Encontros organizados por ativistas orientam participantes sobre como acompanhar e contestar ações de agentes federais. Reportagem do Washington Examiner questiona práticas que poderiam atrasar operações de fiscalização migratória.
A realização de treinamentos destinados a orientar ativistas durante operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) está provocando controvérsia na Filadélfia, na Pensilvânia. Os encontros, conhecidos como “ICE Out”, ensinam participantes a reagir à presença de agentes federais, enquanto críticos afirmam que determinadas estratégias podem dificultar a prisão de imigrantes procurados pelas autoridades.
A discussão ganhou destaque após a publicação de um artigo no Washington Examiner, que relacionou os treinamentos a operações recentes do ICE na região. O texto cita estrangeiros condenados por crimes graves, incluindo homicídio, violência sexual contra menores, roubo e agressão, que foram detidos pelas autoridades migratórias.
Entre os casos mencionados está o de Abdoulaye Doucoure, natural do Mali, condenado por homicídio de terceiro grau na Filadélfia. Segundo o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS), ele foi preso pelo ICE em 20 de agosto de 2026.
Outro caso é o de Eswin Garcia-Ispache, condenado por agressão sexual agravada contra uma criança. De acordo com as informações divulgadas pelas autoridades federais, ele havia entrado irregularmente nos Estados Unidos e foi detido pelo ICE em 10 de setembro.
O artigo também menciona Marco Gomez, da República Dominicana, condenado por crimes sexuais, agressão indecente e restrição ilegal da liberdade de uma pessoa. Sua prisão pelo ICE ocorreu em 14 de setembro.
Entre os demais nomes apresentados estão Kea Tum, do Camboja, condenado por agressão, roubo, posse de substância controlada e porte ilegal de arma de fogo, e Paul Brown, da Jamaica, condenado por crimes envolvendo menores de idade. Brown foi preso por agentes migratórios em 1º de outubro.
Treinamentos orientam ativistas durante operações
Segundo o Washington Examiner, os encontros realizados na Filadélfia incluem orientações práticas e simulações de situações envolvendo agentes do ICE.
Durante dois exercícios acompanhados pelo autor do artigo, participantes teriam recebido instruções para abordar agentes de maneira firme, mas sem agressividade, solicitar a apresentação de mandados e utilizar estratégias para retardar o andamento das operações, evitando contato físico com os policiais.
Uma das orientações mencionadas integra os chamados “Cinco Ds” de resistência ao ICE, conjunto de estratégias que inclui a interrupção ou alteração de ações de fiscalização migratória.
A reportagem afirma que os participantes também foram incentivados a criar distrações durante as operações, dentro dos limites que os organizadores consideram legais. Entretanto, a legalidade de cada conduta depende das circunstâncias, especialmente quando envolve possível interferência na atuação de agentes federais.
Vereadoras defendem orientação à comunidade
A vereadora Rue Landau, uma das autoridades municipais envolvidas nas iniciativas, defendeu publicamente os treinamentos. Em janeiro, ela afirmou que as ações do ICE estavam provocando medo nas comunidades e acusou agentes federais de agir de maneira autoritária e desrespeitar a legislação.
A vereadora Kendra Brooks também apoiou os encontros, argumentando que a população precisa conhecer seus direitos e estar preparada para situações envolvendo autoridades migratórias.
Segundo uma reportagem publicada pelo Billy Penn, cerca de 100 pessoas participaram de um treinamento em janeiro. Desde o início da iniciativa, em 2025, mais de mil participantes receberam orientações sobre como agir diante de operações do ICE.
Debate envolve segurança pública e direitos dos imigrantes
O autor do artigo publicado pelo Washington Examiner sustenta que as estratégias ensinadas nos encontros podem beneficiar estrangeiros condenados por crimes violentos, ao atrasar a atuação dos agentes federais.
Por outro lado, os organizadores afirmam que o objetivo é informar moradores sobre seus direitos, permitir o acompanhamento das operações e oferecer apoio às comunidades afetadas pela fiscalização migratória.
Embora o artigo apresente casos de criminosos detidos pelo ICE, não demonstra que os treinamentos tenham impedido especificamente essas prisões ou que os organizadores tenham atuado para proteger os condenados mencionados.
A controvérsia ocorre em meio ao endurecimento da política migratória do governo Donald Trump e às divergências entre autoridades federais e lideranças municipais sobre os limites da fiscalização.
Na Filadélfia, o debate também chegou à Câmara Municipal, onde vereadores apresentaram propostas para restringir determinadas práticas dos agentes migratórios e limitar a colaboração de órgãos municipais com o ICE.
O confronto de posições evidencia uma disputa que ultrapassa a cidade: de um lado, a defesa da aplicação das leis migratórias e da segurança pública; de outro, a preocupação com direitos constitucionais, fiscalização das autoridades e proteção das comunidades imigrantes.





