é formar uma nova geração de líderes. Nó precisamos formar essa geração de jovens e adolescentes que assumirão o comando da igreja nos próximos anos. Segundo: precisamos concluir três grandes projetos que temos ao redor do mundo. Um no Haiti, os orfanatos que construímos; outro na vila dos Ticunas – um centro esportivo, e outro na vila dos Jacarés,  um centro médico e ambulatório completo. Queremos alcançar lugares não alcançados, como a África, e queremos propor uma discussão ampla nos próximos anos sobre qual o papel da nova geração na vida da comunidade brasileira. Como não perder essa geração 100% para os Estados Unidos. Como preservar a língua, os costumes e a cultura brasileira no coração deles uma vez que a primeira geração está passando. É muito importante que a gente estabeleça uma meta para preservar isso. Construir a clínica médica da PIB é outro projeto. Já estamos preparando os espaços para isso que precisam entrar em reforma para ser construído os ambulatórios. A ideia é depois de construído fazermos parcerias com médicos e dentistas que possam doar um dia para comunidade… também teremos cabeleireiros. A ideia é termos não só uma clínica médica mas um centro de atendimento mais amplo.

 

BT - Para finalizarmos, qual a mensagem que o senhor mandaria para a comunidade hoje?

PS - Minha mensagem é de que estamos vivendo um dos melhores momentos da comunidade dos últimos tempos. A crise passou. Os Estados Unidos estão em franco crescimento e desenvolvimento. Infelizmente a crise no Brasil se aprofundou e isto muda o quadro imigratório. Há pessoas vindo de lá, e não mais voltando. A minha mensagem é que os novos, que estão chegando, aprendam com quem já está aqui há muito tempo, não tomem decisões precipitadas para não perder o que trouxeram de lá; perguntem e pesquisem antes de decidir. E que os mais antigos abram caminho para os mais novos, cedendo espaço para trabalhar. Sendo sinceros nas respostas e direções. E que a comunidade se una cada vez mais entre essa velha geração que está aqui e esta nova geração que está chegando. Esse é o meu desejo e minha mensagem.

 

 

Fonte: Vanuza Ramos