Publicado em 5/11/2016 as 8:00am

Por ajudar imigrantes, fabricante de iogurtes recebe ameaças em NY

O empresário Hamdi Ulukaya

Sob muitos critérios, a Chobani representa uma história clássica de sucesso para um imigrante nos Estados Unidos. Seu fundador, Hamdi Ulukaya, é um imigrante turco de ascendência curda. Ele comprou uma fábrica de iogurte falida no interior do Estado de New York, construiu uma segunda unidade em Twin Falls, Idaho, e hoje emprega cerca de duas mil pessoas na fabricação de iogurte grego.

Mas nesta contenciosa temporada eleitoral, a extrema direita vê um problema na Chobani. Em sua opinião, há um número excessivo de imigrantes na força de trabalho da companhia.

Hamdi Ulukaya, da Chobani, participa de evento na ONU em Nova York Ulukaya vem expandindo seus esforços em defesa dos refugiados —ele emprega mais de 300 deles em suas fábricas, criou uma fundação para ajudar os imigrantes e viajou à ilha de Lesbos, na Grécia, a fim de testemunhar a crise em primeira mão—, e ele e sua empresa começaram a sofrer ataques racistas na mídia social e se tornaram tema de artigos conspiratórios em sites como o Breitbart News. Agora surgiram apelos por um boicote aos produtos da Chobani. Ulukaya e a empresa foram vítimas de xingamentos racistas no Twitter e no Facebook.

Sites extremistas publicaram falsas reportagens afirmando que Ulukaya deseja "afogar os Estados Unidos em muçulmanos". E o prefeito de Twin Falls recebeu ameaças de morte, em parte como resultado de seu apoio a Chobani.

O discurso do ódio está em ascensão na mídia online, refletindo o nacionalismo mais intenso exibido por alguns partidários do republicano Donald Trump, que se opõem a que refugiados sejam recebidos pelos Estados Unidos. "O que está acontecendo com a Chobani é mais um foco de conflagração nessa batalha entre as vozes da xenofobia e as vozes que advogam uma política racional de imigração", disse Cecillia Wang, diretora do Projeto de Direitos dos Imigrantes na União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU). Ulukaya e a Chobani se recusaram a comentar o assunto para esta reportagem.

O comando da campanha de Trump não respondeu a um pedido de comentário, e o mesmo ocorreu com representantes da Breitbart News. Ulukaya chegou ao interior do Estado de Nova York nos anos 1990, para estudar. Por volta de 2002, ele se havia tornado fabricante de queijo feta, inspirado por uma receita de família. Alguns anos mais tarde, descobriu que uma fábrica de iogurte e queijo local que havia fechado estava à venda.

Com um empréstimo de US$ 800 mil (R$ 2,6 milhões) da Administração de Pequenas Empresas, ele adquiriu a fábrica e começou a vender o iogurte Chobani em 2007. À medida que o negócio crescia, Ulukaya passou a precisar de mais pessoal. Quando descobriu que existia um centro que auxiliava na recolocação de refugiados em uma cidade próxima, ele perguntou se algumas das pessoas que estavam acomodadas lá gostariam de trabalhar na Chobani.

Ulukaya oferecia transporte aos novos contratados, e empregou tradutores para auxiliá­los. Os imigrantes recebiam pagamento superior ao salário mínimo, da mesma forma que os demais trabalhadores de sua fábrica.

Quando a Chobani abriu uma fábrica em Twin Falls, Ulukaya uma vez mais contatou um centro local de assistência aos refugiados. A empresa agora emprega refugiados provenientes do Iraque, Afeganistão, Turquia e outros países. "Assim que um refugiado encontra emprego, ele deixa de ser refugiado", disse Ulukaya em uma palestra que fez este ano. Hoje, a Chobani vende cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 4,8 bilhões) anuais em iogurte. No ano passado, Ulukaya assinou um compromisso de doação sob o qual promete "dedicar a maior parte de sua fortuna a ajudar os refugiados".

O trabalho da Chobani com refugiados passou no geral despercebido até janeiro, quando Ulukaya fez uma palestra no Fórum Econômico Mundial de Davos, Suíça. Sua mensagem – a de que grandes empresas precisavam fazer mais para ajudar os refugiados —se destacou em meio à retórica elevada do evento. "Ele causou sensação com seu discurso", disse Kenneth Roth, diretor da organização humanitária Human Rights Watch. "Lá estava uma pessoa que havia ido além das falas vazias, ainda que bem intencionadas, de Davos, e estava fazendo algo de prático". Cisco, IBM, Salesforce e outras empresas se uniram na promessa de formas diversas de assistência aos refugiados. Essas e outras companhias começaram a trabalhar com a Tent Foundation, fundada por Ulukaya no ano passado. Mas enquanto uma aliança de empresas conhecidas começava a trabalhar nessa questão, os críticos online começaram a tomar a Chobani por alvo.

Pouco depois do discurso de Ulukaya em Davos, o site de extrema direita WND publicou uma reportagem cujo título original era "magnata do iogurte norte­-americano promete afogar os Estados Unidos em muçulmanos".

Mais tarde, na metade deste ano, o Breitbart News, site noticioso conservador cujo presidente do conselho, Stephen Bannon, está comandando a campanha de Trump, começou a publicar uma série de artigos enganosos sobre a Chobani. Não demorou para que Shawn Barigar, o prefeito de Twin Falls, se visse no centro de uma teoria da conspiração. "A coisa foi transformada em uma narrativa de que estamos acobertando alguma coisa, estamos tentando manter os refugiados em segurança para que a Chobani tenha acesso a uma força de trabalho, e que eu, pessoalmente, estou recebendo dinheiro do governo Obama para ajudar a Chobani a contratar quem quer que eles desejem", disse o prefeito. "É uma loucura". À medida que os comentários online sobre a companhia ganhavam intensidade, no terceiro trimestre, Barigar e a mulher dele passaram a receber ameaças de morte. Ulukaya não parece disposto a recuar.

No mês passado, ele participou de uma mesa redonda com o presidente Barack Obama e líderes empresariais sobre como as empresas poderiam ajudar os refugiados. E seu trabalho com refugiados é parte de um conjunto mais amplo de iniciativas. Ulukaya recentemente distribuiu 10% das ações de sua empresa aos funcionários, e está oferecendo licença maternidade e licença paternidade remunerada a todos os trabalhadores, o que inclui os operários de sua linha de montagem. "Ele é o pesadelo dos xenófobos", disse Roth. "Temos aqui um imigrante que não está competindo com norte­-americanos por empregos, e sim criando empregos em grande quantidade. Sua história repudia completamente a narrativa que a extrema direita gosta de propor".

Fonte: Da redação