Publicado em 18/06/2017 as 8:00am

Entrevista: Álvaro Lima fala sobre imigração e engajamento comunitário

Diretor da Agência de Desenvolvimento e Planejamento da cidade de Boston, Álvaro Lima.

Entrevista: Álvaro Lima fala sobre imigração e engajamento comunitário Álvaro com a família: "Continuo apoiando meus filhos agora que começam suas vidas profissionais.”

Vivemos momentos dramáticos no cenário politico e social mundial com consequências diretas em nosso cotidiano. Nos Estados Unidos passamos por uma crise de divisão ideológica e moral, reforçada pelo discurso populista e manipulação da verdade por Presidente Donald Trump. O Diretor da Agência de Desenvolvimento e Planejamento da cidade de Boston, Álvaro Lima, afirma que “ São momentos difíceis os que passamos e temos, principalmente aqueles que são cidadãos, um papel importante na luta contra a xenofobia aqui e na Europa.” O Brazilian Times entrevistou o maranhense de São Luís, que sempre foi um ponto de referência e exemplo de engajamento para a comunidade imigrante nos Estados Unidos. Entre outros projetos como o desenvolvimento do Digaaí, plataforma digital que agrega a produção cultural brasileira no exterior e trabalhar na divulgação do seu livro ‘Brasileiros nos Estados Unidos: Meio Século (re)fazendo a América’, Álvaro pretende dar continuidade ao trabalho junto a comunidade e passar mais tempo com sua família e especialmente visitar o Brasil para celebrar os 91 anos de sua mãe, Dona Zelinda.

BT: Como você explica o fenômeno Trump e seus seguidores?

Álvaro: O fenômeno Trump é bastante complexo e com várias vertentes que, juntas, provocaram o resultado eleitoral do ano passado. Primeiro, a direita americana, em particular a direita religiosa, vem se organizando por vários anos e ganhando espaço em vários governos e legislativos municipais e estaduais. Como resultado, tiveram o grande prêmio que foi a vice presidência na pessoa do Governador Mike Pence. Segundo, e não menos importante, é que o partido democrata vem perdendo espaço com as populações minoritárias, os imigrantes e a população jovem. Não podemos esquecer que o Presidente Obama não passou a reforma imigratória quando tinha controle das duas casas do legislativo e que, durante o seu mandato, deportou cem média, 300 a 400 mil pessoas por ano. A recuperação econômica, embora significante, não conseguiu absorver a mão de obra que deixou o mercado de trabalho assim como não foi suficiente para criar empregos comparáveis aos perdidos. Além disto, em certas áreas, o desemprego da população branca e as condições desta se agravaram. Por fim, não podemos esquecer a questão racial que, na minha opinião, foi exarcerbada pelo discurso racista e xenófobo do então candidato Trump.

BT: O que fazer para se manter informado e não se enganar com 'fake news'?

Álvaro: A 'fake news' não é um fenômeno novo. O que é novo é a capacidade de atingir um grande público de forma rápida via as plataformas sociais.

Este tipo de notícia é veiculada na maioria das vezes com a intenção de ganhar benefício financeiro, político ou sensacionalismo. Como a 'fake news' é também jornalismo ruim, a forma mais fácil de detecta-la é checando alguns aspectos do jornalismo ruim como por exemplo artigos sem fontes, autor anônimo, erros de ortografia, letras maiúsculas com vários pontos de exclamação, etc... além disto hea vários sites que ajudam na detecção de 'fake news' como o fact check,etc... Outro aspecto importante e crucial para uma democracia é a participação dos jornalistas e leitores no combatea ‘fake news.' Por exemplo, os jornalistas nos seus blogs, colunas, newspapers, etc... podem por uma tarjeta que diz que estes veículos são 'fake news free.' Os leitores podem pressionar os órgãos da imprensa, da mídia e das companias que os suportam via advertizing no combate a 'fake news.' Existem várias formas de combate e elas são fundamentais para a democracia e para a manutenção da imprensa como um dos pilares desta.

BT: Como se proteger contra a intolerância política?

Álvaro : A intolerância política vem conquistando um espaço que acho bastante perigoso. As pessoas acham que ser politicamente engajados é não dialogar. Em geral isso é resultado da ignorância que leva, como forma de defesa, ao insulto pessoal, ao uso de superlativos que mal sabem soletrar... Combater a intolerância, seja ela qual for, é um dever de todo cidadão que preza pela democracia, os direitos humanos, e por uma sociedade decente. A forma de proteger é combater de forma democrática, polida, civilizada, essa onda de intolerância. Não é fácil mas não temos outra saída que não seja reduzir esses espaços.

