Publicado em 22/03/2017 as 11:00am

"Go home, favelas": brasileiros que integram equipe dos EUA são vítimas de preconceito na Polônia

"Go home, favelas": brasileiros que integram equipe dos EUA são vítimas de preconceito na Polônia

No IEM Katowice, na Polônia, um dos principais campeonatos de "Counter-Strike: Global Offensive" do mundo, a SK Gaming, equipe sediada nos Estados Unidos, mas formada por brasileiros, caiu de forma prematura ainda na fase de grupos.

Milhares de pessoas acompanhavam a partida pelo Twitch, plataforma de transmissões online, quando a Virtus Pro venceu por 16 x 14 e selou a sorte dos brasileiros. No chat, começaram a aparecer dezenas de mensagens, como "Go home favelas" e até mesmo "Monkey" (macaco, em inglês), em alusão à derrota da SK.

Tais manifestações racistas são tão comuns que sequer surpreendem os brasileiros: "Isso vem de uma comunidade tóxica e a de 'CS' é uma das mais tóxicas que existe", lamenta Marcelo "Coldzera" David, que atua pela SK e foi eleito o melhor jogador de "CS" do mundo em 2016.

"É muita molecada na internet, e isso influencia no palavrão, no racismo".

Em geral os pro players brasileiros preferem ignorar os trolls, mas admitem que as ofensas não passam batido: "Se eu falar que não me incomoda estaria mentindo", diz Gabriel "Fallen" Toledo, que também joga na SK Gaming. "A internet mostra o pior do ser humano, mas pelo menos nos eventos ao vivo o pessoal é só amor, com fotos e autógrafos".

O termo "favela", porém, já transcendeu a internet e protagonizou uma polêmica envolvendo o sueco Olof "Vuggo" Kajbjer: durante uma partida contra a SK Gaming, o jogador da Fnatic - hoje ele é técnico da equipe - publicou no chat do jogo a

Mais tarde, no Twitter, Vuggo pediu desculpas e se justificou: "Eu honestamente não sabia que favela era um insulto, achei que fosse apenas uma gíria".

A exemplo do que acontece de vez em quando no futebol, os brasileiros também são chamados de "macacos" nos chats de "CS". "O Henrique [Henrique 'hen1' Teles", brasileiro que joga pela Immortals], quando está jogando, não pode mais usar boné nas partidas, por conta das regras. Como ele com está com cabelão e a galera começa a mandar racismo no chat", diz Fallen.

"O pessoal pega pesado", resume hen1. "É preciso respeitar o estilo de cada pessoa, seja no eSport ou na vida, em qualquer lugar".

"No Brasil esse crime é de xenofobia", diz Juliana Cunha, coordenadora da SaferNet Brasil, ONG que promove e defende Direitos Humanos na internet, para quem o cerne do problema não está no Twitch ou mesmo no "CS: GO", e sim nas pessoas: "Essas plataformas [serviços de streaming] são como uma caixa de ressonância: tornam visível aquilo que já existe em nosso mundo de forma geral. Para Cunha, não tomar nenhuma atitude quanto às ofensas deixa a questão em aberto: "É importante que a própria comunidade tenha uma federação ou organização que estabeleça medidas para mitigar tais problemas". E continua: "O ideal é que os líderes, dos times ou das organizações, venham a público para manifestar que são contrários, pois então tornam-se coniventes ou omissos."

Outro lado

O Twitch emitiu o seguinte comunicado oficial via assessoria de imprensa: A Twitch leva o preconceito e o assédio muito a sério e entende a importância de combatê-los para promover um melhor ambiente a toda a comunidade. Como tal, nosso objetivo é fornecer aos streamers as ferramentas e a flexibilidade para gerenciar seu canal como eles acharem conveniente e para proteger todos seus fãs e eles mesmos do assédio.

Dentre as ferramentas que o Twitch oferece estão a proibição de palavras específicas nos chats, permissão para atribuir um moderador nas transmissões e também um botão para reportar ofensas e abusos.

Já a ESL, responsável pela transmissão do torneio, disse o seguinte: A manifestação dos espectadores é moderada mediante as ferramentas disponíveis da plataforma. Sempre temos admins monitorando as transmissões e os mesmos têm poder de banir usuários com esse tipo de comportamento.

A ferramenta nao é perfeita e às vezes a quantidade de usuários neste (sic) comportamento vulgar e incorreto é tão grande que leva algum tempo para que todos sejam punidos.

A ESL não concorda com esse e qualquer tipo de comentário racista ou de baixo calão que possa acontecer em nossas transmissões.

Fonte: Brazilian Times