Na semana passada, falamos sobre o que a cultura americana oferece às nossas crianças, e o que o coração brasileiro ainda não sabe como sentir. Hoje, é hora de olhar para o outro lado. Para o que trouxemos na bagagem com amor, com orgulho e, às vezes, sem perceber.
A cultura brasileira tem algo que poucos lugares no mundo têm de verdade: o calor humano. O abraço que não pede licença. A mesa que sempre cabe mais um. A criança que cresce no colo de todo mundo, da avó, da vizinha, da amiga da mãe que aparece de surpresa e já está dando comida na boca. Esse afeto coletivo não é pouca coisa. Ele forma vínculo, forma pertencimento, forma uma criança que sabe, no corpo, o que é ser recebida.
A presença física brasileira é uma linguagem de amor. E crianças que crescem nessa linguagem aprendem a se conectar com profundidade, a não ter medo da intimidade, a cuidar e a ser cuidadas sem cerimônia.
E então vem o que precisa ser revisitado.
Essa mesma cultura que abraça com tanta generosidade, às vezes abraça sem perguntar. Que beija na bochecha mesmo quando a criança se esquiva, que manda a criança sentar no colo do tio que ela não quer, que diz "que manha" quando ela recua, às vezes sem perceber que o recuo era um limite sendo comunicado.
A cultura brasileira, em toda a sua beleza afetiva, nem sempre ensinou a diferença entre carinho e invasão, entre presença e pressão. E uma criança que cresce aprendendo que precisa aceitar o toque de qualquer adulto que gosta dela para não ser grossa, para não magoar, para não estragar o momento, é uma criança que pode ter mais dificuldade de reconhecer quando um limite seu está sendo ultrapassado.
Isso não é um julgamento da nossa cultura! É um convite a olhar para ela com consciência, guardando o que tem de mais rico e revisitando o que, mesmo com amor, pode deixar lacunas.
O afeto brasileiro é um patrimônio, mas a autonomia corporal é uma proteção! Uma criança que recebe os dois cresce inteira, calorosa e segura, conectada e livre.
Nas próximas semanas, vamos entrar de vez nesse tema: o corpo da criança, os limites que protegem e a conversa que todo pai e toda mãe precisam ter mas que quase ninguém ensinou como começar.
Proteger uma criança começa na forma como você educa.





