Publicado em 31/03/2017 as 11:30am

Brasileiro de Framingham é preso ao atravessar a fronteira para o Canadá

Identificado por John, ele disse que queria fugir de membros de uma gague de Sobrália (Minas Gerais) que estariam atrás dele

O passeio de barco em alta velocidade através do rio St. Lawrence para Cornwall, Ontário,  no Canadá, foi a última etapa em uma viagem de sete horas feita por "John". Ele esperava levar a uma nova vida e com mais segurança no Canadá.

Carregado apenas uma mochila com uma muda de roupa, roupa íntima, uma colônia e milhares de dólares em dinheiro, o brasileiro de 32 anos resolveu, no mês passado, apostar o seu futuro nas mãos de um traficante mascarado e desconhecido.

A emissora de televisão do Canadá, CBC News, conversou com o brasileiro sob pedido de não divulgar a sua identidade porque ele se tornou uma testemunha em uma investigação de tráfico de pessoas que está em andamento e liderada pela Agência de Serviços de Fronteira do Canadá (CBSA, sigla em inglês).

John disse que fugiu dos Estados Unidos depois que membros de gangues de sua cidade natal, Sobrália (Minas Gerais), o encontraram em um subúrbio de Boston, onde trabalhava como pintor. Ele era um imigrante indocumentado que fugiu de extorsão e violência de gangues no sudeste do Brasil há 11 anos.

Ele considerou fugir para outra cidade americana, mas depois de ver vários vídeos com ações dos agentes de imigração, optou por atravessar a fronteira para o Canadá e evitar a deportação.

"Trump está em guerra com imigrantes", disse John, em um inglês arrastado, quando perguntado por que ele fugiu. "Ouvi dizer que Trump vai deportar. Não posso voltar para o Brasil, pois é perigoso lá", afirmou.

A CBC entrevistou John com e sem um tradutor após a sua liberação do Centro de Detenção Ottawa-Carleton. Seu fiador canadense também foi entrevistado..

O traficante estava vestido de preto e mascarado.

John deixou Framingham, em Massachusetts, na manhã de 2 de fevereiro, depois de entregar mais de US $ 1.500 para uma mulher norte-americana que o levou por sete horas para a fronteira canadense perto de Akwesasne. O território, dissecado pelo rio São Lourenço, se estende no estado de New York, Ontário e Quebec.

Lá, ele embarcou em um barco a motor, branco, operado por um contrabandista em uma tarde fria com muito vento. "Ele estava vestido de preto, tinha luvas pretas, uma máscara e óculos de sol. Não é dava para reconhecer", lembra John.

Eles foram guiados por uma bandeira canadense agitada pelo vento na doca de Monte Carlo Motel, em Cornwall. Demorou menos de 10 minutos para chegar lá.

Antes que o contrabandista fugisse, ele instruiu John a subir as escadas de madeira para a rua e entregar mais US $ 3.500 para seu parceiro, que estava esperando por ele em uma parada de ônibus nas proximidades. Então John estaria sozinho.

Mas antes que ele pudesse entregar o dinheiro para o contrabandista seguinte, John foi preso pela Royal Canadian Mounted Police (polícia montada do Canadá)

Os policiais estavam trabalhando com a força-tarefa regional de Cornwall, que consiste em nove agências de policiais canadenses e americanos responsáveis por patrulhar um trecho de 75 quilômetros de estradas e vias navegáveis de Iroquois, Ontário, até a fronteira de Quebec.

O agente da RCMP, Jean Juneau, disse que os oficiais viram o homem correndo acima da doca em torno de 1:30 p.m. Os policiais suspeitaram imediatamente de contrabando por causa de casos similares ao longo da linha costeira da cidade.

"Paramos e questionamos esse homem e ele não tinha uma razão legítima para estar lá. Ele não tinha a devida documentação e nós o entregamos à Agência de Serviços de Fronteira do Canadá", explicou Juneau.

O homem é o primeiro refugiado este ano preso pela RCMP na área de Cornwall. Uma ordem de deportação foi emitida em 13 de fevereiro, mas está agora em espera, enquanto aguarda seu comparecimento ao tribunal. O brasileiro de 32 anos será deportado depois que aparecer na audiência, segundo o CBSA. A data do julgamento ainda não foi estabelecida.

As autoridades, mais tarde, prenderam o suposto contrabandista depois que ele ancorou seu barco de pesca em Saint Regis, Quebec. Trata-se de um residente de Cornwall Island que agora enfrenta as acusações de tráfico de pessoas.

Segundo as estatísticas da força-tarefa de Cornwall, as agências norte-americanas e canadenses de segurança nas fronteiras detiveram 77 pessoas que foram contrabandeadas na área, no ano passado. Quarenta e dois deles estavam sendo transportados para o sul para os Estados Unidos, e 35 foram contrabandeados para o Canadá.

O brasileiro foi libertado em 24 de março, depois de passar 46 dias na cadeia. Ele se abrigou de neve caindo debaixo de uma árvore fora dos portões da prisão por quase uma hora enquanto esperava que amigos chegassem de Toronto para buscá-lo.

Seu corpo tremia enquanto ele chorava durante a reunião com seu fiador e um amigo de infância - seus únicos laços com o Canadá.

O CBSA tinha pegado sua mochila e seus pertences, de modo que tudo o que John tinha consigo era uma fotocópia de seu passaporte brasileiro, alguns documentos da corte e um pequeno caderno emitido pela OCDC, no qual anotou os nomes de algumas pessoas que havia encontrado dentro do centro.

Enquanto estava no centro, John dormia em um lugar com 30 camas beliche reservadas para detidos considerado segurança mínima. O Brasileiro disse que havia outros dois imigrantes alojados com ele. Os homens eram da China, presos depois que a polícia os flagrou dirigindo erroneamente na estrada.

John foi libertado depois que seu fiador, Ademir De Souza, assumiu arcar com um valor de US$ 5.000. De Souza também é de Sobrália e conhece os pais de John. Ele concordou em abrigar John e garantiu a verificação do brasileiro, duas vezes por mês, junto aos funcionários das fronteiras até que ele seja ouvido.

Se John fugir, De Souza teria que pagar outros US$ 25.000, mas John diz que não vai acontecer. Ele quer provar a um conselho de audiência de refugiados que ele merece estar no Canadá. "Tenho que seguir em frente. Se tiver sorte, continuo aqui", finaliza.

Fonte: Brazilian Times