Uma família de Governador Valadares, em Minas Gerais, é acusada de comandar um esquema de contrabando de migrantes que utilizava crianças como parte de uma estratégia para reduzir o risco de deportação imediata na fronteira dos Estados Unidos. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), 223 menores de idade foram envolvidos nas viagens clandestinas organizadas pelo grupo.
O esquema teria enviado ilegalmente pelo menos 673 brasileiros aos Estados Unidos entre 2017 e 2023. Desse total, as crianças e os adolescentes representavam 32,4%. A denúncia destaca que os adultos eram incentivados a viajar acompanhados de menores, fossem eles seus filhos ou não.
A estratégia era conhecida como “cai-cai”. O objetivo, conforme o MPF, era fazer com que os grupos familiares recebessem um tratamento migratório diferente ao se entregarem às autoridades americanas, diminuindo a possibilidade de uma deportação imediata.
Durante as viagens, crianças e adultos eram submetidos a condições degradantes. A investigação identificou a permanência dos migrantes em casas de apoio superlotadas, com restrições de água e alimentação. Eles também ficavam expostos a violência, extorsões e ao risco de sequestro por cartéis que atuam nas rotas clandestinas entre o México e os Estados Unidos.
Família comandava organização
O MPF denunciou 12 pessoas por participação no esquema. Cinco delas pertencem à mesma família de Governador Valadares. Dois irmãos são apontados como líderes da organização e seriam responsáveis por captar os interessados, controlar os pagamentos e coordenar a logística até a fronteira americana.
O pai dos irmãos também teria participado das atividades. Outros familiares são acusados de movimentar e lavar os valores obtidos com as travessias clandestinas.
Os investigados foram denunciados por organização criminosa transnacional, contrabando de migrantes, uso de documento falso e lavagem de dinheiro. Caso a denúncia seja aceita pela Justiça Federal, eles se tornarão réus. Até o momento, os acusados respondem em liberdade.
Travessias custavam até R$ 100 mil
A organização cobrava entre R$ 50 mil e R$ 100 mil por migrante. Além do pagamento em dinheiro, as famílias eram obrigadas a entregar veículos, assinar notas promissórias e termos de confissão de dívida e conceder procurações que autorizavam a venda de imóveis.
Mais de 300 operações bancárias realizadas diretamente pelos migrantes para os supostos líderes foram identificadas. Parte dos recursos passava por contas abertas com documentos falsos ou registradas em nome de terceiros.
A estimativa é que o esquema tenha movimentado mais de R$ 40 milhões. O MPF pediu o bloqueio de R$ 44,7 milhões, o confisco dos bens adquiridos com os recursos ilícitos e uma indenização pelos danos morais provocados à sociedade.
Documentos falsos e vídeos de propaganda
Para facilitar a passagem pelo México, o grupo teria adulterado cartões de vacinação e utilizado documentos falsos de proteção humanitária. Um brasileiro radicado em território mexicano, apontado como “coiote”, recebia os migrantes e organizava o trajeto terrestre até a fronteira.
Ao chegarem aos Estados Unidos, os brasileiros eram orientados a descartar passaportes, vistos e documentos falsificados antes de se entregar às autoridades migratórias.
Mesmo diante dos riscos, os migrantes eram obrigados a gravar vídeos durante a jornada agradecendo pelo serviço prestado. As imagens eram utilizadas como propaganda para atrair novos interessados no Vale do Rio Doce.
De acordo com a denúncia, a organização também custeava advogados para atender os brasileiros nos Estados Unidos, sob a condição de que eles não revelassem o funcionamento do esquema às autoridades.





