Publicado em 6/04/2017 as 10:30pm

Brasileiro é destaque no Metropolitan, em NY

Brasileiro é destaque no Metropolitan, em NY

O menino que corria pelo bairro de São Brás em Belém do Pará decididamente não imaginava as cortinas da Metropolitan Opera House, em New York, se abrindo para ele, e como protagonista. E mais: dividindo o palco com ninguém menos que Plácido Domingo.

No dia 29 de março, Atalla Ayan, 30 anos, fez sua estreia na mais importante casa lírica das Américas. Torna-se, assim, um dos quatro brasileiros a cantar papéis principais neste palco, contando com a lendária Bidú Sayão. Ele encarna, até dia 14, Alfredo Germont, o enamorado de Violetta Valéry em “La Traviata”. A ópera-hit foi composta por Giuseppe Verdi em 1853, baseada em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas Filho.

Atalla, que tem ascendência síria, está em êxtase. Fala muito em sorte e destino, e não é à toa: muitas circunstâncias se alinharam para que a carreira do paraense decolasse cedo. O principal trunfo: uma fada madrinha, o agente Bruce Zemsky.

“Meu tio materno Ibrahim Ayan me criou como pai e com ele escutava vinis de Pavarotti. Mas a vontade de cantar foi despertada mesmo por Andrea Boccelli, que passei a imitar. Cantava nos casamentos! Acabei entrando no Conservatório de Belém aos 15 anos. Foi um chamado da vocação”, disse.

Com uma bolsa modesta do governo do Pará, foi fazer um curso de inverno no Missouri e se inscreveu num concurso de canto em New York, no qual tirou quarto lugar. No júri, estava uma veterana pianista do Met, Joan Dornemann, amiga de um dos bons agentes do ramo: Zemsky.

“Joan sabe que adoro o Brasil e amo descobrir boas vozes”, conta Zemsky de seu escritório em NY. “Ouvi aquele menino e imediatamente adotei sua carreira. Comecei a procurar locais onde pudesse se desenvolver. Mas os programas de treinamento estavam todos fechados para a temporada seguinte”, continua.

A sorte soprou de novo. De volta ao Brasil, Atalla cantava no Festival do Teatro da Paz quando Zemsky o levou ao Rio, onde, por acaso, o diretor do Teatro Comunale de Bologna passava férias. Alberto Triola ouviu Atalla cantar “Che gelida manina”.

“Ele chorou, me disse: ‘que maravilha ouvir uma pessoa da Amazônia cantando uma ária de La Bohème’. E me escolheu para o programa”, lembra o tenor. “Ganhei um ano de bolsa integral na escola italiana”.

Zemsky passou a trabalhar em seguida por uma vaga no Young Artists Program do Met, que já encerrara as inscrições para 2009/2010. De novo, audição. Desta vez com James Levine e a bolsa concedida.

Em mais uma reviravolta do enredo, Atalla foi comparado a um de seus ídolos pelo crítico Allan Kozinn, do “New York Times”: “Ayan é um achado: jovem e enérgico, tem uma voz cálida e um timbre redondo, com uma qualidade que lembra o jovem Domingo”. A hora era de ganhar uma residência profissional. O teatro escolhido foi o de Stuttgart, para onde se mudou em 2011.

“É uma casa maravilhosa, de 1912, e as montagens são bastante ousadas”, conta Atalla, hoje estrela da companhia. “Cantei de tudo. Em Stuttgart, com 400 mil habitantes, ópera e balé têm casas lotadas quase todo dia”.

A “experiência luminosa” de cantar no Metropolitan se soma à expectativa de contracenar com o espanhol em três récitas (dias 8, 11 e 14), diz o tenor de voz encorpada, do clássico registro lírico. “Ainda não encontrei Plácido. Estou anestesiado”, finaliza.

Fonte: Brazilian Times