BT: Você acredita que uma reforma imigratória ainda é possível?

Álvaro: Não acredito na idéia vinculada de tempos em tempos, na maioria por apoiadores ou simpatizantes do Presidente Trump, de que ele é um 'deal maker' e que por tanto, tudo que disse era só para ganhar a eleição. Acho esta idéia absurda em tudo que ela denota. Você pode concorrer a presidência com um discurso xenófobo e racista. Quando eleito tentar discriminar contra todo um grupo com base na sua religião, aumentar a pressão da imigração contra os imigrantes, propor a construção de muros para barrar pessoas de um país, o qual ele classifica de estupradores e 'bad hombres'. Tudo isto para passar a reforma imigratória. Não, não acredito pois seria acreditar em "fake news". Onde estão as fontes? Há algo no comportamento do Presidente que nos leva a pensar desta forma?

Álvaro Lima

BT: Vale a pena trocar o Brasil pelos Estados Unidos?

Álvaro: Esta é uma pergunta bastante difícil. Trocar o seu país por outro é sempre uma experiência traumática. Você deixa a sua família, seus amigos, aquilo que você que lhe é reconhecível para um lugar estranho, uma língua e uma cultura diferente, tudo isto pesa. O acalanto da volta mitiga um pouco. Mas sabemos que nunca se volta para onde saímos. Tudo muda. Pergunta difícil....

BT: Como se tornar parte dos grupos que buscam mudanças para a comunidade imigrante?

Álvaro: Na minha opinião nós brasileiros nos integramos pouco com as demais comunidades e principalmente com os grupos de outras comunidades que atuam na integracão dos imigrantes e na luta por uma reforma migratória humana e justa. São vários estes grupos e acho que devemos nos encontrar mais.

BT: Que conselho ou dica você tem para os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos e na Europa?

Álvaro: São momentos difíceis os que passamos e temos, principalmente aqueles que são cidadãos, um papel importante na luta contra a xenofobia aqui e na Europa. Mais do que nunca, temos que ter bastante clareza do momento e do nosso papel neste. Penso que também é importante nos solidarizarmos com os imigrantes no Brasil, principalmente aqueles oriundos da Bolívia, Haiti e países da África que estão sendo perseguidos de forma violenta no Brasil.

BT: Qual a principal diferença, na sua opinião, entre a crise política brasileira e a crise nos Estados Unidos com a nonsense atitude de presidente Trump?

Álvaro: Penso que são crises totalmente diferentes e não devemos fazer paralelos. No Brasil enfrentamos uma crise política profunda que se delineai em crise institucional. Aqui nos Estados Unidos a crise política esta em seus princípios sendo que o testemunho do ex-diretor do FBI pode desenhar também não só o aprofundamento da crise política mas levar ao processo de impeachment o que delinearia também uma crise institucional. mas, penso são processo diferentes, produto de histórias diferentes em sociedades distintas.

BT: Você usa Twitter ou Facebook? Qual são suas regras em relação a social mídia?

Álvaro: Uso Twitter, Facebook e LinkedIn. Minha regra é só uma, não sou anônimo e não posto nada que não gostaria que fosse postado nas minhas páginas. Sou honesto e uso estas plataformas dentro de uma atitude cívica.

BT: Quais seus planos para o futuro, além de sua campanha para reforma imigratória no Brasil?

Álvaro: Meus planos são muitos. No lado pessoal, continuo apoiando meus filhos agora que começam suas vidas profissionais. Passar o máximo de tempo no Brasil que me for possível visitando a minha mãe que vai fazer 91 anos este ano. Aqui, vou continuar desenvolvendo com o Fernando Castro e o Anselmo Cassiano o Espaço e a plataforma Digaaí. Dois projetos que tenho muito carinho e dedico todo o tempo livre que tenho. Por fim, este ano dedicar algum tempo para a divulgação do meu livro 'Brasileiros nos Estados Unidos: Meio Século (re)fazendo a América' e tentar provocar algumas conversas em torno do tema.

BT: Como ser um imigrante bem sucedido?

Álvaro: Me sinto realizado com o que consegui e para mim a grande conquista, a conquista de quase todos os imigrantes, é ver os filhos encaminhados na vida. Venho de um extrato privilegiado no Brasil mas penso que no fim de tudo o que fica são os filhos. Espero ser um bom ancestral.

Fonte: Adriana Sena Sears