Publicado em 30/12/2009 as 12:00am

Artistas criam telefone para ajudar imigrantes na fronteira

Um grupo de artistas da Califórnia desenvolve um telefone celular com bússola GPS, habilitado para ajudar imigrantes ilegais desidratados a encontrarem água no deserto e ainda, como brinde, dar-lhes muita poesia

 

Um grupo de artistas da Califórnia desenvolve um telefone celular com bússola GPS, habilitado para ajudar imigrantes ilegais desidratados a encontrarem água no deserto e ainda, como brinde, dar-lhes muita poesia.

A ferramenta, chamada de O Imigrante Transfronteiriço (The Transborder Immigrant Tool), criada por professores da Universidade da Califórnia, em San Diego, é a junção da tecnologia com obra de arte. Ela apresenta um toque moderno para um velho debate: o que podem fazer os ativistas para impedirem os imigrantes de morrer na fronteira com o México, sem infringir a lei?

Os radicais, porém, argumentam que os ativistas estão ajudando a imigração ilegal nos Estados Unidos, considerada, para eles, um crime. Mesmo os imigrantes e seus simpatizantes questionam se o aparelho irá tornar as viagens traiçoeiras em jornadas mais facilitadas.

Os designers - três artistas visuais da UCSD (University of California in San Diego) e um professor de Inglês da Universidade de Michigan - são implacáveis em criticar a política americana, argumentando que os EUA abraçam os imigrantes ilegais de mão de obra barata, ao mesmo tempo em que os deixa morrer ao tentarem atravessar a fronteira. "Trata-se de dar água a alguém que está morrendo de desidratação no deserto", disse Micha Cardenas, 32, professor da UCSD.

"Há muitas áreas em que o cidadão americano poderia dizer que não gosta do jeito que o seu imposto está sendo investido. Nossa resposta a isso é: e daí?" disse o conferencista da UCSD, Brett Stalbaum, de 33 anos, um redator de humor, que  também é o chefe de tecnologia do novo aparato.

Os imigrantes andam por dias naquele calor extremo, muitas vezes comendo somente atum e biscoitos, que são distribuídos em abrigos no México. Em fazendas do Arizona, eles bebem água desesperadamente nos caixotes usados pelas vacas.  

 

Centenas de pessoas morreram, desde que foi intensificada a segurança na fronteira e essas pessoas foram empurradas das grandes cidades como San Diego e El Paso. Em resposta, simpatizantes colocam jarras e mesmo barris de água no deserto.

Os designers vão incluir chips de baixo custo com software de GPS, que emitem os sinais de satélites, independentes das redes de telefone. Ao pressionar um botão, o menu apresenta os locais onde haja água, com a distância correta. O usuário seleciona e segue uma seta na tela.

Alguns temem que o software possa levar os imigrantes para estações de água danificadas ou abandonadas. Outros se perguntam se haveria uma falsa sensação de segurança ou que ainda o GPS possa alertar a Patrulha da Fronteira e ativistas anti-imigração ilegal.

John Hunter, que tem colocado barris de água no escaldante Imperial Valley, na Califórnia, desde a década de 1990, diz que os vândalos destroem cerca de 40 das suas 150 estações de água todo ano. "Minha maior preocupação é de que as pessoas cheguem e não encontrem (a água)”, diz ele.

Luis Jimenez, de 47 anos, foi abandonado por traficantes e resgatado pela Patrulha de Fronteira duas vezes este ano - uma vez depois de bater a cabeça numa pedra e outra depois de ser mordido por uma cobra. "Se o GPS mostra onde encontrar água, deve ser bom. Se tivesse dinheiro, compraria um", comentou, num abrigo para imigrantes em Tijuana, México.

Os designers do telefone dizem que estão preocupados com vários detalhes, mas se preparam para lançar o aparato em meados de junho de 2010. Brett Stalbaum também comentou que sua equipe não deseja criar uma ferramenta de segurança que coloque as pessoas em maior perigo.

Os sinais dos locais de água a serem transmitidos para os telefones, serão atualizados constantemente, para garantir a precisão. Se a distância for muito longe, elas não aparecerão na tela.

Os designers, que arrecadaram US $ 15.000 de um subsídio da UCSD e um prêmio em dinheiro num festival de arte, esperam distribuir muitos aparelhos de graça no México. Os telefones, usados, custam cerca de 30 dólares cada. Não há custo para acrescentar o software do GPS.

A distribuição será controlada pelos abrigos de imigrantes e pelos grupos de simpatizantes, para manter os aparelhos longe da vista dos ativistas da anti-imigração ilegal. Os imigrantes receberão senhas para utilizá-los.

Como de hábito, as autoridades americanas são imperturbáveis. A Patrulha de Fronteira já recebeu $ 6,7 bilhões para se munir com câmeras whiz-bang, sensores e outras tecnologias.

"Não é nada novo", disse o porta-voz da Patrulha, Mark Endicott. "Conhecemos os aparelhos portáteis de GPS utilizados pelos contrabandistas. Nós apenas teremos que aprender a nos adaptar a qualquer desafio".

Os críticos da imigração ilegal dizem que o dispositivo é equivocado, na melhor das hipóteses

"Está muito perto de ser um crime", disse Peter Nunez, um ex-advogado de San Diego. "Se isto constitui cumplicidade, não sabemos ainda, vai depender de mais detalhes. Mas certamente coloca esse GPS no centro da discussão."

O software está sendo projetado para levar os imigrantes direto para as estações de água, mas Cárdenas disse que vão acrescentar outros marcadores de "segurança", como estradas, cidades e postos da Patrulha da Fronteira.

O grupo também criou versos para serem emitidos no telefone, um software denominado "Global System Poetic".

Um dos poemas diz: "Que suas trilhas possam cortar a menor distância entre os pontos A e B."

Fonte: (Do World News, tradução de Phydias Barbosa)

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