Publicado em 17/02/2017 as 10:50am

UM DIA SEM IMIGRANTE - Brasileiros analisam paralisação nos EUA

Em Massachusetts, New York, Connecticut e New Jersey, dezenas de estabelecimentos comerciais brasileiros se uniram aos latinos e outras nacionalidades para apoiar os imigrantes.

Da redação

Nesta quinta-feira (16/02) milhares de imigrantes participaram de um dos maiores movimentos direcionados à luta pelos direitos desta comunidade. Chamado de “Um dia sem imigrante”, o evento foi uma manifestação pacífica, sem pessoas indo às ruas ou empunhando faixas e cartazes. Todos que aderiram ao protesto, simplesmente ficaram em suas casas e não foram trabalhar. O objetivo era mostrar para o povo norte-americano que a mão-de-obra estrangeira faz falta.

Em Massachusetts, New York, Connecticut e New Jersey, dezenas de estabelecimentos comerciais brasileiros se uniram aos latinos e outras nacionalidades para apoiar os imigrantes. Muitos trabalhadores também não foram trabalhar, alguns com o aval dos seus patrões e outros pararam mesmo sem o consentimento de seus superiores.

Mas será que um movimento assim pode surtir efeito? Até que ponto vale a pena arriscar um emprego em busca de seus direitos? O povo realmente se uniu para mostrar a força do imigrante? O jornal Brazilian Times foi às ruas para ouvir a opinião de algumas pessoas.

NATALICIA TRACY

A diretora-executiva do Centro do Trabalhador Imigrante, Natalícia Tracy, disse que o movimento foi válido que acredita que ele fará a diferença na luta pelos direitos dos imigrantes. “O fato é que todas as comunidades imigrantes estão se dando conta que que ninguém está seguro com a ideologia do novo presidente”, disse ela.

Natalícia elogiou a participação maciça dos brasileiros nesta paralisação, mas ressaltou que os imigrantes não podem ficar preso a apenas este dia. “Vamos continuar resistindo com vigília, marchas, assinando petições, criando cidades e espaços que sirvam como santuários para imigrantes”, afirma.

Além de paralisar suas atividades, ela também não consumiu no mercado norte-americano. “Não comprei nenhuma água, nada”, fala finalizando que desta forma, espera que o comerciante norte-americano que não fechou suas portas também tenha sentindo a falta do imigrante.

LILIAN MAGESKI

Já a fonoaudióloga Lilian Mageski não acredita que o movimento surtirá o efeito desejado. Ela defende a paralisação como forma de se manifestar contra a ações que o presidente Donald Trump vem realizando contra as comunidades imigrantes, mas afirma que apenas um dia não afetará o povo norte-americano a ponto de chamar a atenção das autoridades. “Vamos ser notícias na mídia, mas não passará disso”, fala. “Vamos esperar para ver o que vai dar”, finaliza.

HELOISA GALVÃO

A presidente do Grupo Mulher Brasileira, Heloísa Galvão, além de apoiar a paralisação, usou o espaço de sua rede social para parabenizar aos estabelecimentos comerciais que decidiram fechar as portas neste dia. Segundo ela, a pressão econômica é uma ferramenta poderosa de reivindicação e luta.

Heloísa disse ainda, em nome do GMB, que o grupo reconhece o direito de todos os trabalhadores fazerem greve, pois trata-se de um instrumento legítimo e nenhum trabalhador deve sofrer represália por aderir ao movimento.

KELLY MARQUES

A catarinense Kelly Marques, que mora em Worcester, afirmou que o movimento não fará diferença e usou sua página no Facebook para criticar alguns participantes do movimento. Segundo ela, alguns estabelecimentos comerciais que fecharam as portas não pagam os impostos corretos e ainda exploram seus funcionários.  “De que adianta ser solidário e não valorizar realmente o trabalhador?”, indagou.

Sem citar nomes, ela afirmou que esta paralisação não “fará nem cócegas” no Departamento do Tesouro. “O que vai acontecer é que eles verão que existem muitos imigrantes no país, sugando e não devolvendo o que é do Governo”, finaliza.

WALTER MOURISSO

O pastor e ativista político Walter Mourisso também não acredita que a paralisação não vai surtir efeito positivos. Mesmo assim ele parabeniza as pessoas que se envolveram e ressalta que toda iniciativa “tem o seu valor”. Ele aconselha aos imigrantes para que façam tudo da melhor maneira, respeitando os limites estabelecidos pelas autoridades.

Mourisso acrescenta que está na hora da comunidade imigrante se unir, pois somente assim mostrará sua força e anseios. “Creio muito em Deus e sei que ele está escrevendo uma história linda para cada um neste país”, finaliza.

MÁRCIO PORTO

O presidente da Central do Trabalhador Imigrante Brasileiro nos Estados Unidos (CTIB/US), Márcio Porto, a paralisação foi uma demonstração de maturidade e de organização política. “As comunidades latinas deram um show de mobilização e paralização neste dia 16. A CTIB foi a única entidade brasileira que acreditou no movimento e o colocou dentro da comunidade brasileira”, fala.

