Publicado em 26/03/2018 as 5:00pm

Técnico brasileiro nos EUA: “Ser jogador aqui não é sonho, é passaporte para universidade”

Um país que tem milhões de crianças jogando futebol, clubes com dinheiro, estrutura e boa...

Técnico brasileiro nos EUA: “Ser jogador aqui não é sonho, é passaporte para universidade” Thales Peterson, ao centro, com atletas da FC-Golden-State.

Um país que tem milhões de crianças jogando futebol, clubes com dinheiro, estrutura e boa condição social. Tudo isso poderia ser motivo para que os Estados Unidos formassem muitos jogadores de futebol, mas não é. E as razões para entender o problema de formação de jogadores nos Estados Unidos é mais complexo do que simplesmente dizer que americanos não se interessam por futebol. Por isso, conversamos com Thales Peterson, treinador e um dos coordenadores do FC Golden State, um clube formador na Califórnia, que tenta emplacar jogadores no futebol profissional do país.

Thales nos passou um panorama de como está a formação de jogadores no país, o choque cultural entre o que se pensa de futebol na América do Sul e nos Estados Unidos, além de uma diferença social enorme. Veja abaixo o que Thales contou com exclusividade à Trivela.

Mudança para os EUA

“Sempre quis ir para os Estados Unidos. Trabalhava em uma empresa que fazia soccer campse meu chefe veio ao Nova México. Uma mulher gostou do nosso trabalho e perguntou se teria alguém para ir. Eu fui e fiquei no Novo México por um ano, mais ou menos. Mudei para Miami, trabalhei por lá, junto com a Traffic. Depois de alguns anos, fundamos a Golden State. Eu encontrei o meu sócio, que tinha a ideia e dois filhos que queriam jogar. Ele não gostava da metodologia dos clubes próximos. Queria uma filosofia diferente, que não focasse só em ganhar”.

Em busca de uma entrada na universidade

“No nosso universo, todo mundo quer ser jogador profissional. Não precisamos incentivar a se esforçar. Aqui, o objetivo não é esse muitas vezes. Muitas vezes o objetivo é entrar na universidade. Muitos pais me procuram para dizer isso, que o futebol será um passaporte para entrar na faculdade. Muitas vezes, se formando em uma universidade grande, ele consegue ganhar mais do que como jogador de futebol. Para eles, se formar e ganhar um bom salário é o objetivo. Na nossa cultura, no Brasil, você só se formar e trabalhar, você não vai enriquecer nunca. Nos Estados Unidos não. Isso pouco a pouco está mudando. De cinco anos para cá, isso mudou muito. Os times da MLS estão investindo isso. Muitos dos times estão contratando jogadores de 15, 16 ou 17 anos para já amarrar o jogador e não ter perigo de perder. Muitas vezes os próprios clubes formam os jogadores e eles acabam ingressando na universidade”.

Escolinha e categorias de base

“As academias, como o Golden Stade, são como as categorias de base no Brasil. A gente joga contra as categorias de base dos clubes da MLS e com outros clubes como o próprio Golden State. Para jogar esses campeonatos, não é qualquer clube que consegue. Precisa ter treinadores, formação de jogadores, tirar uma licença. Por não terem tantos clubes da MLS, é preciso outros clubes que tenham o mesmo nível, para jogar contra. A parte da academia, categorias de base, os meninos não pagam. Os meninos não pagam uniforme, viagem, nada, tudo patrocinado. A parte do clube, é a parte que seria a escolinha. Você chega lá, se o seu time tem 10 ou 11 anos, temos vários times de vários níveis, você paga, como uma escolinha. Os meninos que se destacam mais na parte do clube, que funciona como escolinha, são convidados para um teste para a academia. Então funciona”.

Futebol universitário atrapalha

“Uma das coisas que se precisa fazer é aliar o futebol universitário com o futebol profissional. Aqui os meninos têm medo de jogar futebol profissional. Aqui, quando joga no futebol profissional, você perde a elegibilidade para o futebol universidade. Talvez criar uma idade, até 23 anos, por exemplo, que ele continue sendo elegível. Dar uma autonomia maior para os clubes, que eles cuidam mais dos jogadores, dar chances aos jogadores mais novos. Seleções americanas de base sempre vão bem. O maior problema é dos 17 aos 23, que é a idade que os meninos vão para a Universidade. O nível desce muito. Você joga três meses e faz festa em nove meses. Teria que ser o contrário, treinar muito mais, jogar muito mais. Esse é um ponto que o presidente da federação poderia mudar”.

Fonte: Redação - Brazilian Times