Publicado em 26/05/2013 as 12:00am

Cadeia de reflorestamento chega até o grande investidor em várias regiões

Técnicas são desenvolvidas para baratear os gastos. Nas APPs, não é permitida nenhuma atividade gere lucro ao proprietário.


Reflorestar custa caro, por isso, estão sendo desenvolvidas diversas técnicas para baratear os gastos.

A cadeia do reflorestamento chega até o grande investidor, o que aposta na bolsa de valores e acredita na floresta nativa como um bom negócio.

Trinta milhões de hectares. Essa é a estimativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário da área existente no Brasil que precisa ser reflorestada, incluindo APP - Área de Preservação Permanente - e reserva legal.

Nas APPs, não é permitida nenhuma atividade que possa gerar lucro ao proprietário. Com exceção das propriedades familiares. Mas dentro das áreas de reserva é possível cumprir a lei  - que no caso de Mata Atlântica obriga o reflorestamento de pelo menos 20% da propriedade -  e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro com o replantio. E haja muda para dar conta de tudo isso.

Em Piracicaba, interior de São Paulo, em um dos maiores viveiros de mudas nativas do Brasil ,são produzidos por ano quatro milhões de mudinhas. O agrônomo Andre Nave  - o sexto na nossa cadeia da restauração - inaugurou o viveiro há 15 anos. Ele vê melhoras neste mercado. Tanto que já abriu uma filial na Bahia, mas acredita que um dos gargalos da cadeia do reflorestamento está no alto custo da restauração. Por isso, vem testando técnicas para enxugar esses valores.

Uma delas é o método de fazer o recobrimento da área com semeadura direta de espécies de rápido crescimento e não com mudas.As experiências com adubação verde mostram que esse tipo de técnica não deixa que as espécies invasoras cresçam e atrapalhem o desenvolvimento  de árvores nativas.

“Em vez de plantar uma muda, a gente está semeando isso, e a gente usa um grupo de rápido crescimento. Ela já me dá uma adubação do solo, ela me sombreia o solo,essa adubação verde... e me traz matéria orgânica”, conta o agrônomo.

Além de um crescimento mais rápido da floresta, há uma diminuição no número de operações na aplicação de herbicidas. No campo experimental do viveiro, nos nove meses do reflorestamento com a nova técnica, foi necessária somente uma aplicação de herbicida. Se fosse no campo com plantio de mudas nativas, seria preciso fazer de três a quatro aplicações no mesmo período.

“Esse é o grande segredo: a gente saber quais espécies utilizar não só de adubação verde mas também de espécies nativas que me recubram rapidamente essa área e me criem um ambiente adequado para que a floresta desenvolva”, afirma André.

Segundo os cálculos do agronômo, com esse método, o custo de reflorestamento cai de 12 mil reais por hectare para três mil reais.

No Espírito Santo, na cidade de Linhares, onde mora um dos coletores mais experientes deste ramo: o seu Domingos - o sétimo da nossa cadeia -  virou patrão: em 2007 ele abriu sua própria empresa de coleta de sementes. Com um de seus oito funcionários, o seu Manoel entra na mata para pegar paraju.

Quem sobe na árvore é o seu Manoel. Com uma vara de poda, ele sacode os frutos e seu Domingos recolhe. Depois, leva para a cidade.

A casa onde morava a filha do seu Domingos fica no mesmo terreno onde hoje funciona a empresa dele. A varanda funciona como depósito pra fazer a secagem até o ponto do beneficiamento. “A casa aqui está toda cheia de sementes...”, ele comenta.

Domingos nem sabe dizer quantas sementes já colheu até hoje. Por ano, são quatro mil quilos.
“Algumas vezes a gente acaba encontrando espécies que eu nunca vi. Além da coleta das sementes, a gente faz também o material botânico pra mandar para os especialistas. Com esse trabalho já foi descoberta  umas espécies novas, beirando cem espécies novas", conta ele. Ele tem três espécies que levam seu nome.

Domingos já chegou a ter contrato com três instituições que promovem reflorestamento. Atualmente, entrega material para essa empresa com sede em Trancoso, na Bahia. Uma fazenda de 300 hectares que está sendo chamada de fábrica de florestas. As sementes são analisadas na hora que chegam e, se aprovadas,  vão para uma câmara fria. Algumas viram matrizes e outras serão utilizadas para a produção da floresta de madeira. Tudo sob supervisão do agrônomo Angelo Marques. "Depende da nossa produção é o tempo que ficam ali, em média, no máximo três a quatro meses", conta ele.

