Publicado em 29/09/2017 as 10:00am

Mãe de menina abusada pelo pai desabafa ao BT

“Quando a notícia chegou à mídia, muitas pessoas perguntaram como uma mãe não percebeu...

Mãe de menina abusada pelo pai desabafa ao BT A menina tinha medo de contar o que o pai fazia com ela.

“Quando a notícia chegou à mídia, muitas pessoas perguntaram como uma mãe não percebeu isso acontecer por tanto tempo. Eu digo que a mesma situação pode estar acontecendo em muitas famílias e as pessoas não percebem porque a criança esconde. Eu fui corajosa para denunciar e expor minha família para alertar outras”.

Desta forma a mãe da adolescente que foi abusada pelo pai durante cinco anos inicia uma conversa com a reportagem do Brazilian Times. Ela, que pediu para ter o seu nome mantido em segredo para evitar mais críticas de quem não entende a situação e preferem criticá-la a olhar a história como um alerta para a própria vida. Portanto vamos identificá-la nesta matéria apenas como “mãe”.

Logo no início, ela relata que permitiu que a filha concedesse uma entrevista para um blog de notícias brasileiras em Massachusetts para que o caso chegasse ao conhecimento da sociedade. “A minha intenção, como já disse, era a de mostrar que isso pode acontecer em muitas casas e as pessoas não percebem, assim como foi comigo”, disse. “Eu via que minha filha estava estranha, mas como ela não me contava nada, sempre achei que fosse comportamento da idade”, continua.

Há cerca de duas semanas, o pai, Fernando E. da Silva, foi condenado a 20 anos de prisão e mais sete com monitoramento eletrônico. Mesmo com a justiça feita, a família ainda está bastante abalada. A adolescente, agora com 15 anos, passa por sessões com psicólogos para se recuperar do trauma e voltar a vida normal, além de terapias particulares custeadas pela mãe. O corpo dela também começou a se desenvolver, pois de acordo com a mãe, durante o período de abuso, a menina ficava muito retraída e sozinha.

A mãe explica que Fernando a deixou quando ela estava grávida de três meses da jovem. Depois que ela nasceu e foi crescendo, o pai via a filha aos finais de semana, mesmo não ajudando financeiramente na criação da filha. “Eu não queria criar mais problemas com ele depois da nossa separação e por isso permitia que ele a visse”, disse.

A família mudou-se para Weymouth, onde ficou por um ano e em seguida foi para Somerville (MA), onde está há cerca de seis anos. E neste período de mudanças, o pai viu a filha apenas uma vez, porque insistiu demais. “Minha filha não queria mais vê-lo e sempre que eu falava que ela iria passar o final de semana com ele, o comportamento dela mudava”, disse a Mãe. “Eu pensava que o fato dela negar-se a ver o pai, seria motivada por alguma raiva. Eu perguntei o que era, mas ela não quis me contar”, continua.

De acordo com a Mãe, Fernando nunca ajudou os filhos e quando um deles ficou doente, ele teria exigido que ela pagasse a gasolina do seu carro para ele ir ao hospital. “Eu fiquei pasma quando ele disse que eu deveria pagar para ele visitar o filho doente”, afirma.

A DESCOBERTA

Foi durante este período que os abusos de Fernando foram descobertos. Ele disse que levaria a menina e o irmão para passar um final de semana com ele. Mas o temperamento dela mudou radicalmente e disse que não queria ir com o pai. Na época já estava com treze anos de idade. A mãe perguntou porque ela estava agindo daquela e foi surpreendida com a resposta.
“Se eu te contar você vai me amar menos?”, indagou a filha.

“Lógico que não. Jamais te amarei menos”, respondeu a mãe.

Neste momento iniciou-se um dos diálogos mais tensos na vida das duas. A filha disse para a mãe: “lembra quando você conversou comigo, quando eu tinha oito anos de idade, e falou que ninguém, nem você, poderia tomar em minhas partes íntimas? Meu pai fez isso. Ele me beijava, alisava minhas partes íntimas e tocava em mim. E foi depois que você me disse isso que eu comecei a bater nele e não querer mais vê-lo”.

