Publicado em 12/09/2016 as 2:00pm

De mudança para NY, produtor brasileiro ensina o segredo do sucesso musical

Depois de trabalhar com Emicida e Skank, produtor brasileiro está de volta a New York

Mauricio Cersosimo nasceu no Brasil, mas não dá para dizer que ele é um produtor musical brasileiro. Sim, Mauricio já trabalhou com diversos artistas nacionais, de Emicida a Ney Matogrosso, de Skank a Sepultura. Mas sua carreira e a presença constante em estúdios de New York o levaram a ser considerado um produtor global - e quando se atinge esse estágio ninguém mais se importa com o local onde o profissional nasceu.

Qual foi o primeiro disco que você comprou na vida?

Como sou o mais novo de uma família de três irmãos, demorei muito para comprar meu primeiro disco. Com aquela coisa de irmão caçula, tem sempre aquela história de gostar de tudo o que o irmão mais velho gosta. E como meu irmão já tinha praticamente tudo o que eu gostava, demorei bastante até decidir entrar em uma loja e comprar um disco. Nasci em 1974, então quando comecei a gostar de bandas, no começo dos anos 1980, meu irmão já tinha uma bela coleção de heavy metal, com discos do Iron Maiden e Kiss. Lembro dele chegando em casa com o 'Piece of Mind', do Iron Maiden, foi demais! Lembro que minha mãe também já tinha alguns discos dos Beatles, Rita Lee e Supertramp. O primeiro disco que comprei de verdade foi em sociedade com um amigo do bairro, lá por 1985 ou 1986. Fomos em uma loja e vimos a coleção 'Heavy Metal Attack', que tinha acabado de chegar às lojas. Gostamos da capa do disco do Queensryche, 'The Warning', e aí dividimos o valor. Eu ficava uma semana com o disco, ele ficava na outra semana... Aí um dia a gente brigou e tive que comprar a outra parte do disco. Foi a minha primeira grande lição no 'music business' (rs)

Quando você parou e pensou: ‘vou ser produtor e engenheiro de som'?

Primeiro veio o fã de música e, logo em seguida, o músico. Comecei a estudar guitarra aos 11 anos, por influência do meu irmão e do meu primo. E depois comecei a ter bandas com meus amigos de bairro e na escola. A virada veio quando comecei a gravar demos e entrar no ambiente dos estúdios. Aquilo me seduziu muito mais do que o palco. Nunca gostei muito de me apresentar ao vivo, prefiro o backstage, o behind the glass, a composição, a formatação, a sonoridade. Não gosto muito de aparecer. Muitos músicos se tornam produtores, mas continuam sendo artistas ou músicos profissionais. No meu caso eu troquei mesmo, hoje me satisfaço 100% sendo apenas Produtor e/ou Engenheiro de Som. Adoro timbrar, escolher os sons, ouvir as performances, escolher o repertório. Quando estou mixando uma música, sinto que estou tocando todos os instrumentos.

Qual é sua formação? Qual é a formação profissional ideal para um produtor que quer seguir carreira?

Comecei estudando guitarra e violão com vários professores, mais tarde aprendi um pouco de harmonia básica e arranjo Também brinco bem de leve em outros instrumentos, teclado, baixo, bateria. Na parte de Produção de Estúdio e Engenharia de Áudio, fiz todos os cursos possíveis que encontrei pela frente, tanto aqui quanto lá fora. Sou maluco por buscar conhecimento e aprender cada vez mais. Trabalhei com muitos produtores e técnicos com bagagem e carreiras infinitamente superiores à minha e isso me fez humilde o bastante para saber que você está sempre em formação e que nunca pode achar que já sabe tudo. O problema hoje é que tem informação demais na internet, mas prática e vivência de menos. Eu preferi seguir o roteiro old school, fui estudar, vrrei assistente, aprendi com caras que tinham 20, 30 anos de experiência a mais que eu. Horas e mais horas de estúdio, pequenas sessões, médias sessões, grandes sessões, vários estúdios, vários erros, vários tropeços... Fui subindo a escada. Hoje você entra na internet e tem 10 mil vídeos do mesmo assunto, ou seja, você tem informação, mas não tem mais formação. Parece que todo mundo tá mais preocupado em ensinar do que em aprender, todo mundo publica vídeo-aula na internet. Estou pensando em lançar um aplicativo chamado 'Pro Tools Go', como o Pokemon Go... Assim todo mundo tira a bunda da cadeira e sai do computador para aprender na prática (rs).

Qual foi o artista mais difícil que você já gravou?

Produzi uma banda para a Sony em 2006 chamada Luxúria, logo que voltei para o Brasil depois de ter trabalhado um tempo em Nova York. Foi bem complexo, tanto pelo fato de ter que me adaptar à maneira de se trabalhar aqui, quanto pela complexidade da banda, seus integrantes e 'management'. Acho que tudo isso se somou no resultado final, toda essa loucura está no álbum. Gosto demais desta produção, eu não tinha nenhuma proximidade com o mercado daqui e fiz o que eu queria. Difícil ter tanta liberdade sonora em um projeto de uma grande gravadora.

Qual foi o artista que te deu mais prazer em trabalhar?

