Publicado em 12/06/2017 as 4:00pm

Crise e violência levam brasileiros a se mudar para o Canadá

Mas o sonho dourado canadense não é tão perfeito assim.

Crise e violência levam brasileiros a se mudar para o Canadá Claudia Gomes, há 30 anos em Montreal, é corretora de imóveis

A crise no Brasil e as dificuldades para imigrantes nos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump fizeram a opção de morar no Canadá parecer mais atraente aos brasileiros. Os números comprovam. Mas o sonho dourado canadense não é tão perfeito assim: brasileiros enfrentam cada vez mais dificuldades no país.

Eu vim um pouco iludido, a realidade aqui não é tão simples quanto eles falam — conta Igor Marinho, analista de sistemas, de 32 anos. — Não me arrependo, mas pode ter certeza: aqui ninguém vai ficar rico.

Há dois anos, ele trocou Belo Horizonte por Montreal, atrás de segurança e estabilidade. Baseado nas conversas com amigos e nas apresentações do governo canadense se frustrou um pouco, pois precisou passar por períodos de freelancer antes de obter um bom emprego.

Coiotes digitais cobram até R$ 30 mil

Esses casos ganham dimensão. Nos 12 meses terminados em abril, em comparação com igual período anterior, aumentou em 22,4% o número de brasileiros que buscam residência permanente, em 11,9% o que querem residência temporária e em 2,6% o que estão atrás de visto de estudante, segundo o governo canadense.

“Vendem a imigração ao brasileiro como se fosse Pasárgada, mas é o Canadá”, resume a embaixadora Ana Lélia Benincá Beltrame, do consulado brasileiro em Toronto, onde vivem cerca de 50 mil brasileiros, 10% deles indocumentados. “Temos visto muita gente desesperada, depois de ter vendido tudo no Brasil e caído nas mãos de coiotes digitais, que prometem mundos e fundos e cobram até R$ 30 mil por cada pessoa, que desembarca aqui sem nada”.

Ana Teresa Castro, moradora do Canadá desde 2011 e dona de uma empresa — Babel Tree International — de auxílio à imigração, afirma que a procura por brasileiros quadruplicou:

“Muita gente pensa que vai chegar ao Canadá e será recebida com tapete vermelho. Não é assim”.

Ela conta que vários migrantes esperam manter o estilo de vida brasileiro e não se preparam para mudanças, como a falta de empregada doméstica e o período de validação do diploma, que pode levar anos, exigindo que as pessoas se sujeitem a empregos aos quais não estavam acostumadas.

“Os brasileiros hoje são como os venezuelanos: chegam sem plano B, dizem que voltar ao Brasil não é mais opção”, diz ela, recomendando que as pessoas não vendam tudo antes de se mudar.

Eduarda Vasconcellos, da ONG Centro para a Ajuda da Família (CAF), em Montreal, afirma que as intervenções psicossociais prestadas pela entidade a brasileiros saltaram de 393 em 2015 para 450 no ano passado: “Vemos aumento de violência doméstica e depressão, em grande parte porque as pessoas se decepcionam com as dificuldades que encontram”.

Há quase três décadas em Montreal, a corretora Claudia Gomes diz que a atual leva de imigrantes brasileiros é formada por mais gente despreparada: “São muitas pessoas cheias de orgulho, que querem uma solução imediata. Pensam que o pior do Canadá é o clima, mas ao frio é possível se adaptar, o pior é a mudança de estilo de vida.

A embaixadora Maria Elisa Luna, responsável pelo consulado brasileiro em Montreal, afirma que há poucos brasileiros em situação ilegal no país, mas conta que vê problemas crescentes entre os que migram. Ela estima que 12 mil brasileiros vivam hoje em Quebec.

“Vemos mais problemas de emprego. Conheço um farmacêutico que está há anos como vendedor de farmácia e um engenheiro que ganha bem, mas está em outro ofício, monta móveis. A saúde canadense, por exemplo, pode ser pior que o SUS. Alguém com um braço quebrado pode ficar até 12 horas esperando atendimento”, diz ela.

Em sua opinião, o desejo de uma vida melhor, a falta de informação e o orgulho em admitir que a experiência não foi tão boa ajudam a criar esses problemas: “Muitos chegam baseados em informações de Facebook, onde só há fotos bonitas com a neve. E muitas informações do Canadá no Brasil são pagas por universidades que querem obter alunos”.

Fonte: oglobo.com