A menos de algumas horas de Manhattan, Greenport guarda um pedaço surpreendente da história americana, e neste mês abriga um navio que combateu incêndios por 72 anos e esteve no Ground Zero após o 11 de Setembro
Quem visita Nova York pela primeira vez provavelmente começa por Times Square. É compreensível. As luzes, os teatros, os arranha-céus e o movimento permanente fazem daquele cruzamento um dos lugares mais conhecidos do planeta. Mas existe uma outra Nova York, bem distante da multidão de Manhattan, onde o turista pode trocar o brilho dos painéis eletrônicos pelo reflexo do sol sobre a água e descobrir histórias que não aparecem nos roteiros tradicionais.
É nessa outra Nova York que está Greenport.
Localizada no extremo leste do North Fork de Long Island, no condado de Suffolk, Greenport fica a cerca de 160 quilômetros de Manhattan. A viagem já funciona como uma espécie de transição de cenário: a paisagem urbana vai ficando para trás, surgem pequenas comunidades, fazendas e vinhedos e, pouco a pouco, o mar passa a dominar a paisagem. Greenport é uma pequena vila portuária voltada para a Peconic Bay, diante de Shelter Island, com uma história profundamente ligada à navegação. É uma daquelas descobertas que fazem o visitante perceber que conhecer Nova York pode significar muito mais do que apenas o circuito entre o Queens, onde fica o JFK, e Manhattan.
Greenport foi incorporada como vila em 1838 e, no século XIX, tornou-se importante porto de pesca, caça às baleias e construção naval. A chegada da Long Island Rail Road, em 1844, transformou ainda mais a comunidade e fez dela o terminal ferroviário do North Fork. Hoje, o trem continua chegando ao mesmo lugar: Greenport é o ponto final da linha. Depois dali, a viagem pode continuar, só que pelo mar.
A cidade conserva sua bela memória marítima no próprio desenho urbano. O waterfront continua sendo parte essencial da vida local, e Mitchell Park, com sua marina, fica praticamente no centro da experiência. Há um carrossel histórico dos anos 1920 funcionando a pleno vapor, restaurantes, pequenas lojas e embarcações entrando e saindo do porto. A poucos minutos de ferry está Shelter Island, uma pequena ilha situada entre os dois braços de Long Island e que guarda uma das surpresas naturais mais bonitas da região: cerca de um terço de seu território permanece protegido pela Mashomack Preserve, uma área de mais de 2.300 acres de florestas, campos, áreas úmidas e cerca de 11 milhas de costa. Para chegar até lá, o visitante embarca em uma balsa que faz a travessia entre Greenport e a ilha durante todo o ano. A viagem é rápida, simples e surpreendentemente barata: o passageiro a pé paga apenas US$ 3 por trecho; quem prefere levar o carro paga US$ 16 pelo veículo e motorista, mais US$ 3 por passageiro, com tarifa de retorno no mesmo dia de US$ 26 para veículo e motorista. É uma pequena travessia que transforma o passeio em outra experiência: em poucos minutos, o turista deixa o porto de Greenport para trás e chega a um paraíso onde a natureza ocupa um espaço extraordinário. Para quem chega de Manhattan acostumado ao ritmo acelerado da cidade, Greenport parece quase uma mudança de fuso horário emocional.
Mas há uma razão especialmente interessante para colocar Greenport no mapa neste momento.
Atracado no Mitchell Park Marina está o Fire Fighter, o histórico fireboat do FDNY conhecido atualmente como America 's Fireboat.
Construído em 1938, o navio entrou em serviço quando os Estados Unidos ainda estavam às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Permaneceu trabalhando para o Fire Department of the City of New York durante 72 anos, enfrentando mais de 50 grandes incêndios e tornando-se o fireboat de maior longevidade da história do FDNY.
Sua capacidade impressiona até hoje. O sistema de combate a incêndios podia lançar 20 mil galões de água por minuto dos seus 9 canhões dispostos no convés superior da embarcação, uma quantidade equivalente a aproximadamente 75 mil litros. Mas nenhum número é capaz de explicar completamente a importância histórica do navio.
O Fire Fighter estava em serviço quando Nova York viveu alguns de seus momentos mais dramáticos.
E estava lá em 11 de setembro de 2001.
Depois dos ataques ao World Trade Center, o sistema de abastecimento de água de Lower Manhattan foi severamente comprometido. O Fire Fighter permaneceu no local durante aproximadamente três semanas, fornecendo água para as operações de combate aos incêndios no Ground Zero. A embarcação que havia sido construída em 1938 continuava trabalhando a todo vapor, mais de seis décadas depois. É difícil imaginar uma metáfora mais poderosa para a própria cidade de Nova York: enquanto parte de Manhattan estava em ruínas, um navio construído antes da guerra continuava bombeando água para ajudar a cidade a enfrentar uma das maiores tragédias de sua história.
Hoje, porém, o visitante não precisa olhar para o Fire Fighter de longe.
Ele pode entrar.
O navio funciona como museu e memorial e recebe visitantes em Greenport. E é justamente aí que a viagem ganha outra dimensão. O turista não está diante de uma réplica construída para reproduzir o passado. Está entrando em uma embarcação que efetivamente navegou, combateu incêndios, salvou milhares de vidas e participou de operações históricas.
É como atravessar uma porta e entrar em uma fotografia antiga.
E talvez essa seja a grande descoberta que Greenport oferece: há uma Nova York que não aparece nos cartões-postais mais famosos.
Uma Nova York de portos, vilas históricas, antigas estações ferroviárias, vinhedos e pequenas ruas onde a história não está necessariamente atrás de uma vitrine. Está no cais. Está no edifício. Está no barco.
Greenport é também uma excelente porta de entrada para o North Fork, região conhecida por suas vinícolas e por uma paisagem rural que contrasta radicalmente com a Manhattan dos arranha-céus. O próprio percurso até a vila ajuda a entender por que tantos visitantes procuram o East End de Long Island para experimentar um ritmo diferente sem necessariamente abandonar o estado de Nova York.
Por isso, talvez seja hora de mudar um pouco a pergunta.
Ao planejar uma viagem a Nova York, por que limitar o roteiro àquilo que todo mundo já conhece?
Por que não reservar um dia para descobrir uma pequena cidade portuária onde a ferrovia termina diante do mar?
Por que não caminhar por um waterfront histórico, pegar um ferry, conhecer uma vila que nasceu da atividade marítima e, finalmente, subir a bordo de um navio que ajudou a combater incêndios durante 72 anos?
Times Square continuará iluminada quando você voltar.
Mas Greenport terá lhe mostrado uma outra face de Nova York: uma face mais natural, silenciosa, marítima e histórica, onde o visitante não precisa disputar espaço com milhares de pessoas para sentir que encontrou alguma coisa especial.
E neste setembro de 2026, há ainda um motivo a mais.
No ano em que os Estados Unidos marcam os 25 anos do 11 de Setembro, o Fire Fighter está novamente em Greenport. É uma oportunidade rara de conhecer de perto uma embarcação que não apenas pertence à história de Nova York, mas que ajudou a escrevê-la.
Talvez o melhor souvenir dessa viagem não seja uma fotografia diante de uma tela gigante em Times Square.
Talvez seja uma fotografia diante de um navio de 1938.
Porque, às vezes, para descobrir uma Nova York que você ainda não conhece, basta seguir a estrada até onde os trilhos terminam e o mar começa.
Claudia Cataldi
Jornalista, M.Sc.em Ciência Política e Relações Internacionais,
Presidente da Associação Brasileira de Imprensa de Mídia Digital e Eletrônica RJ