Difícil dizer, pois cada sessão ou disco tem a sua história e característica. Trabalhar com artistas mais famosos pode ser legal por um lado, mas às vezes pode ser frio e sem emoção. Às vezes você trabalha com um artista menor que te dá uma super liberdade. Ao mesmo tempo, trabalhar com artistas com uma bagagem maior é sempre interessante pela história, pelos papos, e por tudo que ele traz junto para o estúdio além da música. E daí você guarda aquele momento para sempre, fica marcado.

Qual foi o artista que te trouxe mais desafios?

Não me lembro exatamente. Acho que foi o período em que comecei a trabalhar em Nova York. Adoro desafios, a adrenalina e a tensão das sessões, gosto de preparar tudo antes. Geralmente os desafios maiores acontecem quando você tem que fazer algo que não está acostumado, em termos de estilo e instrumentação. De qualquer maneira, é sempre bom sair da zona de conforto. Tento fazer algo que nunca fiz e experimentar alguma coisa diferente em todas as sessões de gravação, senão você não evolui nunca.

Qual foi o artista mais talentoso com quem você já trabalhou?

É uma pergunta difícil, mas tive o prazer de trabalhar com Donald Fagen, cantor, tecladista e fundador do Steely Dan, banda de jazz/pop dos anos 1970. Esse cara é um mostro nos arranjos harmônicos e melódicos, e era impressionante ver o respeito que todos tinham por ele. Mas trabalhei com muitos artistas talentosos tanto aqui quanto lá fora, como Ney Matogrosso, Samuel Rosa, Andreas Kisser, Iggor Cavalera, para citar alguns. Tenho trabalhado muito com a galera do rap brasileiro, principalmente o Emicida. Ele me impressiona demais, para mim é um dos artistas mais completos que já conheci. Difícil ver alguém que sabe exatamente o que quer e aonde quer chegar o tempo todo, não titubeia nunca. E, ao mesmo tempo, é super generoso e aberto.

O que um artista precisa para fazer sucesso?

Definitivamente não tem fórmula matemática. Mas acho que além do talento natural, a determinação é fundamental. Tem também um lance de acreditar, meio que cegamente, no que está fazendo, sem ficar se referenciando muito com o que está acontecendo. Um lance meio ingênuo, verdadeiro, é o que as pessoas vão achar legal ou o que vai marcar.

Por que existe gente talentosa, que toca bem, canta bem... e mesmo assim não faz sucesso?

Talvez falte justamente esse lance diferente, novo, ingênuo, inesperado. Tem artista que só tenta o 'certo', o 'perfeito', o 'óbvio'. Isso pode até funcionar às vezes, mas não é sempre. Como eu disse, não tem fórmula. Fazer sucesso hoje é cada vezes mais restrito a algumas regras 'óbvias' e sem novidades. Isso em um certo sentido mata a indústria, pois o independente se movimenta de forma muito precária. A internet cria esses mundos paralelos onde as bandas tem milhões de 'Likes', mas ninguém conhece. O grande lance hoje para vencer é sair desses mundos paralelos e ficar conhecido numa esfera maior. A briga pelo espaço é cada vez mais desigual.

O que você procura em uma música quando está produzindo ou mixando?

Sensações e experiências sonoras, muito menos técnica e muito mais um lance artístico. É como você estudar teoria musical durante anos, aí na hora de improvisar você esquece tudo e vai no feeling. As pessoas me perguntam coisas técnicas, como a frequência que eu uso no bumbo, qual é o melhor compressor para a voz... na verdade isso é o que menos importa.

O que você ouve quando não está trabalhando?

Em casa eu ouço pouca música, prefiro ficar em silêncio. Sou do tipo vizinho chato, qualquer barulho me incomoda demais.

Como você foi parar nos Estados Unidos? Com quem você trabalhou?

Sempre quis estudar e viver nos Estados Unidos um tempo, desde quando tocava guitarra. Fui fazer o curso da S.A.E (School of Audio Engineer) em Nova York no final de 2000 e quando terminou o curso arrumei um estágio em um estúdio chamado Skyline Studios. Era um estúdio bem conhecido, onde já tinham gravado Madonna, David Bowie, B-52, entre outros. Dei sorte, pois no dia que comecei eles estavam reciclando os outros assistentes no estúdio. Me dei bem e peguei a vaga logo de cara, pois tinha mais experiência que os outros candidatos. E essa brincadeira durou até 2005. Passou por lá Steely Dan, Avril Lavigne, o vocalista do Living Color Corey Glover, o ex guitarrista do Megadeth, Al Pitrelli, o guitarrista e fundador do Chic, Nile Rogers, e muitos músicos e artistas famosos.

Quais são os seus próximos passos?

Nos últimos anos me especializei em Mixagem. Em relação à Produção, só faço o que eu realmente gosto, por prazer, como o último disco do Toy Shop. Ou a banda Ted Marengos, que estou gravando no Brooklyn, em Nova York, que, tem que ter muito a ver comigo. Essa gravação faz parte da minha reaproximação com o cenário de Nova York, estou estudando a possibilidade de abrir um estúdio próprio lá no futuro próximo. Como 90% do meu trabalho é relativo a mixagens, posso fazer tudo onilne, então não importa muito onde estou morando.

Fonte: Da redação