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Publicado em 28/01/2019 as 11:00am

“Icebox”: polêmico tema de imigração em um filme fraco de ideias

Obras artísticas que trabalham com temáticas polêmicas, e que estejam quentes por conta de...

Obras artísticas que trabalham com temáticas polêmicas, e que estejam quentes por conta de conjunturas políticas e/ou sociais, normalmente destacam-se da maioria, pois a relevância dos temas tratados agrega valor ao resultado final. Ao mesmo tempo, tal decisão traz efeitos colaterais que podem cumprir papel no fracasso de um trabalho. Afinal, além da responsabilidade na escolha da abordagem do tema, o filme (trazendo a discussão para o cinema) ainda vai necessitar de qualidades técnicas, como boas ideias de câmera, montagem, roteiro, atuações, etc.. para potencializar o assunto tratado.

Icebox, do estreante em longas Daniel Sawka, é um exemplo de quando o tema engole as escolhas técnicas de um filme. A urgência e complexidade da história que se quer contar exigia capacidades que o diretor aparentemente não estava preparado para alcançar. Com isso as situações na tela soam sempre incompletas, com ideias que podem até funcionar como desenvolvimento da temática, mas jamais como cinema.

O filme conta a história do garoto hondurenho Oscar (Anthony González), que vivia uma vida normal com sua família, até que se viu perseguido por uma gangue criminosa local. Com medo pela sua segurança e de sua família, ele se vê tendo que fugir para a casa de um tio, nos Estados Unidos, ajudado por atravessadores. A partir daí sua trajetória se torna incerta e perigosa, com ele vivenciando a dureza pela qual passam os imigrantes na fronteira norte-americana.

Sawka cria uma história que toca em imigração, gangues criminosas na América Latina (mais especificamente em Honduras), violência e crimes na infância, ruptura do vínculo familiar somada à ilegalidade noutro país. Isoladamente cada um desses temas renderia teses robustas e desdobramentos suficientes para uma série de filmes. Não é pecado, ao mesmo tempo, colocá-los todos num filme só, é claro.

O filme conta a história do garoto hondurenho Oscar (Anthony González).

 

No filme em questão isso cumpriu papel negativo, pois roteiro e direção num trabalho como esse precisam trazer densidade dramática, coesão na construção das personagens, das situações, para que o que está na tela tenha sempre um leque de elementos diretamente absorvidos pelo público, mas ainda assim traga coisas nas entrelinhas, no que é intrínseco ao tema, mas que não deve ser dito em voz alta, nem em close. E Icebox dá conta apenas da primeira camada, incapaz de abarcar todos os desdobramentos da história que se propôs a contar. O uso constante de uma trilha musical óbvia e sem criatividade nos momentos dramáticos mais agudos torna tudo mais identificável.

Por ser um filme com uma criança como protagonista, Sawka decide ocasionalmente variar o tom do filme, criando situações que sugerem alguma leveza e bom humor como válvula de escape para encarar a realidade tão dura. Conceitualmente a ideia expande os limites da trama, mas ela não se comprova na tela. O diretor possui uma clara dificuldade na direção de atores, e também na condução dessa variância, que é sempre rápida e sem coesão (a cena que um garoto “chantageia” o outro dizendo que vai dizer que ele faz xixi na cama, por exemplo, é constrangedora). Fica uma impressão de que os atores são melhores que o filme, principalmente no caso do protagonista, Anthony Gonzalez, e do carismático Omar Leyva.

Aliás, os atores estavam sabotados desde antes disso, por conta de um roteiro escasso de ideias, em que os personagens são tipos. Desde os coiotes sanguessugas e insensíveis às condições dos imigrantes, a jornalista americana branca que tenta salvar o dia, o valentão provocativo que no fundo tem bom coração. Até mesmo quando aparecem personagens que fazem a trama avançar, como é o caso de Manuel, tio de Oscar, Sawka não consegue potencializar tais qualidades, pois as dubiedades que cria são desvendadas, pois sua direção parece ser incapaz de assumir riscos e tomar decisões mais arriscadas, é fácil constatar onde o filme vai dar.

A câmera na mão é relativamente bem-sucedida nas cenas de ação mais agitadas. Com planos longos, em que o diretor quer nos passar a sensação de estarmos no meio do furacão, sem ter uma localização muito exata das coisas, tais sequências acabam sendo o que de mais arriscado o filme executa. Ao mesmo tempo, o convencionalismo da decupagem no restante do longa explicita as poucas ideias de Sawka para explorar visualmente a história que criou.

A urgência do tema pode até dar a entender que Icebox é um filme importante, mas isso não se comprova na tela. Por mais que a escolha de um tema relevante seja algo importante para o sucesso de um filme, isso nunca vai ser mais fundamental que boas ideias audiovisuais. Isso Sawka apresentou bem pouco.

Fonte: Redação Braziliantimes