Publicado em 30/09/2008 as 12:00am

Depressão atinge boa parte de imigrantes

Depois de chegar aos Estados Unidos, atravessando a fronteira com o México, o brasileiro se depara com um problema ainda maior : a depressão

Por Luciano Sodré

 

Depois de chegar aos Estados Unidos, atravessando a fronteira com o México, o brasileiro se depara com um problema ainda maior. A perseguição imposta pelos agentes fronteiriços, a fome e sede durante os dias de caminhada aliada a um sofrimento que parace “interminável”, torna-se “fichinha” diante de algo invisível, mas extremamente perigoso – A DEPRESSÃO.

Antes de conhecer alguns casos de brasileiros que vivem este dilema, nos Estados Unidos, o leitor precisa entender o que realmente significa depressão. É uma doença que leva à morte e não deve ser tida apenas como um evento psiquiátrico. Quem sofre deste mal precisa, urgente, receber tratamentos.

Já foram noticiados diversos casos de brasileiros que se suicidaram nos Estados Unidos. Entre os fatores que levam uma pessoa à cometer este tipo de “insanidade”, está a depressão, que lidera o quadro. Em março deste ano, o capixaba de Colatina, Luis Alberto Guerra, 38, tirou sua vida utilizando uma corda amarrada ao pescoço. O corpo dele foi encontrado no basement da casa onde morava, na cidade Walthan, em Massachusetts.

Durante uma entrevista realizada com amigos e parentes de Alberto, ficou evidente a forte crise de depressão que o capixava vinha atravessando. “Ele estava passando por forte um tratamento para se ver livre da doença”, salienta Sandra Helena Guerra, prima do brasileiro.

A psiquiatra Eunice Batista, em entrevista ao jornal Brazilian Times, por algumas vezes alertou aos leitores sobre o problema da depressão. “A solidão é o primeiro passo para que a doença se aloje no indivíduo”, comenta. “Existem sintomas básicos para se detectar que um paciente está sofrendo deste mal. Podemos citar a inibição psíquica do estreitamento do campo vivencial e sofrimento moral”, continua.

Ela acrescenta que quando o brasileiro entra nos Estados Unidos, “já quase traumatizado pelo sofrimento que passou ao cruzar a fronteira”, a ausência dos entes queridos e a solidão imposta pelo árduo ritmo de trabalho, dão os primeiros passos para ele cair no abismo da depressão.

Segundo ela, muitos se refugiam na internet, “em salas de bate-papo”, e buscam de alguma forma escapar, “sozinhos”, de uma angústia que nem mesmo o doente sabe explicar. “Eles se trancam em quatro paredes e tentam criar o seu próprio mundo”, conta Eunice.

Ainda, conforme a psiquiatra, estão na lista de sintomas, a falta de apetite e perca de peso, alteração do sono e um constante sentimento de inferioridade e culpa, além de dificuldades para pensar ou tomar decisões. “Mas o mais perigos são os pensamentos recorrentes sobre morte ou ideação, planos ou tentativas de suicídio”, fala.

O mineiro de Belo Horizonte, J.M, 46, vive neste país há quase sete anos e há quarto, enfrenta a depressão. Ele mora na cidade de Medford e tem passando por tratamentos psíquicos e participado de um grupo de pessoas que vive o mesmo problema. “Tudo começou quando minha mulher, que mora no Brasil, se separou de mim”, tenta explicar.

Eunice fala que não é apenas um detalhe que leva o indivíduo à depressão, mas sim, uma série de fatores e “a entrega da própria pessoa a estes problemas”.

O mineiro ressalta que após perder sua esposa, seu filho de 21 anos de idade foi preso, na Virgínia e durante cinco meses ficou preso até a deportação. “Eu perdi a vontade de viver e por diversas vezes pensei que Deus não existia”, fala salientando que ficou dois dias trancado em seu quarto com uma faca nas mãos, pensando em cortar os pulsos.

Atualmente ele resolveu vencer a doença e o grupo de apoio está sendo um dos maiores parceiros nesta conquista.

Eunice aconselha as pessoas que se encaixam neste grupo, a procurarem urgentemente um tratamento. “E, ao contrário do que se imagina, quem incetiva uma pessoa que está em depressão a reagir ou buscar meios para se distrair, não está ajudando em nada”, fala a psiquiatra ressaltando que esta atitude só empurra o doente para um mundo mais deprimido. “O caminho certo é ouvir o que ele tem a dizer e aconselhá-lo a buscar um profissional”, conlui.

 

TIPOS DE DEPRESSÃO

Basicamente existem as depressões monopolares (este não é um termo usado oficialmente) e a depressão bipolar (este termo é oficial). O transtorno afetivo bipolar se caracteriza pela alternância de fases deprimidas com maníacas, de exaltação, alegria ou irritação do humor. A depressão monopolar só tem fases depressivas.

Para afirmar-se que o paciente está deprimido é necessário ter a certeza de que ele sente-se triste a maior parte do seu tempo, não tem tanto prazer ou interesse pelas atividades que apreciava, não consegue ficar parado e pelo contrário movimenta-se mais lentamente que o habitual. Passa a ter sentimentos inapropriados de desesperança desprezando-se como pessoa e até mesmo se culpando pela doença ou pelo problema dos outros, sentindo-se um peso morto na família. Com isso, apesar de ser uma doença potencialmente fatal, surgem pensamentos de suicídio. Esse quadro deve durar pelo menos duas semanas para que possamos dizer que o paciente está deprimido.
 

Fonte: (ANBT - Agência de Notícias Brazilian Times)