Brazilian Times

O primeiro semanário brasileiro nos EUA

Coluna Paulo Torrens: Entre Mundos

Saudades da Terra Prometida “I am from there. I am from here. But I am neither there nor here.” “Sou de lá. Sou daqui. Mas não sou nem de lá nem daqui.” — Mahmoud Darwish, em homenagem a Edward Said A experiência…

Publicado em 10/09/26
Compartilhar:f𝕏W
Coluna Paulo Torrens: Entre Mundos

Saudades da Terra Prometida

“I am from there. I am from here. But I am neither there nor here.”

“Sou de lá. Sou daqui. Mas não sou nem de lá nem daqui.”

— Mahmoud Darwish, em homenagem a Edward Said

A experiência imigrante é difícil de definir e complicada de explicar. O ser entre mundos é complexo, multifacetado, feito de esperança e de nostalgia.

Quando cheguei a este país, há várias décadas, vinha estudar o sentido da felicidade. Natural de Curitiba, Paraná, parecia quase natural estudar qualidade de vida: o que faz um lugar (uma vizinhança, uma cidade ou um país inteiro, embora meu foco fosse a cidade) ser bom para viver. Na University of Michigan (go blue!), onde fui recebido como professor visitante, encontrei Robert Marans, estudioso do bem-estar e especialista em parques e recreação. De nada adianta construir parquinhos e quadras de basquete se as pessoas mais idosas que frequentam o parque esperam por bancos para sentar e silêncio para conversar…

O que aprendi com essa experiência e com as conversas com meus colegas arquitetos e urbanistas (eu era o único psicólogo da equipe) é que a felicidade não reside apenas dentro de nós, no recôndito dos nossos corações, mas também à nossa volta, na realidade da vida. Viver bem é um equilíbrio precário e impermanente entre a qualidade objetiva das nossas vidas (quanto ganhamos, onde moramos, com quem) e aquilo que sentimos e esperamos do futuro. Estar bem neste mundo, e estar de bem com o mundo, foge da evidência: o ser humano é feito de aventura e troca o conforto pela superação e pelo desapego deste mundo.

Assim é o ser imigrante: audaz e inquieto, permanentemente deslocado, filho da diáspora em busca da terra prometida, aquela terra sem males e sem sobressaltos, aquele Brasil que deu certo e que recompensa o cidadão não apenas à altura do seu trabalho, mas das suas expectativas e dos seus sonhos. Neste sentido, o bom Brasil que queremos acaba sendo possível apenas aqui, nos Estados Unidos.

Nem todo mundo quer alcançar a Lua ou tornar-se rico e famoso, muito pelo contrário. Um dia perguntei a um brasileiro que estava aqui havia muitos anos e que havia conquistado muito, dono de empresas e patrão de muitos funcionários: depois de tudo o que você conquistou, depois destes anos todos de batalha na América, o que pretende fazer quando voltar? Ele descreveu, com os olhos marejados, a cena idílica da sua cidade natal e de um dia passado na beira do rio, pescando com os amigos. A resposta veio sem hesitação: “Meu sonho é sentar de novo na beira do rio e pescar com os meus amigos.”

No fundo, muitas vezes aquilo que queremos não é o excepcional e o extraordinário, mas o básico e elementar. Sendo brasileiros, fomos ensinados que o nosso é o eterno país do eterno e constantemente adiado futuro; não é à toa que tanto ansiamos por realizar a utopia brasileira aqui mesmo, nesta terra de urgência e pragmatismo. Aquilo que parecia impossível no Brasil torna-se, subitamente, não só possível, mas desejável e ao alcance dos nossos esforços. Mas o preço da terra prometida é a saudade: é ela que faz até o empresário bem-sucedido sonhar com o rio da infância. Com o tempo, porém, a gente descobre que o pesqueiro é bom aqui também, que a reunião com os amigos é segura a qualquer hora, que o caminho é asfaltado e pavimentado, que a mesa é farta e o churrasco, de qualidade, que a nossa reunião é animada e cheia de gente bonita e engraçada.

Portanto, quando a saudade bater e você sentir aquela falta do Brasil que todos sentimos de vez em quando, olhe à sua volta, pense um pouco e consulte o seu coração. Este seu coração brasileiro já aprendeu a viver, e a viver bem. Num certo sentido, somos professores e profissionais da alegria, do bem-estar e da felicidade com a vida. Quando se sente o frio do inverno e a solidão da noite, que agora cai mais cedo, uma melodia plangente, umas poucas notas de violão, uma malemolência: este é o seu coração brasileiro dizendo: “Vai dar certo, sim. Não se preocupa, não. A gente dá um jeito, e no final das contas tudo se ajeita. A gente vai, sim, sair desta!” Esta certeza ninguém tira da gente brasileira, seja onde estivermos.

Paulo é psicólogo formado em Curitiba, com mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e mais de trinta anos de experiência clínica e acadêmica no Brasil e em Massachusetts. É também diácono permanente da Arquidiocese de Boston. Em seu consultório particular, VirTuTe, atende exclusivamente online, em português, inglês e espanhol, indivíduos, casais e famílias, com foco em dependências, trauma, lesão moral e na comunidade brasileira e lusófona. Os honorários seguem uma escala móvel (sliding scale). Atualmente cursa o processo de licenciamento como terapeuta em Massachusetts.

Para agendar uma primeira conversa, ligue para 617-230-5783 ou escreva para deaconpaulotorrens@gmail.com. Mais informações: deaconpaulotorrens.wixsite.com/website

Fonte: Da redação

Compartilhar matéria:

Veja também