Publicado em 18/04/2016 as 2:00pm

Psicóloga fala sobre o emocional do imigrante

Entrevistamos a psicóloga Ana Luiza Mano, formada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que atualmente mora em New York

Recentemente tivemos alguns casos de suicídio de imigrantes brasileiros aqui nos Estados Unidos. Em menos de 2 meses três casos foram noticiados pela mídia.

Nossa redação foi em busca de uma explicação de especialistas para saber mais sobre o emocional do imigrante brasileiro nos Estados Unidos, bem como quais são as formas de notarmos se nossos amigos, familiares ou nós mesmos, estamos apresentando algum estágio de depressão.

Entrevistamos a psicóloga Ana Luiza Mano, formada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que atualmente mora em New York.

Quais são os maiores problemas psicológicos enfrentados por brasileiros que vivem em outro país?

Ana Luiza: Algumas das dificuldades mais comuns a quem vive no exterior passam pelas questões da convivência com novos costumes, com novas pessoas e possivelmente com um novo idioma, além do fato de haver deixado toda uma vida em outro lugar, o que pode ou não trazer sentimentos como saudade e até mesmo solidão.

O choque cultural pode afetar até que ponto?

Ana Luiza: A questão do choque cultural em si pode variar caso a caso. De alguma forma, conviver com hábitos diferentes dos que estamos acostumados pode gerar certa estranheza, porém a decisão de se viver em outro país normalmente ocorre através de um balanço entre diversos fatores, onde a cultura local passa a ser mais um deles. Na mesma medida em que a familiaridade parece se perder, é necessário buscar, ou mesmo criar, novas referências que façam sentido dentro desse novo contexto, e fazer o possível para abrir uma disponibilidade afetiva para abraçar as novidades e aprender com o que o local tem a oferecer.

Como a terapia pode ajudar um paciente?

Ana Luiza: A psicoterapia é um espaço de acolhimento onde se pode conversar sobre pensamentos, dificuldades e questões em geral sem julgamentos. O psicólogo ajuda o paciente a enxergar novas possibilidades para sua vida, iniciando assim a construção de um caminho por onde essa pessoa consiga sentir-se confortável para seguir sua história de maneira mais livre, mais autêntica.

A Depressão já foi considerada o mal do século. Quais são os índices de casos de depressão entre os imigrantes?

Ana Luiza: A depressão é uma fragilização emocional que pode se manifestar de diferentes maneiras, de acordo com uma série de fatores. Se não construímos conexões afetivas significativas ao longo da vida, corremos maior risco de entrar num estado de isolamento e solidão, que pode ou não acarretar numa depressão. Alguns imigrantes podem viver essa sensação ao perceberem-se envolvidos numa nova experiência na qual nem sempre conseguem enxergar sentidos e significados. Muitas vezes um conjunto de acontecimentos pode mobilizar um indivíduo que já se sente fragilizado devido a uma distância física de suas referências de vida. Isso pode gerar uma angústia existencial e sensação de perda de controle do próprio existir. Vale ressaltar que não é necessariamente algo que irá acometer a todos que imigram ao exterior, e tampouco pode-se dizer que, caso venha a acontecer, será algo vivido imediatamente na época da mudança, podendo ocorrer até mesmo anos após a imigração. De fato, a depressão está mais vinculada às possibilidades que uma pessoa enxerga para sua vida do que à situação de imigrante em si.

Tivemos alguns casos de suicídio na comunidade brasileira que vive aqui nos EUA. Existe alguma forma da pessoa ou mesmo familiares e amigos notarem que o emocional está abalado?

Ana Luiza: Existem alguns sinais para os quais se pode ficar atento: quando há um desinteresse geral na vida e nos assuntos que rodeiam essa pessoa (pode estar em depressão); quando alguém menciona direta ou indiretamente o tema suicídio ou algo relacionado a tirar a própria vida (algumas vezes é entendido como algo dramático e não é levado à sério); quando ocorre alguma mudança brusca na vida de um indivíduo, (como uma perda repentina ou algo inesperado em geral); quando há alguma associação entre uma doença mental e uso de álcool, drogas e/ou remédios em geral (em alguns casos essa combinação pode exponencial um potencial suicida); quando uma pessoa que está constantemente deprimida demonstra uma modificação drástica de humor repentina e sem justificativa aparente (pode estar planejando algo relacionado a suicídio), ou ainda quando já houve tentativas anteriores, é recomendado redobrar a atenção. Na dúvida sobre o comportamento de alguém conhecido, é sempre recomendado consultar um profissional da área da saúde para receber orientações específicas, além de sugerir que a própria pessoa também procure atendimento.

