Publicado em 30/08/2016 as 4:00pm

Colômbia vive 1º dia de paz com as Farc e passa a mirar outros grupos

País poderá deslocar mais policiais para controlar grupos criminosos. Acordo de paz terá de ser submetido à população em plebiscito.

Os colombianos viveram nesta segunda-feira (29) um dia histórico, o primeiro de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) após 52 anos de conflito. As atenções estão voltadas agora para outros grupos armados que podem ocupar o espaço deixado pela guerrilha.

A equipe negociadora do governo iniciou o dia 1 do cessar-fogo bilateral e definitivo, que começou na meia-noite, com uma entrevista na qual seus integrantes advertiram os desafios de segurança que se abrem no país.

O general reformado do exército Jorge Enrique Mora Rangel, integrante da equipe negociadora, afirmou que há uma possibilidade que um "grupo pequeno das Farc se declare em dissidência" mesmo com os acordos de paz alcançados em Havana, Cuba, entre o governo colombiano e a guerrilha, após quase quatro anos de diálogos.

No entanto, salientou que tanto o governo como as forças militares e a polícia nacional "já estão atentos para enfrentar as circunstâncias".

Mora destacou que essas possíveis dissidências afetam apenas à Frente Um e acrescentou que os comandantes das Farc que estão em Cuba, onde até na semana passada negociavam a paz, "estão pendentes da solução desse problema".

O oficial retirado também se referiu ao alívio que representa para os militares não ter de combater às Farc, a guerrilha mais antiga e poderosa do continente, já que terão "maior liberdade de ação", o que lhes permitirá "ficar com mais soldados para canalizar" suas operações.

Essas novas ofensivas se dirigirão contra o resto de "atores que não querem se submeter ao Estado de direito e da paz".

Entre os desafios a enfrentar estão, além das dissidências das Farc, a briga pelos territórios controlados por décadas por este grupo, que em sua décima conferência, que acontecerá entre os dias 13 e 19 de setembro no sul do país, abandonará a luta armada e se transformará em movimento político.

As autoridades acreditam que o Exército de Libertação Nacional (ELN), a única guerrilha que ficará ativa após o definitivo desaparecimento das Farc, buscará ocupar esses espaços em uma disputa com os bandos criminosos nascidos após a desmobilização das paramilitares Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).

Além disso, em algumas áreas coexistem com um reduto do Exército Popular de Libertação (EPL), uma guerrilha desmobilizada em 1991 e cujos últimos integrantes são considerados pelo governo como uma quadrilha dedicada ao narcotráfico.

Nesse complexo entrecruzado, o ex-diretor da polícia Óscar Naranjo, também membro da equipe negociadora, enviou uma mensagem tranquilizadora ao explicar que tiveram "certeza que haverá grupos que queiram persistir no crime", algo que tinham previsto.

Naranjo ressaltou que "a capacidade excedente" com a qual vai contar a polícia "aumenta de maneira substancial" para "submeter os criminosos ao Estado de direito".

Por sua parte, o presidente Juan Manuel Santos deu seu primeiro discurso em uma Colômbia em paz com as Farc agradecendo aos militares e policiais pelo combate que travaram durante 52 anos.

"Graças ao sacrifício e patriotismo de nossos soldados e policiais, a dívida de gratidão é infinita", disse o presidente na inauguração de um centro de reabilitação em Bogotá para agentes feridos.

O chefe de Estado disse que é uma "feliz coincidência" que se tenha posto em funcionamento o centro para "ressarcir os heróis da pátria" no mesmo dia que começa o cessar-fogo definitivo.

Durante a entrevista coletiva dada pelos negociadores do governo, também tomou a palavra o alto comissário para a Paz, Sergio Jaramillo, que indicou que a Colômbia vive hoje um momento "extraordinariamente importante". Além disso, destacou que "se não morrer um só colombiano mais pela guerra, terá válido a pena todo o esforço" que realizaram nos diálogos de paz durante os últimos 45 meses.

O chefe da equipe negociadora, Humberto de la Calle, também respondeu a algumas perguntas surgidas sobre o plebiscito que será realizado no próximo dia 2 de outubro para submeter os acordos à aprovação popular.

De la Calle comentou que as Farc não poderão fazer proselitismo com armas, apesar de no dia do plebiscito ainda não terem deixado seus fuzis.

No pacto assinado entre as duas partes está previsto que os guerrilheiros deverão desarmar-se até 180 depois da assinatura oficial do acordo, o que acontecerá em uma data ainda por definir entre os dias 20 e 26 de setembro.

Fonte: http://g1.globo.com/