Publicado em 30/03/2008 as 12:00am

Crise do dólar faz mineiros de Governador Valadares trocarem EUA por Europa

Nas agências de viagens da cidade, Portugal é o destino preferido dos valadarenses.

A crise econômica dos Estados Unidos está estabelecendo um novo ciclo migratório na cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais, nacionalmente conhecida como um celeiro de trabalhadores de construção civil, jardinagem e limpeza em território norte-americano. De acordo com pesquisa do Centro de Informação, Apoio e Amparo à Família e ao Trabalhador no Exterior (Ciaat), 54% das famílias de Governador Valadares têm algum parente que trabalha no exterior.

Com os empregos cada vez mais raros nos Estados Unidos ? problema agravado pelo aperto da fiscalização da imigração e pela queda do dólar frente ao real ? esses trabalhadores buscam se redirecionar para um outro destino: a Europa.

Eles tentam uma nova alternativa de renda no exterior em substituição aos EUA. Segundo a prefeitura, a redução das remessas do exterior (principalmente dos EUA) para a cidade foi de 20% em 2006 - no Brasil, os depósitos tiveram queda de 4% no mesmo ano. Sem indústria relevante, o município de 260 mil habitantes vive basicamente do comércio e dos serviços, sustentados pelo dinheiro externo ? daí o apelido de "Valadólares" que a localidade recebeu.

Estudo de autoria da socióloga Sueli Siqueira, professora da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), aponta que 28% dos imigrantes que retornam para a cidade têm a intenção de buscar a sorte na Europa. Sueli diz que a maioria desses migrantes elegem Portugal como destino.

Isso porque são as redes de relacionamento que definem o processo de imigração. Como faz alguns anos que Valadares percebe um movimento marginal de ida para Portugal, já se formaram comunidades valadarenses, como a da cidade do Porto, por exemplo. E a socióloga lembra que ter algum parente ou amigo no local de destino é a principal motivação para migrar.

 

A história se repete

Como existem cerca de 40 mil pessoas de Valadares e região nos EUA, segundo estimativas da prefeitura, a socióloga diz que é mais fácil encontrar um emprego para o valadarense na região de Boston, nos Estados Unidos, do que em São Paulo ou mesmo em Belo Horizonte. "Lá, existe uma rede de apoio", explica a professora.

Agora, o mesmo começa a acontecer em Portugal ? e o processo deve ser acelerado pelo fato de a vida nos Estados Unidos ter se tornado mais difícil e pelo custo-benefício positivo de ganhar em euro, já que a moeda da União Européia ganhou valor frente ao dólar norte-americano.

O recepcionista Francisco de Assis, 25 anos, já tem prima, dois irmãos e cunhada vivendo em território português. Os irmãos enviam cerca de R$ 1,2 mil para a família, que ficou em Valadares, mas as remessas foram interrompidas por três meses, período em que eles ficaram desempregados.

Francisco diz que o irmão está pensando em voltar de férias para o Brasil em outubro. "Ele está esperando que os papéis dele saiam", explica o recepcionista, lembrando que os parentes vivem ilegalmente em Portugal. Até lá, ele vai avaliar a possibilidade de ir junto para Portugal. "Eu quero ir", afirma.

Por motivo de doença e depois que o dólar começou a se desvalorizar frente ao real, Edson Fernandes Djalma, de 53 anos, decidiu voltar da "América" ? como os valadarenses se referem aos Estados Unidos. Em novembro de 2007, ele retornou a Valadares depois de passar seis anos nos arredores de Boston (EUA) trabalhando como atendente em uma loja e em uma lanchonete.

Foi atrás do irmão, com quem morou por três meses. Nos EUA, juntou dinheiro suficiente para construir uma casa e comprar carros para si e para os filhos. De volta a Valadares, ele espera competar 35 anos de contribuição ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para pedir a aposentadoria em setembro. "Mandei todos os meses o dinheiro da aposentadoria, e minha filha pagou para mim", conta.

 

Problemas afetivos

Assim como as redes de relacionamento, os problemas afetivos e sociais causados pela decisão de tentar a vida em outro país se repetem. Edson Fernandes Djalma foi aos Estados Unidos com a segunda esposa ? ela deixou em Valadares, com a avó, os dois filhos, de 6 e 7 anos na época. Quando voltou, eles já eram adolescentes.

O irmão e a cunhada de Francisco de Assis vivem a mesma situação. Foram para Portugal há quatro anos e agora querem voltar para Governador Valadares em outubro, a tempo de comemorar o quinto aniversário do filho, que está sendo criado pela avó e pelo tio. "O meu irmão quer vir só de férias, mas a cunhada quer ficar aqui mesmo", conta Francisco.

 

'Fácil e barato'

O interesse menor pelos Estados Unidos e a aumento da preferência pela Europa em Governador Valadares ? cidade que tem "a cultura da imigração", segundo o sociólogo Dirley Henriques, que trabalha na prefeitura ? também é sentida no movimento das agências de turismo, onde a venda de passagens para destinos europeus já representa até 70% do movimento.

"Hoje, é muito pouca a procura para os Estados Unidos", diz o agente de viagem Maxwell Rezende, da Terra Brasil Turismo.

Carlos André Teixeira, diretor da Categoria Turismo, também diz ter sentido a mudança no mercado de turismo da cidade. Uma operação da Polícia Federal que investigava lavagem de dinheiro fechou mais da metade das 40 agências de turismo da cidade ? hoje, restam 15.

Com a crise, a atuação da figura do "cônsul", que cobrava até US$ 15 mil para levar brasileiros aos Estados Unidos pela fronteira do México, também ficou restrita. "Com isso, restaram as agências de verdade", afirma Teixeira. "Hoje, os principais destinos são Portugal e Espanha."

Quem trabalha diretamente com os imigrantes também sente a troca de destino. O sociólogo Dirley Henriques, que desenvolve projetos com os trabalhadores após o retorno do exterior, lembra que, além do euro valorizado, Portugal oferece uma grande facilidade: a não-exigência de visto.

O processo fica mais simples e também barato: em comparação com os US$ 15 mil (cerca de R$ 26 mil) cobrados pelos coiotes mexicanos, os R$ 2,5 mil gastos para uma passagem comum para Portugal representam muito pouco. As informações são do site G1.

Fonte: (G1)