Ele explica que este movimento mostrou e deixou claro que a comunidade amadureceu e “não se deixa levar por algumas pseudo-lideranças”. O Objetivo, segundo Porto, foi alcançado e os imigrantes deram uma demonstração de forca, tanto na mobilização, quanto econômica e participativa. “Com certeza assuntos ligados aos imigrantes serão repensados neste país, pois acordamos um gigante adormecido”, finaliza.

A paralisação, para Porto, quebrou as amarras e agora os imigrantes podem gritar que é uma força produtiva dessa nação e ama a América e quer ficar aqui. “Nossa comunidade é independente e sabe o que é melhor para ela. Mostramos que não somos teleguiados ou manipulados. Somos fortes e demostramos a nossa força”, fala. “Nenhum ser humano é ilegal, um papel impresso não pode diferenciar um ser humano de outro”, finaliza ressaltando que a luta vai continuar e a CTIB não ficará calada.

JULIO MORAIS

O ativista político Júlio Morais disse que o movimento vai surtir efeito positivo e acredita que será impactante. “Conseguimos chamar a opinião da mídia norte-americana. Acredito que o maior ganho e a união da população brasileira. Mas acho que deveria ter sido feita de uma forma diferente”, fala.

Morais explica que a razão é porque, assim como ele, vários comércios brasileiros fecharam. “Mas assim como eu, esses comércios são sustentados por brasileiros e se eu não abro minha agência de seguro, o cliente que precisa de seguro vai no meu concorrente que provavelmente é americano e não fechou”, disse. “Ou seja, aderi a este movimento e sacrifiquei o meu business”, continua.

Para ele, o certo seria os imigrantes não comprar em estabelecimentos de americanos. “Essa é minha opinião, mas aderi a esse movimento, fechei as portas do meu escritório e não comprei nada em nenhum comercio americano. Estou muito orgulhoso da união da nossa comunidade”, finaliza.

ESTER SANCHES-NAEK

A ativista comunitária e política, que mora em Connecticut, Ester Sanches-Naek, disse que aprendeu com o embaixador brasileiro Ronald Dunlop, primeiro Cônsul em Connecticut, “que não se deve ofender para não ser ofendido”. Ela explica que se o presidente Trump não se importa com grandes potências que têm um míssil apontado para New York, “ele não se intimidará com uma paralisação”.

Em seu ponto de vista, esta manifestação não surtirá efeito. “Eu creio que em estratégias efetivas. Essa paralisação não me encheu os olhos porque sinto que nós seremos muito mais prejudicados do que beneficiados”, disse. “Ele é um empresário de grande sucesso e com certeza sabe da força dos imigrantes até mesmo porque ele é descendente. Acho que estamos cutucando a fera com vara curta, como dizia a vovó”, continua.

Ester disse que não concorda com a paralisação e espera que Trump e os agentes de imigração não se irritem com esta ofensa.

VERA REIS

A fotógrafa Vera Reis, que atua no estado de New Jersey, fala que esta paralisação vai dar muito o que falar na comunidade norte-americana. Apesar de milhares de pessoas terem participado da manifestação, ela acredita que muito mais poderia ter aderido e fortalecido o movimento. “Seria muito importante se todos fizessem a sua parte para mostrar a nossa indignação ao novo presidente”, disse.

Reis acrescenta que a “América sem a força dos imigrantes não é nada, não tem identidade, nem o charme multicultural de centenas de etnias”.

CLAUDIA CASCARDO

A empresária e produtora de eventos de Newark (New Jersey), Cláudia Cascardo, disse que prefere falar pouco sobre o assunto para evitar “burburinhos” e bate-boca. Ela explica que o motivo é que grande parte da comunidade brasileira se preocupou mais em ficar em casa, nas redes sociais atacando quem parou ou deixou de parar a ir às ruas com os latinos e mostrar o que realmente estava acontecendo. “Somos livre para expressar nossas ideias e metas e quem é contra não precisa se manifestar”, fala.

Cascardo fala, ainda, que ficar “batendo boca na internet e criando confusão não vai levar a lugar algum”. Ela cita que os imigrantes são fortes, tem união e é respeitado pela maioria do povo norte-americano. “Não adianta xingar o presidente, pois o que fará a diferença é reivindicar com sabedoria, educação e respeito”, finaliza.

DELSON DELIMA

O empresário do ramo de joalheria em Newark (New Jersey), Delson De Lima fechou as portas do seu estabelecimento em sinal de apoio aos imigrantes. Ele disse que o movimento tem a sua importância e pode sim, mostrar para as autoridades o quanto a mão-de-obra imigrante é importante para o país.

De Lima citou o apoio importante do prefeito de Newark, Ras Baraka. “A paralisação foi um sinal de apoio a todas as famílias que estão sendo separadas e destruídas diante dos novos conceitos aplicados pelo presidente Trump”, finaliza.

Fonte: Brazilian Times