Ele comenta a importância delas ficarem no frio: “Manter ela hibernada para que o processo germinativo não se inicie. E à partir disso a gente leva para a sementeira pra começar todo o processo de germinação, com absorção de água e iluminação”.

A ideia de plantar florestas é do banqueiro Bruno Mariani - o oitavo na nossa rede, 25 anos de experiência em outro ramo, o mercado financeiro. Como não entendia bem do assunto, pediu ajuda ao engenheiro florestal Renato de Jesus, esse sim, especialista em reflorestamento.
“Já trabalho com isso há mais de 35 anos., e expliquei pra ele : as espécies podem ser essas, os incrementos previstos podem ser esses, os custos de implantação, manutenção e custeio são esses... Com isso ele pode montar uma lógica silviocultural e com esses números ele montou a lógica econômica”, diz Renato.

As primeiras árvores foram plantadas há dois anos e meio e são fruto de uma seleção de 30 espécies, escolhidas numa área de 1.200 quilômetros, que vai do Rio de Janeiro até Itabuna, na Bahia.

A meta do empreendimento é plantar cem mil hectares em 20 anos e vender para investidores que esperam retorno a longo prazo. “Quando você começa trabalhar para um empresa hoje, você começa a contribuir para aquele fundo de pensão e o fundo de pensão tem uma dívida com você. Daqui a 30 anos, quando você se aposentar, ele vai ter que devolver aquele dinheiro. Então, o fundo de pensão tem que fazer investimentos casados no tempo com a mesma duração que ele tem a dívida. Então, por isso que ele precisa de investimentos de longo prazo. A bolsa pode subir, o juro pode descer e a floresta está crescendo independente", explica Bruno.

Longe das preocupações do mercado financeiro, encontramos em Guarapari, no Espírito Santo, um produtor rural que por intuição colocou em prática  tudo isso que mostramos. Há treze anos, o Idalci de Matos Júnior, o último da nossa rede, começou a reflorestar essa propriedade herdada da família, que estava degradada e servia de pasto.

“Eu reservei essa área, como era uma área de chegada, eu reservei para os meus amigos chegassem aqui e fossem plantando. Os filhos do meu irmão, o meu irmão com a esposa. a minha tia com o netinho dela que tinha nascido... aquele mogno de lá. E assim vai marcando o dia e o momento, vai marcando o nascimento, o crescimento da família”, ele conta.

Sem saber dos experimentos que mostramos nesta reportagem,  ele criou seu próprio modelo de reserva legal com aproveitamento econômico.

Júnior planta árvores pensando nos frutos,  como a boleira. Planta árvore de olho no valor comercial da madeira. “Um guatí, uma árvore da Mata Atlântica que mais de 40 animais se alimentam dela. Deve demorar muitos anos para crescer”, comenta ele.

E plantas ornamentais, no meio da floresta, para conseguir uma renda em menos tempo. Júnior resolveu plantar fenix no meio da mata. “Eu tinha esse espaço, é uma planta comercial, o transplante você faz facilmente. Eu coloco num vaso e comercializo no meu comércio”, comenta. Quando o assunto é ganhar dinheiro depois de plantada, ele diz: “No meu caso, em torno de seis anos. Há pessoas com terra de melhor qualidade, botando adubo acredito que isso possa ser acelerado”.

Aos poucos, o morro Sarí-Morê que antes estava pelado, foi ganhando um cobertor de espécies nativas e o rio Meaípe, quase desaparecido tempos atrás, já corre no meio da mata. Júnior tem tanto entusiasmo por plantar árvores, que preparou uma muda para cada um da nossa equipe.

E finaliza: “A minha intenção é que as pessoas que não conheceram, igual eu vim a conhecer bem depois de adulto, com idade, possam vir conhecer no futuro. Meus filhos, meus netos, meus bisnetos possam passar aqui e falar ou se não for eles, alguém vai olhar e vai saber que existe essas árvores plantadas aqui. É para o mundo”.

Fonte: www.globo.com