Publicado em 15/07/2017 as 8:00am

Entrevista: Carlos AF Da Silva

“O acesso à tecnologia, drogas e eventos sociais em excesso, tem prejudicado nossa característica de povo trabalhador e ordeiro.”

Entrevista: Carlos AF Da Silva Carlos AF Da Silva recebendo o diploma de Bacharelado em Administracao e Lideranca Sindical

O auditor (Compliance Officer) Carlos AF Da Silva é uma figura muito conhecida da comunidade imigrante brasileira, como também pela norte-americana, por seu envolvimento e ativismo comunitário. Filho de uma professora e um policial, ele estudou em Colégio Militar e trabalha desde os nove anos.

Carlos chegou aos Estados Unidos com 18 anos trazendo em sua bagagem sonhos e esperança de fazer dinheiro e retornar ao Brasil. Hoje ele é um cidadão norte-americano, membro do Comitê das Escolas Públicas de Hingham, tendo sido pioneiro em vários setores. Ele foi o primeiro brasileiro a servir como presidente do conselho diretivo da Aliança dos Falantes de Língua Portuguesa de Massachusetts (sigla em inglês: MAPS), sendo o primeiro imigrante a servir no Quincy Zoning Board of Appeals (O Conselho de Apelação do Zoneamento de Quincy, MA), o primeiro brasileiro presidente do Partido Democrata em Quincy e em Hingham.

Carlos também foi nomeado membro do conselho diretivo da Greater Boston Labor Council representando a União Internacional de Empregados de Serviços (Service Employees International Union), sendo o primeiro sindicalista brasileiro nos Estados Unidos junto ao SEIU, além de ser também o primeiro brasileiro presidente da Loja Maçônica 'Logia America' em Cambridge.

O Brazilian Times entrevistou Carlos, que falou sobre sua vida de imigrante e obstáculos que venceu para lutar por seus sonhos e como ele vê o futuro e desafios para os imigrantes recém-chegados aos Estados Unidos.

BT: Como você define sua trajetória de imigrante? O que mais marcou sua vida nos primeiros anos na América?

Carlos: Com 18 anos e com maturidade suficiente, juntei todos os documentos necessários e fui ao Consulado Americano. Consegui o visto de um ano, que foi o suficiente para me dar o direito de entrar pela porta da frente deste país. Trabalhei em todos os tipos de empregos. Fui empresário e fiz muito trabalho como voluntário. Estudei muito e adquiri meu bacharelado. Me casei com uma Ítalo-Americana e temos dois lindos filhos. Finalmente, após trabalhar em muitas campanhas políticas, me candidatei a uma vaga no Comitê das Escolas Públicas de Hingham e sai vitorioso. Este é um trabalho totalmente voluntário. Também fundei a ONG Assistência Total Brasileira com o objetivo de ajudar com exclusividade o consumidor brasileiro. Coletivamente conseguimos fazer alguns trabalhos positivos, mas resolvemos mudar a razão da ONG e ultimamente estamos trabalhando com em parceria com times de futebol locais para arrecadar fundos e comprar uniformes e enviar para o Brasil. Nosso trabalho é 100% voluntário.

Carlos AF Da Silva marchando em prol da legalizacao de indocumentados

BT: Como você decidiu por sua carreira profissional?

Carlos: Aprendi muito nas atividades profissionais e voluntárias. Resolvi então, fazer um teste com a Secretaria do Trabalho em 2010 e fui contratado. O fato de poder fazer mil e uma coisas diferentes, tem me proporcionado boas oportunidades como um funcionário de carreira do Estado de Massachusetts. No momento sou Auditor/Compliance Officer.

BT: Por que se engajar e ser um ativista comunitário no exterior?

Carlos: Eu considero todo ativista, eleito ou não, um líder nato. Sem estes líderes, fica difícil conseguimos vencer nossas causas. É importante nos engajarmos naquilo que gostamos e incentivar outros para fazer o mesmo. Só temos direito a 8 horas de trabalho por dia (hora extra, feriados, ferias, seguro de saúde e muitos outros benefícios são conquistados pelo trabalho de muitos líderes).

BT: Durante todos estes anos, quais as características que mais te chamam atenção no perfil do imigrante que chegou aqui entre as décadas de 80 e 90, comparando aos que estão chegando agora?

Carlos: Acho que nós que chegamos nas décadas de 80 e 90 valorizávamos mais um ao outro. Apreciávamos um evento social sem brigas, drogas e baixaria. Muito de nós viemos bem jovens, sozinhos e solteiros, mas com muita maturidade. Construímos nossa própria família e tentamos repassar bons exemplos. Tivemos mais tolerância com imigrantes de outras nacionalidades. Além do inglês, muitos de nós conseguimos também aprender o espanhol e soubemos cultivar uma boa amizade com o povo de origem hispânica. O acesso à tecnologia, drogas e eventos sociais em excesso, tem prejudicado nossa característica de povo trabalhador e ordeiro.

BT: Quem são os imigrantes brasileiros, na sua opinião, que realmente fizeram ou estão fazendo a diferença para organizar e solidificar a comunidade brasileira no exterior?

Carlos: Tem muitas pessoas fazendo a parte delas para unir nossa comunidade em todo os Estados Unidos. Desde empresários, ativistas comunitários e políticos como também líderes religiosos e mesmo os promotores de eventos sociais. Então mencionar alguns nomes não estaria sendo justo pois não conheço todos. Cada um de nós tem que fazer o máximo que pudermos para sermos bons exemplos. Desta maneira nossa comunidade sobressairá e vencerá todos os obstáculos.

BT: Quais os maiores desafios para os imigrantes no futuro?

Carlos: Além do mais, muitos que não investiram em um plano de aposentadoria, terão ainda mais dificuldade. Já para os imigrantes recém-chegados acho que poderão sobressair melhor, pois somos muitos aqui e o mapa está traçado. Não devem ter muitos obstáculos, apesar dos pesares.

BT: Quais são seus planos pra o futuro?

Carlos: Conseguir me eleger para um cargo público. Precisamos ter mais brasileiros participando do sistema politco americano. Isto, para mim e outros futuros candidatos brasileiros é uma importante barreira a ser quebrada. Pretendo após os estudos de meus filhos e alguns passeios com minha esposa, pleitear cargos políticos a nível estadual ou nacional. Estou feliz por ver que temos muitos outros seguindo meus passos na política aqui em Massachusetts. Temos em Everett dois candidatos a vereador e em Framingham temos também dois candidatos a vereador e um a prefeito.

BT: Você se considera bem sucedido e realizado?

Carlos: Sem dúvida! O que eu mais queria quando aqui cheguei com 18 anos, era juntar uma boa grana, voltar ao Brasil, ter um bom emprego, carro, casa e família. Graças a Deus tenho tudo isto morando aqui e sim me sinto realizado. Mas ainda tenho muita estrada pela frente e estou aceitando melhores oportunidades.

Fonte: Adriana Sena Sears