Na aula de natação da minha filha, decidi fazer algo que parece simples: guardar o telefone e assistir. Geralmente, sou uma das pessoas que aproveitam aquele tempo para resolver coisas ou percorrer a tela quase sem perceber. Mas, naquele dia, me desafiei a acompanhar a aula inteira.
Minha filha costuma me chamar para mostrar o que está aprendendo. Dessa vez, esses chamados quase não aconteceram. Quando procurava meu olhar, eu já estava olhando. Não posso tirar grandes conclusões de uma única aula, mas aquela diferença me tocou profundamente.
Então olhei ao redor. Todos os pais que observei estavam com o telefone na mão, alguns com outra criança ao lado. Aquela cena me incomodou porque eu me reconheci nela. E a contradição continua: agora escrevo este relato no telefone, ao lado da minha filha dormindo.
Como vamos ensinar nossos filhos a interromper o uso das telas se nós mesmos temos dificuldade de fazer isso? Quantas vezes pegamos o celular sem precisar, apenas porque apareceu um intervalo, um silêncio, uma espera?
Nem todo uso frequente significa vício. Ainda assim, precisamos olhar com honestidade para o espaço que as telas ocupam na nossa vida. O telefone serve para trabalhar, conversar e pagar contas. Mas ter motivos legítimos para usá-lo não significa que todo uso seja necessário naquele momento.
A Academia Americana de Pediatria orienta os adultos a serem exemplos de hábitos digitais saudáveis e a preservarem momentos de interação familiar sem a distração do telefone. Nossos filhos também aprendem observando como vivemos: o que fazemos durante uma conversa, uma refeição ou enquanto esperam para nos mostrar alguma coisa. Nossa relação com as telas também educa.
Talvez exista um adultocentrismo silencioso quando tratamos a dificuldade da criança como um problema e a nossa como algo sempre justificável. Para ela, cobramos controle. Para nós, encontramos uma explicação.
Eu me incluo nessa reflexão. Conheço o cansaço, as demandas e a vontade de descansar olhando uma tela. Também reconheço como podemos nos afastar de momentos que gostaríamos de viver.
Naquela aula, experimentei estar disponível quando minha filha procurou por mim. Quero repetir essa escolha. Antes de pedir que ela guarde uma tela, preciso perceber quando eu também posso guardar a minha.
Porque quando entendemos a infância, não transformamos apenas crianças. Transformamos gerações.