A menina afirmou que não contou antes para a sua mãe porque o pai fazia ameaças. “Ele dizia que você (mãe) era doente e não aguentaria ouvir a verdade e morreria. Ele iria para a cadeia e eu ficaria sozinha, sem pai nem mãe. Eu era uma criança e sentia medo”, disse.

Durante este desabafo da filha, o único momento de alívio da mãe foi saber que o pai não fez penetração, ou seja, não houve o ato sexual. Após ouvir a história, abalada e sem chão, a mãe ligou para o pai e o chamou de monstro. “Naquele instante minha vontade era de matá-lo, mas eu disse para ele que faria algo diferente e que o colocaria na prisão”, fala ressaltando que Fernando respondeu: “se você fizer isso ficará sozinha para pagar a dívida que tínhamos com o IRS”, se referindo a uma declaração de imposto que o casal fez junto em 2008. “Eu respondi que pagava sozinha, mas que ele iria ser preso”.

A DENÚNCIA

Após desligar o telefone, a Mãe foi até o Departamento de Polícia de Somerville (MA) e fez a denúncia. Os investigadores ligaram para policiais em Plymouth, onde teria acontecido os abusos, e no outro dia foi marcada uma entrevista para que a menina fosse ouvida. Era abril de 2015 e ela tinha 13 anos de idade. “Quando minha filha começou a falar, eu não conseguiu ouvir tudo e sai da sala”, disse.

As autoridades exigiram um exame de virgindade para detectar se ouve ou não penetração. O resultado, de acordo com a mãe, foi entregue um mês após e foram os trinta dias mais tensos de sua vida. “Eu passei muito mal, mas fiquei aliviada quando soube que minha filinha não passou por um ato sexual completo. Ela ainda era virgem. Mesmo feliz por esta notícia, não deixava de pensar que o que Fernando fez foi se justifica e ele deveria pagar por isso”, fala.

Durante o período de investigações, a mãe quase não trabalhou, pois não queria deixar a filha sozinha. Passaram-se alguns dias, os investigadores ouviram o testemunho da menina, coletaram algumas provas e prenderam Fernando, que ficou três anos preso e jurando que não era culpado.

O JULGAMENTO

“Há duas semanas, eu estava no Brasil fazendo um tratamento quando fui comunicada de que precisava voltar pois aconteceria o julgamento. Retornei imediatamente e durante a audiência, com 20 jurados, Fernando permanecia cabisbaixo”, disse.

O juiz Jeffrey Locke parabenizou a menina pela coragem e por ser forte para suportar tudo aquilo. “Ele ressaltou que ela foi bem criada e educada”, disse a mãe.

Durante o julgamento, a mãe perguntou para Fernando porque ele tinha feito o que fez e ele se calou. “Eu criei nossos três filhos sem te pedir pensão, sem acionar a justiça por você não me ajudar financeiramente e você faz isso”, disse ela olhando para ele.

A mãe teve três tipos de câncer e ela acredita, diante do que os médicos lhe falaram, que os tumores foram frutos de pressões emocionais.

A menina também olhou para o pai e pediu perdão: “Me perdoa por quebrar o nosso segredo, mas eu não podia deixar você acabar com a minha vida. Eu precisava passar por cima disso e iniciar uma nova fase”. Novamente ele se calou e não disse nada.

ALERTA

Com tudo isso, a mãe relata que sua intenção é fazer um alerta para a comunidade. “Eu sempre fui uma mãe dedicada e amorosa, mas jamais percebi que o comportamento estranho de minha filha poderia ter sido motivado por um abuso sexual. Quando seus filhos agirem diferente do normal, seja persistente em descobrir o que está acontecendo. A justiça foi feita, mas esta será uma parte de nossa história que jamais apagaremos da memória”, finaliza.

Fonte: Lucci Luciano