Publicado em 18/12/2009 as 12:00am

Empregadores dão golpe em indocumentados

Fabián Gutierrez, que trabalhava 60 horas por semana sem receber hora extra

 

Fabian Gutierrez trabalhava durante 60 horas por semana numa convenience store em Chicago, chamada La Fruteria. Fazia o corte da carne e enchia as prateleiras com queijo e leite, ganhando menos do que o salário mínimo e sem receber horas extras.

 

O imigrante, de 32 anos, diz que suportou esta situação por meses, porque precisava sustentar sua esposa e uma filha. E, como muitos colegas, ele não se atrevia a enfrentar o proprietário da loja.

"Ele abusou de todos nós. Faltou com o respeito", disse Gutierrez, que finalmente fez contato com um centro que cuida dos direitos dos trabalhadores e, juntamente com outros empregados, processou o proprietário da mercearia. Ele agora trabalha em uma outra loja onde o tratam melhor.

 

Há patrões que são os verdadeiros “ilegais”

Por todo o lado do país existem muitos empregadores que não pagam seus funcionários os valores devidos, especialmente se estes são imigrantes. E o problema parece estar piorando.


Diante da passividade do governo federal a respeito do assunto, autoridades locais e estaduais estão tomando as medidas cabíveis. Eles dizem que os empregadores que não pagam horas extras ou salário mínimo, provavelmente não pagam as contribuições sociais de lei, aproveitando-se dos contribuintes e ao mesmo tempo enganando seus empregados.

 

 

Em Chicago, a Working Hands Legal Clinic, que está assessorando Gutierrez, recebeu 161 denúncias de retenção na fonte dos salários de janeiro a junho de 2008 e 252 (60% a mais) no mesmo período de 2009.

A  National Day Laborer Organizing Network, de Los Angeles, diz que pelo menos 50% dos trabalhadores que trabalham por jornada, como estivadores – mais ou menos 120.000 nos Estados Unidos -  foram vítimas de algum tipo de engodo em seus salários.

Aproximadamente 68% dos trabalhadores com salários muito baixos relataram golpes, em 2008, sem importar seu status imigratório, de acordo com um estudo divulgado no início deste ano, no qual 4.400 trabalhadores foram consultados.


"O caso de Gutierrez não é isolado, pois os empregadores sabem que os seus empregados estão desesperados", disse Nik Theodore, um professor da Universidade de Illinois em Chicago e um dos iniciadores do estudo na Universidade da Califórnia-Los Angeles e da City University, de Nova York. "Parece uma prática comum em muitas indústrias."


Houve golpes contra salários em setores tais como feiras, exposições e parques de diversões, de acordo com o Centro de Direitos Legais dos direitos dos trabalhadores (Workers 'Law Center) em Nova York. Este ano, a Dreamland Amusements concordou em pagar $325.000 em salários para os trabalhadores que relataram que foram obrigados a trabalhar 70 horas por semana, por valores mais baixos do que o mínimo.

 

Gutierrez: “Tive medo de ser deportado”!
Trabalhadores que ganham pouco são especialmente vulneráveis, porque eles recebem em cash e é difícil ter registros do que eles receberam. Muitos temem chamar as autoridades, mesmo aqueles com autorização para trabalhar nos Estados Unidos.

Gutierrez, um indivíduo de voz rouca e de fala mansa se recusou a discutir o seu status imigratório, pois ele e outros trabalhadores estavam com medo de serem deportados caso enfrentassem o patrão. Ele disse que, em determinado ponto, superou o medo e fez a denúncia.

O empregador, Tony Macias, possui diversas mercearias em Chicago. Seu advogado, William J. Raleigh, disse que ele sabia que tinha de pagar horas extras.

 

Até recentemente, essas demandas foram o melhor caminho para um funcionário procurar fazer valer os seus direitos. Mas, os advogados não querem mais defender esses casos porque podem demorar meses, representa pouca entrada de dinheiro e é difícil cobrar dos imigrantes e seus patrões.


"Mesmo quando nós ganhamos, é apenas o começo" de uma batalha legal, disse Milan Bhatt, do Workers' Rights Law Center. "Quando o processo termina, o dono já fechou a loja e foi dar golpes em outro lugar."

 

Alguns estados estão considerando soluções mais criativas. Califórnia e Nova York criaram uma força-tarefa que inspecionam os business nos quais esses problemas são comuns, tais como mercearias e lavadoras automáticas de carro, concentrando seus esforços em regiões onde as violações foram relatadas.


"Enviar uma equipe de inspetores é um sinal claro (aos patrões) de que não podem continuar a praticar esse mal", disse Terri Gerstein, vice-comissária de Nova York, responsável pelos serviços ao imigrante.

Os defensores desses trabalhadores dizem que a aplicação das leis, mesmo quando se trata de trabalhadores em situação irregular, beneficia a todos, uma vez que se evita que os patrões baixem os salários e os obrigam a cumprir a legislação.


Fonte: (Do Los Angeles Times, tradução de Phydias Barbosa)