Publicado em 21/01/2009 as 12:00am

Obama promete reforma de imigração em um ano

Pelo menos em três ocasiões diferentes, Eliseo Medina da SEIU, escutou da boca do próprio Barack Obama o comprometimento de realizar uma reforma migratória nos Estados Unidos

Não em uma, mas em pelo menos três ocasiões diferentes Eliseo Medina escutou da boca do próprio Barack Obama o comprometimento de realizar uma reforma migratória nos Estados Unidos que resolva os problemas enfrentados por entre 12 e 14 milhões de trabalhadores de todas as nacionalidades que estão sem papéis para trabalhar legalmente naquele país.

Eliseo Medina é vice-presidente executivo da Service Employees Internacional Union (SEIU), considerada uma das organizações sindicais com maior crescimento no Canadá, Estados Unidos e Porto Rico, e com afinidades junto ao partido democrata.

“Sim, em três reuniões diferentes ele falou isso. Obama comprometeu-se a abordar o assunto da reforma migratória em seu primeiro ano de governo. Não nos disse que seria nos primeiros 100 dias, mas sim no primeiro ano. Acho que no terceiro trimestre do ano começará a tratar o assunto”, explica Eliseo Medina em conversa com o Terra Magazine nos escritórios da SEIU em Washington.

Além do mais, disse o líder da SEIU, que já agrupa mais de um milhão e cem mil trabalhadores das áreas da saúde, limpeza, hotelaria, funcionalismo público e outros, Obama mencionou que é contra as batidas que têm acontecido nos últimos tempos por todo o território dos Estados Unidos.

Filho de camponeses mexicanos que migraram para a Califórnia, Eliseo Medina nasceu no estado mexicano de Zacatecas, mas com 10 anos chegou aos Estados Unidos e um pouco mais tarde foi trabalhar na colheita da uva na cidade de Delano, onde foi criado o movimento de trabalhadores agrícolas encabeçado por César Chávez, de quem foi discípulo como organizador.

“Conversamos com Barack Obama durante a campanha. A primeira vez foi uma conferência telefônica com representantes de organizações pró-imigrantes. Disse-nos que as batidas não eram a solução e que buscaria uma maneira de resolver o problema.”

- Nos disse que essa não era a solução e que buscaria uma maneira de ajudar.

Na segunda conferência telefônica Obama conversou com um grupo de locutores de rádio latinos em nível nacional, “a discussão foi a mesma e deu as mesmas respostas.”

A terceira ocasião em que conversaram com ele foi quando se reuniram as três maiores redes de evangélicos latinos no país. “Eles lhe expuseram que a comunidade sem documentos está passando por maus pedaços e que a maioria dos seus fiéis não tem documentos”, conta Eliseo.

Diz, também, que na campanha de Obama, na qual o sindicato participou de maneira relevante a favor do democrata, conversou pessoalmente com ele, e essas conversas continuaram com a equipe de transição.

– A gente nunca pode descartar as coisas, mas eu sou um organizador e ele também o foi, por isto ele entende que este é um processo e que não vamos ficar de braços cruzados. Isto é apenas o começo. Daqui para frente temos que seguir empurrando e pressionando para que as coisas sejam feitas. A verdade é que a sua chegada à Presidência dos Estados Unidos traz uma grande esperança. É uma mudança histórica. O fato de uma pessoa que não é branca estar no poder é incrível neste país.

E Eliseo cita coisas concretas que Obama pode fazer sem que seja necessário que o Congresso as aprove. Apenas é preciso que ele as ordene.

Por exemplo, poderia ordenar suspender as batidas que os agentes do Departamento de Segurança Interna e da Imigração e Aduanas realizaram em locais de trabalho, lares, escolas e locais de contratação de mão-de-obra todos os dias.

“Ele me disse que sabia perfeitamente que as batidas, nas quais são presos de 400 a 500 imigrantes, não resolvem o problema e que, além do mais, não concordava em separar as famílias com as deportações.”

Além disso, disse Eliseo, está em suas mãos cancelar o envio das cartas no-match (irregularidades de concordância na identidade de imigrantes) a empregadores, e a prisão, deportação ou chantagem de imigrantes ilegais para que estes se declarem culpados.

O que é bom, considera este organizador que chegou à sua posição atual depois de comandar seções locais do sindicato na Califórnia, é que “estamos em uma posição melhor do que antes por um único motivo: nós dizíamos que tínhamos ‘o voto latino, o voto latino’. Já nos chamavam de loucos. ‘Em cada eleição dizem a mesma coisa, que o gigante já vai acordar, mas ainda dorme profundamente’, debochavam de nós.”

“Enquanto não tivermos força política, digamos o que digamos, não importa o quão justa for a nossa causa, não conseguiremos as mudanças. E a diferença agora é que tivemos um grande impacto na eleição de novembro.

Há um fator adicional para pensar que Obama pensará duas vezes antes de desdenhar dos compromissos com a comunidade de imigrantes: o maior número de menores de idade nos Estados Unidos é latino. A cada ano, aumentam os números de latinos que chegam à maioridade. “O futuro deste país está em sua demografia e isso está mudando.”

Nós, diz Eliseo Medina, dissemos a Obama e à sua equipe: “este voto foi contra os republicanos, não necessariamente pelos democratas, e se vocês querem ganhar esse voto no futuro precisam agir hoje, que têm a oportunidade, sobre os temas que interessam à comunidade. Já viram o que aconteceu quando colocaram em prática estratégias anti-imigrantes. Se quiserem seguir por esse lado, estarão condenados a ser uma minoria permanente.”

- Não acredito que Obama nos traia, mas por via das dúvidas vamos continuar nos organizando e nos mobilizando. Fomos muito claros com ele. O importante é que colocamos nossas questões em pauta. A beleza da democracia é que sempre há eleições. E aqueles que elegemos também podemos “deseleger”. Mas acredito que o novo presidente é um homem de palavra. Veremos.

Fonte: (Da redação)