Publicado em 12/09/2016 as 7:00am

Sobrevivente brasileira volta a NY para pagar dívida com consciêcia

"O cheiro de carne humana queimada... Até hoje não encontro uma palavra para descrever. Parece um forno", lembra Adriana Maluenda

A paranaense Adriana Maluendas, 44, escreveu o livro "Além das Explosões", à venda na Amazon a partir de outubro, para contar como superou o trauma do 11/9. O governo brasileiro a reconhece como única sobrevivente do país.

"Sou formada em comércio exterior e vim aos Estados Unidos representar uma comunidade agrícola do sul do Paraná. Precisava fazer um teste para tirar uma licença em commodities. Aos 29 anos, estava no auge da carreira", disse.

Ela relata que desmarcou três vezes aquela viagem. "Então recebi um e­mail dizendo que setembro era a última chance de fazer o exame. Na terça­feira [11/9] seria a primeira prova, às 9h30, na torre sul, a segunda que foi atingida", continua.

Adriana escoleu o Marriot (um dos prédios do complexo World Trade Center, conectado às duas torres e destruído com a queda da torre sul). "Acordei cedo e fui encontrar meu tutor. Até hoje ele diz que sobreviveu porque estava me esperando no lobby. Seu horário de entrada era 8h", relata.

Depois do primeiro estrondo, bateu um nervoso e ela saiu. No corredor, havia uma senhora de cadeira de rodas e uma moça na janela, paralisada. A brasileira olhou para fora também. Já havia pedaços de corpos no chão, fogo, destroços.

Aí começou o pânico, gente descendo de pijama. "Não havia rampa, e eu disse para a senhora: Vou buscar ajuda. Ela era forte, não conseguiria carregá­la", relembra.

Adriana saiu levando a menina da janela. Lá embaixo as luzes piscaram, um barulho ensurdecedor. O elevador explodiu. "Me empurraram, e, quando pus os pés para fora do hotel, o segundo avião já havia colidido. Fui pisoteada brutalmente. Quebrei meu dente da frente, trinquei duas costelas", se emociona.

Antes de as torres desabarem, todos ficaram parados. Só se ouviam os gritos vindos dos andares. "As pessoas começaram a se jogar do alto. Cada vez que um corpo caía, você escutava o eco no ar", fala. "O cheiro de carne humana queimada... Até hoje não encontro uma palavra para descrever. Parece um forno. Quando os prédios caíram, era explosão atrás de explosão. O pessoal correu. Quando olhei para trás, vi aquela nuvem negra engolindo tudo, ficou difícil respirar. Caí de novo. A única coisa que pedi naquele momento: que a minha família encontre meu corpo. E fechei os olhos", continua.

Quando a fumaça começou a dissipar, ela se levantou, junto com as demais pessoas e lembra que escutou diferentes idiomas. "Acho que eram rezas", fala.

A brasileira caminhou por oito horas. Os sintomas de estresse começaram no mesmo dia. Ela não conseguia lembrar nenhum telefone. A sorte é que tinha os números na capinha do seu passaporte.

"Aquele dia era o último da quimioterapia da minha mãe, um câncer de seio. Ela só soube de tudo quando voltei ao Brasil. Quando achei um hotel e entrei no banho, vi marcas de solas de sapato no braço", acrescenta.

Adriana passou a noite numa praça chorando. Começou um sentimento de culpa de ter deixado aquela senhora para trás. "Decidi voltar [ela mora em NY desde 2003] por causa da saúde, já que ainda tenho problemas de coluna, e também pela minha consciência. Sabia que tinha de buscar aquela cadeirante", finaliza.

Em 2011, enfim a encontrei. A mãe dela, na verdade. Uma senhorinha forte que me contou que ela morreu, mas somente oito anos após o atentado.

Fonte: Da redação