Publicado em 23/05/2016 as 6:00pm

Em NYC Guilherme Arantes fala sobre a trajetória musical brasileira

Em sua turnê pelos Estados Unidos, o cantor brasileiro esteve em New York City e conversou com nossa redação sobre o cenário musical brasileiro.

Foi em um jantar especial com em Manhattan, na noite de do último dia 16, que Guilherme Arantes recebeu nossa redação para um bate-papo super descontraído. O público presente pode conferir algumas músicas do artista, uma palhinha do show realizado no Iridium, na última quarta-feira, bem no coração da Big Apple.

Fazia 10 anos que ele não se apresentava aqui nos Estados Unidos. Ele é responsável por músicas de grande sucesso que estão registradas na memória de milhares de brasileiros, sendo uma das mais pedidas "Planeta Agua".

Guilherme falou sobre a história recente da música brasileira e revelou como se sente com o atual cenário da música no Brasil. Confira!

Você é um artista muito admirado por seu repertório e trajetória musical. No seu ponto de vista como é a história recente da música brasileira?

O Brasil dos anos de 1950 era um Brasil muito aristocrático, de muita exclusão social, você não tinha negro na música, o interior do Brasil pouco importava, o que importava era o Rio de Janeiro, o que acontecia nos cassinos, nos hotéis, em um ambiente aristocrático e um ambiente ‘embaixador’. Quando surgiu a Bossa Nova, essas músicas vieram de famílias classe alta de Copacabana, da alta classe carioca, com grandes nomes, e você vê a coisa de muita oligarquia, o Brasil era oligárquico. Nos anos de 1960 o nosso País começa a ter a inclusão social, vinda do socialismo de Chico Buarque, de Geraldo Vandré e do próprio Tropicalismo, isso foi um processo que é político e ao mesmo tempo cultural social. Nos anos de 1970 tivemos o fenômeno da black music no mundo todo, e no Brasil teve muita música negra, foi início de uma integração na cultura, quando surgiu a black music com Cassiano, Tim Maia e com Tony Tornado e estes nomes todos. Quando você chega nos anos de 1980 você tem uma bolha da classe média que foram as bandas do Pop Rock, o predomínio dos artistas urbanos, universitários de classe média e alta. Nos anos de 1990 você tem a inclusão de outros segmentos como o agronegócio, aí vem o sertanejo, e também você tem cenas políticas como o PFL do ACM na Bahia que gera a Axé Music, você tem a jovem guarda negra que traz o pagode. Quando o jovem da periferia ele fica rico com este estilo musical. O pagode é um fenômeno muito legítimo neste período do Brasil.

Você chegou a comentar em sua biografia no seu site que “o Brasil vive um momento onde o consumo popular voltado para a classe D que ascendeu à classe C deu a tônica ao mercado. Os produtos populares cresceram vertiginosamente quando uma massa de ex-excluídos se integrou na economia, e a velha classe média foi esmagada, imprensada entre as camadas superiores da elite que não sai de cima e as camadas inferiores de um povão poderosíssimo e recém-chegado, que impôs sua nova ordem e suas preferências”. Como você analisa a atualidade musical?

Na época atual a música se tornou muito utilitária, a minha crítica é que a música perdeu o sentido de ter um foco na música, hoje ela é utilitária das festas, onde o protagonista não é mais o artista e sim o público. Então hoje é o público quem faz o show e o artista faz apenas o pano de fundo, não importa que show seja, se for forró ou pagode ou outro estilo, quem faz a festa hoje é o público com seus aparelhinhos, com seu celulares gravando vídeos. Esse fenômeno hoje em dia é uma transformação muito grande de sociedade.

Qual sua maior crítica?

Que crítica eu posso fazer? Nunca mais a música vai ter o comando, onde o interesse não está mais na música. É o que eu chamo de utilitário, você cria uma música para uma cena que já existe. Você não vai mais criar uma cena, você se encaixa em uma coisa que já existe.

Mas isso também foi utilizado antes?

Sim, e o que eu digo também é muito questionável, por exemplo, você pega a música progressiva, ela se encaixava no que já existia, se você pegar a música política de Chico Buarque o cenário já existia, você que chegava lá, criava as letras e se encaixava em uma música utilitária em um momento que era super importante. Tudo isso que eu to falando é altamente questionável, porque sempre existiram cenários previamente preparados. A única coisa que eu acho que atualmente a qualidade é rasa, porque o cenário é de festa, é lúdica, todo mundo bebendo, dançando, o cara que pensa ‘hoje vou comer toda a mulherada’, então a pessoa já faz a música de acordo com isso, e isso é ruim, é fraco.

Analisando o cenário musical podemos dizer que a música está intrinsicamente ligada com a política, mas o atual cenário político do Brasil não tem motivado as pessoas a fazerem as músicas de protesto. Como você analisa isso?

É o chamado politicamente correto, hoje já não é mais politicamente correto você fazer uma marchinha carnaval tirando sarro dos políticos, e isso não acontece mais, tudo se tornou muito sério quando de sério não tem nada, é uma grande palhaçada. Como nós não temos uma marchinha de carnaval? É uma coisa incrível! Como não temos a marchinha do Lulinha, da Dilminha, do Termezinho. Se fosse nos anos de 1950 com Lamartine e Noel Rosa você teria as músicas críticas da sociedade de verdade, nós estamos em uma época muito estranha onde o politicamente correto acaba emasculando a população. Não pode falar mal de nada, é esquisito. Estamos em uma época muito contraditória.

Você acha que ainda há possibilidade de mudanças?

Eu acho que o Brasil passa por uma discussão que é fundamental passar, e no futuro vamos dar graças à Deus que passamos por esse drama dessa geração e acho que vem um tempo bom para o Brasil mais pra frente.

De toda sua trajetória, qual foi a sua maior lição que você aprendeu, musicalmente falando?

Que o que vale mais a pena é você ter sua marca, seu jeito, acima de qualquer opinião, fazer do seu jeito e acreditar no seu estilo, porque quem tem estilo tem tudo, mais dia ou menos dia o estilo vira moda, a moda vira hype e isso vira uma carreira de sucesso. Sem o estilo e a personalidade não adianta nada. É o que eu mais dou valor é de eu ter sido eu mesmo. Ai eu chego aqui inteiro, com 40 anos de carreira.

Fonte: Marisa Abel

Top News