Publicado em 7/03/2018 as 8:00am

Da pacata St. Lucie, na Florida, brasileiro enviou quase 1,2 mil fuzis e 300 mil munições para a guerra do tráfico no Rio

O Ministério Público Federal do Brasil calcula que quase 1,2 mil fuzis e pelo menos 300 mil munições tenham chegado às mãos de traficantes cariocas através do esquema montado por Frederik Barbieri, preso no mês passado na Flórida

Da pacata St. Lucie, na Florida, brasileiro enviou quase 1,2 mil fuzis e 300 mil munições para a guerra do tráfico no Rio Barbieri teria ganhou o Green Card através do matrimônio.

Foram pelo menos 75 remessas entre 2014 e 2017. Durante 8 dias nos Estados Unidos, repórteres da TV Globo levantaram como o carioca de Irajá virou o maior traficante de armas que, de uma cidade pequena, St. Lucie (FL) alimenta a guerra em seu próprio estado de origem.

Frederik, conhecido como Fred, estava estabelecido nos EUA havia alguns anos, mas vivia numa espécie de ponte-área Rio-Miami. No estado americano da Flórida, embarcava computadores e videogames; no Edifício Central, no Rio de Janeiro, ajudava na distribuição do que acabara de chegar.

"Oficialmente, ele fazia um adianto aqui, outro ali. Pagava um dinheirinho por fora para todo mundo sair ganhando, e tudo bem. Ninguém sabia que ele mexia com coisa errada", diz um empresário do ramo de importação e exportação.

A expressão "adianto" que ele usa, em bom português, é contrabando. O que quase ninguém do ramo sabia é que, em 2011, Fred já estava apostando mais pesado e começando a se aproximar do mercado do tráfico de armas. "Até que um dia, estávamos na sala da casa dele conversando. Ele apareceu com um AK-47 nas mãos e me cantou, meio que brincando: 'Vamos mandar isso pro Brasil?'".

Lá se vão quase sete anos. De fato, Fred mudou de vida completamente durante esse período. Dirigia um Ford Explorer preto com alguns bons anos de uso. De repente, deu início a uma pequena coleção de carrões, que incluía um Audi Q7 e uma Land Rover.

"Lembro que ele disse ter vendido uma casa em Niterói para conseguir se levantar", diz outro amigo afastado dos tempos de Miami.

Cria da Aníbal Porto, rua do subúrbio carioca de Irajá, Fred entrou no radar da polícia pela primeira vez no final dos anos 90. Motivo: sua amizade com Marcelo da Silva Burck, o Marcelo da Gata de Irajá, preso em 2002 pela Polícia Federal.

Naquele tempo, era o amigo e vizinho do bairro quem ostentava o título de traficante de armas número 1. "Não tínhamos nada contra o Fred na época. Só sabíamos da existência dele. Mas depois ele sumiu no mapa", diz um investigador da Polícia Civil.

Limpador de piscinas e Green card via casamento

Fred realmente saiu da mira da polícia a partir de 20 de dezembro de 2000. Foi neste dia que ele registrou residência fixa nos EUA pela primeira vez. Uma parte de sua família, de Ramos, outro bairro do subúrbio do Rio, já havia se mudado para tentar a vida em Miami. Fred foi atrás.

Não há, nesta época, qualquer indício de que ele tenha ido para lá com o objetivo de enviar armas para o Brasil. Pelo contrário. Quem o conheceu conta que ele fez o caminho que todo imigrante faz quando chega na América: procura um emprego. "Ele começou aqui limpando piscinas", diz outro amigo.

Em 2005, Fred já tinha criado fortes laços de amizade na própria comunidade brasileira. Um deles, dono de um mercadinho na vizinha cidade de Coral Gables, foi quem mais o incentivou. Veio dele também a ideia fixa de que Fred precisava casar de qualquer maneira para pegar logo o Green Card – direito de viver nos Estados Unidos legalmente.

Feitas as devidas apresentações, no dia 27 de setembro de 2006, Frederik Barbieri, aos 34 anos de idade, e a cubana radicada (naturalizada) nos Estados Unidos Margarita Pena Rios, de 48, foram até o cartório central de matrimônios, no Centro de Miami, para assinar a papelada e obter o certificado de casamento.

"Custou cerca de US$ 20 mil esse casamento", diz o delegado Maurício Mendonça, que comandou a operação da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) que começou a desarticular toda a quadrilha de Fred, no ano passado.

Depois que obteve a cidadania, Fred desfez o casamento. Dia 22 de setembro de 2008, o "casal" voltou a se encontrar num cartório para assinar o litígio "sem filhos, sem patrimônio e sem dívidas".

Nesta época, Fred já havia embarcado no ramo que lhe daria dinheiro de verdade. Ainda em 2006, criou no Rio de Janeiro a ZPA Importações e Exportações. No ano seguinte, montou sua primeira empresa nos EUA, a FKBar (numa alusão ao seu nome) Limited Liability Company, registrada com o endereço de um condomínio de classe média na Avenida 107.

Boa parte de suas operações passava pelo principal porto da Flórida, de Everglades, em Fort Lauderdale. Fred fazia muitos negócios com outras empresas brasileiras, inclusive a de seu grande amigo e incentivador dono da mercearia. "Até que o Fred se apaixonou pela Ana Cláudia, que era a mulher desse comerciante brasileiro. Ela largou ele pra ficar com o Fred, e a amizade acabou", relembra um amigo em comum.

Ana Cláudia Santos Barbieri se tornaria mais do que simplesmente "a mulher de Fred". Se tornaria sócia nas empresas e, nas palavras de delatores, cúmplice da empreitada criminosa.

No acordo de delação premiada negociado com o Ministério Público Federal, uma das principais testemunhas do processo que corre na 8ª Vara Federal do Rio de Janeiro revela que Ana Cláudia chegava a ajudar o marido na montagem dos aquecedores de piscina recheados com fuzis e munições.

No Brasil, ela está com a prisão decretada e é considerada foragida. Atualmente vive com a filha do casal, de 7 anos, na casa em Fort Pierce, também na Flórida, onde Frederik foi preso no último dia 23 de fevereiro.

Fonte: Redação - Brazilian Times