Publicado em 29/09/2017 as 7:00pm

Da violência doméstica no Pará à universidade nos EUA

A saga de uma jovem brasileira, em Boston (MA), na mira da deportação

Da violência doméstica no Pará à universidade nos EUA Brasileira fala em palestra sobre os direitos dos imigrantes.

Valéria do Vale, que se sente 'americana', está no grupo de 7,4 mil jovens brasileiros beneficiados por programa revogado por governo Trump e que agora correm risco de serem obrigados a deixar o país.

Com a decisão do presidente Donald Trump em revogar Daca (Deferred Action for Childhood Arrivals), programa que protegia da deportação e concedia autorização de trabalho para quase um milhão de jovens indocumentados, muitos brasileiros também entraram na lista.

Com isso, os meios de comunicação estão divulgando uma série de entrevistas e histórias dramáticas sobre estes jovens e o futuro incerto que os aguarda.

De acordo com dados oficiais, neste grupo estão 7,4 mil jovens brasileiros que estão sob a proteção do DACA, ocupando a sétima colocação. A maioria é tão americanizado que fala o idioma português com dificuldades e tudo que conhecem é a cultura dos Estados Unidos.

Entre os brasileiros que dependem do DACA para viver e trabalhar legalmente nos EUA, está a paraense Valéria do Vale, que chegou aos EUA quando tinha apenas sete anos de idade. Ela fugiu com sua mãe e uma irmã da pobreza e violência doméstica enfrentada pelos moradores do interior do Pará.

Em uma entrevista à BBC Brasil, a jovem fala que mesmo sendo pequena, lembra-se de cada segundo “como se fosse hoje". Hoje ela tem 19 anos de idade e é estudante de Ciências Políticas.

A paraense conta que depois de guardar o segredo de sua ilegalidade por 12 anos e enfrentar preconceito de onde menos esperava ("sempre ouvi histórias de brasileiros que delatavam brasileiros para a imigração"), hoje, Valéria é a primeira pessoa da família a chegar à universidade, graças ao Daca.

A VIDA NO BRASIL

Valéria cresceu sob o medo constante de ser deportada.

Quando vivia no Brasil, ela presenciava sua mãe ser, constantemente, espancada pelo ex-marido. Essas agressões, aliada à falta de perspectiva de trabalho, a matriarca decidiu recomeçar, nos Estados Unidos, uma nova vida com as duas filhas, uma de sete e outra de um ano e meio de idade.

Valéria fala que sua mãe foi vítima de violência doméstica. “Em uma cidade pequena como Jacundá, não tem para onde ir. Não tem para onde crescer. E não tem lei", diz ela que é moradora em Boston (Massachusetts).

No início, a família tentou obter um Visto para entrar legalmente no país, mas foi negado. Diante disso, a mãe resolveu se aventurar pela fronteira mexicana. "O oficial (do consulado americano) viu que meu pai não viajaria e negou nosso visto. Aí minha mãe decidiu cruzar a fronteira (do México aos EUA). Nenhuma de nós sabia bem o que isso significava", afirma ela. Ela foi separada da mãe e da irmã para atravessar. “Fiquei num deserto um dia inteiro, cruzamos o rio e eu pensei que fosse me afogar. Muito traumático."

Valéria ficou 20 dias sem ter notícias da mãe e da irmã. "Foi bem emocionante encontrá-las de novo. Quando se cruza a fronteira, muita coisa pode acontecer. Tem o calor, tem fome e sede, tem gente sequestrada… Ela estava muito preocupada", continua.

Depois de entrar nos EUA, até os 16 anos de idade, quando se tornou uma "dreamer", não contou o segredo a nenhum amigo, por medo de ser descoberta ou denunciada. "As escolas não exigem a documentação, mas lá dentro ou fora a gente não podia contar para ninguém. Até na comunidade brasileira a gente enfrenta um estigma. A gente ficava com medo do preconceito dos próprios brasileiros, porque sempre ouvia histórias de brasileiros que delatavam compatriotas para a imigração. Muitos brasileiros chegam e pegam trabalho com brasileiros e depois não recebem, ou são ameaçados", explica.

A brasileira relata que durante o ensino fundamental, chorou quando não pode explicar, a uma professora, porque teve de faltar a um concerto musical e acabou sendo obrigada a assistir a uma aula em pé, como castigo. "Filho de imigrantes tem responsabilidades bem cedo. Minha mãe estava trabalhando e eu tive que cuidar da minha irmã. A professora me deixou de castigo porque, diferente dos outros alunos, eu não tinha uma carta explicando por que faltei. Mas a minha mãe não sabia falar ou escrever em inglês. E eu não podia contar que estava cuidando da minha irmã, porque naquela idade isso também era ilegal", fala.

Quando completou 16 anos e foi beneficiada pelo DACA, Valéria decidiu compartilhar o aprendizado de imigrante com outros recém-chegados nos EUA. Funcionária de uma organização social, ela se dedica a ensinar aos novatos os caminhos para a conquista de bolsas para faculdades e ajuda financeira.

Sobre a decisão de Trump de revogar o decreto do antecessor, a estudante diz que nunca se sentiu plenamente estável. "O Obama não acordou um dia e decidiu criar uma política de imigrantes porque estava de bom humor. Isso foi fruto de uma luta muito grande de muita gente que perdeu muitas pessoas. A gente continua perdendo", diz.

Ela ressalta que sempre soube que, quando um presidente mais conservador assumisse o poder, o Daca poderia acabar. “Até com a Hillary isso poderia ter acontecido", continua.

Agora, ela luta para mudar a percepção de quem vive nos Estados Unidos sobre os imigrantes. "Eu quero que a conversa sobre imigração seja feita de uma maneira diferente da feita por Washington, porque ela machuca a minha mãe, que até hoje faz limpeza e cria minha irmã de 15 anos, que estuda", diz.

Desde que cruzou a fronteira, Valéria nunca mais voltou ao Brasil. "Me sinto parte dos dois países. Tenho orgulho da minha identidade brasileira e penso que ela nunca saiu de mim porque senti na pele o preconceito. Mas me identifico como uma americana", diz. "Meu lugar agora é aqui", finaliza.

Fonte: Redação - Brazilian Times

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