Publicado em 4/11/2016 as 10:00pm

Peça teatral brasileira é apresentada de forma diferente em NY

Peça teatral brasileira é apresentada de forma diferente em NY

Um mergulho no universo da escritora Clarice Lispector é o que propõe Dentro do Coração Selvagem/Inside The Wild Heart, espetáculo teatral que estreou nesta quinta-feira, 3, em New York. Ao contrário de uma peça tradicional à qual o público senta e assiste, o espetáculo oferece à plateia uma experiência imersiva por intermédio de 18 diferentes espaços cênicos, em um palco aberto tal qual um labirinto a ser explorado.

Encenado em português e em inglês, Dentro do Coração Selvagem chama a atenção por sua estrutura não linear de contar várias histórias ao mesmo tempo. Em meio às cenas simultâneas, o público é convidado a interagir com personagens, imagens, sons e até cheiros que remetem à Clarice Lispector. É possível abrir gavetas, vagar pelos ambientes e mexer em tudo enquanto o espetáculo se desenrola.

“Em sua obra, Clarice descreve muito as sensações, temperaturas, texturas e achamos que isso tinha que estar incorporado”, diz a atriz Andressa Furletti, co-idealizadora do espetáculo. Desde 2011, Andressa e sua companhia teatral Grupo.BR montam em Nova York peças de autores brasileiros em português. Desta vez, o grupo resolveu também usar alguns trechos em inglês na apresentação.

Convidada para assumir a direção do espetáculo, a coreógrafa Regina Miranda traz seus 35 anos de experiência em cinema, TV e teatro e dá precisão rítmica à dramaturgia cênica. “Optamos por não escolher uma história específica, mas sim trazer as questões ‘claricianas’ com vislumbres de vários livros”, afirma a diretora, que constrói a montagem a partir dos diversos recursos de linguagem da escritora. “Clarice passa de autora a narradora e dessa condição para personagem. Existe um deslizamento dentro de sua obra e por isso construímos o espetáculo fazendo com que esses eixos se atravessassem.”

Para entrar no ‘coração selvagem’ e pulsante da escritora, o público inicia a jornada em uma sala de espelhos onde a primeira cena apresenta uma das indagações centrais de sua obra – “o que você faria e como seria se você fosse você?” – e dali em diante segue por uma hora e meia de Clarice Lispector na veia. “É para sair de lá ensanguentado”, brinca a atriz e co-idealizadora do espetáculo, Débora Balardini. A ideia da companhia é que a ambientação multimídia desperte o interesse do espectador pela autora, que vem se tornando cada vez mais popular para o público norte-americano.

“Estamos testemunhando o impacto literário de toda essa ‘Lispectormania’ nos EUA. Cada vez menos as pessoas a identificam como ‘o Kakfa brasileiro’ ou ‘a Virgínia Woolf brasileira’ e simplesmente referem-se a ela como Clarice Lispector”, diz a tradutora Katrina Dodson, premiada este ano nos EUA por sua tradução recém-lançada The Complete Stories, livro que reúne cinco romances de Clarice Lispector. Além de ganhar o Pen Translation Prize, foi o primeiro livro de uma autora brasileira a estar na capa do Sunday Book Review, caderno literário do New York Times.

Quem tiver a oportunidade de assistir e participar de Dentro do Coração Selvagem e tiver familiaridade com a obra de Clarice Lispector vai reconhecer fragmentos de histórias como A Hora da Estrela, O Ovo e a Galinha, Mineirinho e mais de dez livros e contos presentes em toda a montagem, até na performance de música ao vivo que ocorre durante a apresentação. Além dos cinco atores brasileiros e um português em cena não apenas com o uso da palavra, o teatro físico do Grupo.BR ganha reforço também pelos diversos estímulos visuais e auditivos. “São várias instalações com uma identidade sonora própria”, diz o músico brasileiro Sérgio Krakowski, que também participa do espetáculo ao lado do músico franco-italiano Mario Forte.

“Como a cidade tem gente de tudo quanto é lugar e como as pessoas estão abertas para novas culturas, New York propicia esse tipo de experiência”, afirma Andressa. Dentro do Coração Selvagem é a quarta montagem do Grupo.BR e uma ousada tentativa artística de fazer com que Lispector seja entendida mesmo pelos que não entendem nenhuma das línguas.

Fonte: Da redação