Publicado em 17/10/2014 as 12:00am

Ex-doméstica luta por condições de trabalho

Ex-doméstica brasileira investe em educação e luta por melhores condições de trabalho para brasileiros nos Estados Unidos.

Há 20 anos, a brasileira Natalícia Tracy já havia descoberto os Estados Unidos. A princípio ela havia recebido um convite para trabalhar de babá para uma família brasileira, que veio morar em Boston por dois anos. A família fez várias promessas a jovem, que na época só tinha 17 anos e sonhava em estudar e aprender inglês.

No Brasil, ela trabalhava como doméstica desde a adolescência. E foi nessa época que surgiu o interesse em aprender uma nova língua. “ Eu gostava de ouvir as músicas hits nas rádios brasileiras, e na época teve muita influência dos cantores americanos e isso me instigou a aprender. Uma vez eu comentei com a minha patroa que meu sonho era aprender inglês, e ela disse que eu nunca aprenderia, que ser bilíngue era coisa de rico” relembrou dos tempos de jovem.

Quando recebeu a proposta da família brasileira, Natalícia não pensou duas vezes. Essa seria a oportunidade de estudar e vivenciar a experiência de morar no exterior.

As rosas eram promessas cheias de espinhos. “O trabalho era puxado. Eu trabalhava das 6am às 11pm. Era como se fosse um trabalho escravo, mas eles me pagavam $25 por semana” brincou ao lembrar que na época não existia o Centro do Imigrante Brasileiro para ajudar.

Esse foi só o começo da história, que pode até parecer com a história de alguns outros imigrante que conhecemos. Mas a vontade de aprender, mudou o destino da Natalícia. E hoje, muitos a procuram para que histórias como a dela não se repitam.

Quando a família brasileira decidiu voltar ao Brasil, Natalícia decidiu ficar. O que ela queria mesmo era continuar com o curso de inglês. Então, logo tratou de arranjar uma outra família para morar, com algumas condições mais humanitárias desta vez. “Eu queria um quarto, comida e um passe de transporte para ir para escola” lembrou emocionada, dos tempos onde passou fome e frio nos primeiros dois anos.

Para pagar os estudos, Natalícia, cuidava de criança durante o dia e nos finais de semana, cuidava de pessoas idosas. Foi assim, que ela bancou os estudos no Quincy College e Umass Boston. Ela dedicou os estudos a psicologia social, justiça criminal e antropologia.

E a vontade de aprender não parou por ai. Em 2003, sua tese de mestrado abordou a comunidade brasileira. “ Foi quando eu descobri outro Brasil nos Estados Unidos. Já existiam jornais brasileiros, lojas, e o centro do imigrante brasileiro.” afirmou Natalícia.

E desde então, Natalícia passou a se envolver com as questões da comunidade, através do Centro do Imigrante Brasileiro, onde ela trabalhava como voluntária. Na época já havia uma demanda enorme para ajudar a comunidade. “As pessoas faziam fila do lado de fora para serem atendidas, o telefone não parava de tocar e você vê o desespero das pessoas”.

Em 2009, o Centro do Imigrante Brasileiro estava passando por dificuldades financeiras e o ex-diretor executivo, decidiu fechar as portas da instituição. Na posição de voluntária, Natalícia, não queria que isso acontecesse, pois como voluntária, ela sabia da importância da existência de uma instituição que oferecesse apoio à comunidade.

E para que isso não acontecesse, Natalícia assumiu a administração do Centro do Imigrante Brasileiro. “Eu tive apoio de outros dois voluntários na época e mais uma funcionária que não desistiu do Centro. O começo não foi fácil, nós tínhamos US$200 dólares na conta e muitas contas para pagar” declarou.

Segundo Natalícia, a primeira medida tomada, foi limpar a imagem do Centro do Imigrante Brasileiro, que estava muito ligada a uma pessoa só. As fundações que apoiavam o Centro já não acreditavam na instituição. O Centro nunca recebeu nenhum apoio financeiro do governo brasileiro, e atualmente recebe doações de empresas privadas que ajudam com as despesas da instituição. “ Eu nunca deixei de acreditar na instituição. Os primeiros meses, eu paguei as contas com o meu cartão de crédito, eu sabia que existia um potencial e uma missão por trás disso” afirmou Natalícia.

Hoje, o Centro atende mais de 4 mil pessoas por ano e desenvolve um atendimento itinerário, onde participa de feiras e eventos para melhor atender a comunidade. A administração fica por conta da Natalícia, que além de administrar, luta por melhores condições de trabalho para as empregadas domésticas e para os trabalhadores nas construções civis. Sendo também, uma das responsáveis pela campanha da Carteira de Motorista em Massachusetts. Além de exercer o trabalho de diretora executiva no Centro do Imigrante Brasileiro, Natalícia é professora de pesquisa na UMass Boston.


Para mais informações sobre o Centro do Imigrante Brasileiro, ligue para: (617) 783-8001 E fique por dentro dos treinamentos de segurança, campanhas, aulas de inglês e outros serviços prestados a comunidade.

Fonte: Da Redação | Texto de Jaqueline Almeida