Um encontro entre pastores brasileiros e o candidato republicano ao governo de Massachusetts, Mike Minogue, realizado na cidade de Somerville, provocou uma onda de críticas, indignação e questionamentos entre integrantes da comunidade brasileira no estado. A reunião, apresentada pelo político nas redes sociais como uma oportunidade para discutir o futuro das famílias, ganhou repercussão especialmente diante das preocupações sobre a manutenção de direitos conquistados pelos imigrantes indocumentados, incluindo o acesso à carteira de motorista.
A polêmica se intensificou após a divulgação de informações sobre o encontro, que passou a ser questionado por comunicadores, ativistas e lideranças comunitárias. Entre as principais preocupações está a possibilidade de representantes religiosos estarem manifestando apoio a um candidato apontado por críticos como favorável à retirada de direitos assegurados à população imigrante.
A repercussão também chegou ao meio político, com relatos sobre a divulgação de uma carta de repúdio assinada por deputados estaduais contra a aproximação entre lideranças religiosas e o candidato republicano.
Um dos posicionamentos mais contundentes veio de Leandrinhom, CEO da Rádio Insuperável, que cobrou uma manifestação pública dos pastores brasileiros que não concordam com a aproximação política.
“É impossível acreditar que todas as lideranças religiosas brasileiras compactuem com essa situação. Eu me recuso a acreditar nisso! Então, que aqueles que não concordam venham a público, deem a cara e se posicionem! Porque não seria justo colocar todos no mesmo balaio. Mas também não podemos ignorar a gravidade do que está acontecendo. Quem não concorda também precisa ter coragem de dizer”, declarou.
A manifestação reflete a preocupação de parte da comunidade com a possibilidade de que a participação de determinados líderes religiosos seja interpretada como um posicionamento coletivo das igrejas brasileiras de Massachusetts.
Alex Colombini, presidente da Câmara de Comércio Brasileira em Massachusetts (CDLE-USA), também comentou a controvérsia e relembrou a mobilização histórica que garantiu aos imigrantes sem status migratório regular o direito de solicitar uma carteira de motorista no estado.
“Lutamos muito para garantir aos imigrantes indocumentados o direito de obter uma carteira de motorista em Massachusetts. Uma conquista importante da nossa comunidade!”, afirmou.
Colombini destacou que as redes sociais foram tomadas por acusações de que o Conselho Pastoral estaria apoiando o candidato republicano, apontado como contrário à manutenção desse direito. Diante da repercussão, o Conselho Pastoral divulgou uma nota de esclarecimento para apresentar sua posição sobre o encontro.
A discussão também mobilizou a ativista Lídia Souza, que participou durante anos da luta pela aprovação da legislação que permite aos imigrantes indocumentados obter carteira de motorista em Massachusetts.
Lídia questionou a decisão de lideranças religiosas de se reunirem com um político cujas posições, segundo ela, representam riscos para conquistas da comunidade imigrante.
“Minha pergunta é: vocês leram o plano de governo dele? Vocês já ouviram as declarações dele? Fazer encontro com alguém que é a favor das políticas do governo federal é complicado. Lamentável! É colocar raposa para cuidar do galinheiro”, declarou.
A ativista também ressaltou a importância de preservar os avanços conquistados nos últimos anos e lembrou o posicionamento da governadora de Massachusetts em defesa da legislação que ampliou o acesso à carteira de motorista.
O direito foi estabelecido pela Work and Family Mobility Act, legislação que entrou em vigor em julho de 2023 e permite que moradores elegíveis obtenham uma carteira de motorista independentemente de seu status migratório, desde que cumpram os requisitos exigidos pelo estado.
A controvérsia reacendeu o debate sobre a participação de líderes religiosos na política e os limites entre o diálogo institucional com candidatos e a manifestação de apoio eleitoral. Para os críticos, a preocupação central é evitar que conquistas da comunidade imigrante sejam enfraquecidas por propostas políticas que possam surgir em uma futura administração estadual.
Por outro lado, a participação em uma reunião com um candidato não representa, necessariamente, um endosso político ou eleitoral. A distinção entre diálogo, aproximação institucional e apoio formal tornou-se um dos pontos centrais da discussão.
O episódio evidencia a sensibilidade do tema migratório em Massachusetts, estado que abriga uma expressiva comunidade brasileira e onde organizações, ativistas e lideranças comunitárias participaram de anos de mobilização para ampliar direitos e garantir maior segurança às famílias imigrantes.
A posição de Minogue sobre a carteira de motorista é um dos elementos que ajudam a explicar a reação. Em entrevista à Nossa Rádio, segundo reportagem da Brazilian Magazine, o candidato defendeu a revogação da legislação que permite a emissão do documento para imigrantes indocumentados.
Apesar da repercussão, o conteúdo integral da nota de esclarecimento do Conselho Pastoral e da carta atribuída aos deputados estaduais não foi disponibilizado nas informações analisadas. Também não foi possível confirmar que o encontro tenha sido organizado secretamente ou que todos os pastores presentes tenham declarado apoio eleitoral a Minogue.
A discussão ocorre em meio à disputa pelo governo de Massachusetts, na qual Minogue enfrenta a governadora democrata Maura Healey. A política migratória está entre os temas que diferenciam as duas candidaturas e mobilizam eleitores e organizações comunitárias.
Para parte dos brasileiros que participaram da mobilização pela carteira de motorista, a preocupação vai além das preferências partidárias. O episódio levanta questionamentos sobre o papel das lideranças religiosas na defesa de direitos conquistados pela comunidade e sobre a responsabilidade de seus representantes diante de propostas que possam modificar a legislação estadual.