Ciências humanas são realmente difíceis de estabelecer metas e objetivos. Como explicar isso ao paciente que busca uma "cura" rápida para o problema que enfrenta?

Ana Luiza: Quando uma pessoa procura um psicólogo em busca de uma "cura", é importante lembrar que o trabalho desse profissional não é oferecer respostas e soluções, mas sim fornecer elementos para possibilitar uma reflexão sobre as questões de vida desse indivíduo. Dessa forma, essa pessoa poderá aprender a utilizar os recursos de que ela mesma já dispõe para começar a modificar sua relação consigo mesma e com o mundo à sua volta, libertando-se assim de restrições que vivencia.

Hoje, quando um paciente procura um psicólogo, como ele se propõe a se ajudar?

Ana Luiza: Uma pessoa que busca um psicólogo geralmente está mais aberta a ouvir a si mesma, prestar mais atenção em como pensa e age em sua vida. Através do que é dito por ela nos encontros, além de possíveis apontamentos feitos pelo psicólogo, é que se pode construir uma relação de confiança, onde se cria espaço para transformações.

Com a correria do dia a dia vocês montaram um grupo que atende online. Como tem sido esse trabalho?

Ana Luiza: Com o intuito de facilitar o contato e abrir caminho para quem não consegue chegar por outras vias a um psicólogo, criei o site Psicólogos da Internet em 2012. Desde que obtivemos a permissão do Conselho Federal de Psicologia brasileiro para atuar, minha equipe e eu temos oferecido serviços como: orientação psicológica via Internet (Skype/Hangouts/FaceTime/WhatsApp/E-mail) para brasileiros ao redor do mundo, consultoria em RH, consultoria para psicólogos que desejam trabalhar online (como montar site, acompanhamento dos passos para conseguir o selo, divulgação ética de serviços etc) e além de tudo isso, estamos com um novo serviço de supervisão clínica (presencial e online), realizado em grupos. Também realizamos entrevistas e palestras sobre a temática da psicologia e tecnologia, com diversos focos possíveis.

A tecnologia hoje faz parte da vida de quase todo mundo, transformando o mundo virtual menos impessoal. Você acredita que essa distância física faça a diferença?

Ana Luiza: A palavra "distância", quando associada ao uso da Internet, dá uma impressão de que se está longe de alguma forma. Ao se refletir sobre relacionamentos, a sensação de proximidade tem mais a ver com quem a sente do que com uma localização geográfica. Como um exemplo disso temos os sites de relacionamento amoroso, onde é possível não apenas encontrar alguém compatível a nossas expectativas, mas também interagir com essa pessoa e - por que não - apaixonar-se. Então, de algum modo, pode-se afirmar que somos nós mesmos que determinamos qual a distância que nos permitiremos ter das outras pessoas. Pessoalmente, entendo que nosso envolvimento com o outro depende de como nos comportamos e sentimos frente à ferramenta que estamos usando: muitas vezes é possível estar "perto" via Internet e "longe", ainda que sentado ao lado de alguém.

Grande parte dos brasileiros são, por natureza, pessoas que gostam do contato pessoal. isso tem isso algum empecilho no método de consulta de vocês?

Ana Luiza: O Brasil possui uma das presenças mais ativas nas redes sociais ao redor do mundo. Isso mostra como as pessoas agregaram a tecnologia em suas vidas, e que de alguma forma vem utilizando estes recursos para entrar em contato com outras pessoas. É natural e esperado que se busque atendimento dos serviços de saúde mental neste espaço também. Uma vez que se esteja familiarizado com as plataformas nas quais se conversa com o psicólogo, não vejo o contato como impessoal, e sim como mais uma possibilidade de encontrar acesso a uma ajuda para momentos difíceis. Para alguns, é a única maneira pela qual conseguem expressar o que sentem, sem o peso de um possível "olhar" com julgamentos. O anonimato é um facilitador para que muitos iniciem um processo de busca por auxílio, pois de alguma forma sentem-se "protegidos" pelo ambiente virtual. Tudo depende então de como se compreende esta possibilidade de contato.

Fonte: Marisa Abel