Publicado em 1/12/2013 as 12:00am

EUA apertam cerco, e captura de imigrantes bate recorde

EUA apertam cerco, e captura de imigrante ilegal bate recorde

 Centenas de espinhos de cactos grudam nas botas e nas barras da calça enquanto os galhos estorricados dos arbustos pelo caminho arranham as mãos. O frio faz as marcas dos ferimentos arderem ainda mais, e a pele do rosto parece ter sido cortada pelo vento gelado. Uma parcela muito pequena da hostilidade do deserto que liga o México ao Estado do Arizona foi sentida em menos de três horas em que a reportagem percorreu trechos de algumas das dezenas de trilhas improvisadas abertas por imigrantes ilegais para tentar viver e se empregar nos EUA sem documentos. A travessia completa pode levar até duas semanas atualmente. Há cerca de dez anos, podia ser feita em três dias, mas se tornou mais demorada à medida que o governo americano expandiu o uso de tecnologias militares para elevar a segurança da fronteira. O investimento foi se intensificando após os atentados de 11 de setembro de 2001, sob o argumento de que se tornou necessário espreitar terroristas, mas na gestão do presidente Barack Obama os números são recordes. No ano fiscal de 2008, 134 mil indivíduos foram devolvidos ao México após serem apreendidos no ato da travessia para os EUA. Neste ano, o volume saltou para 235 mil, segundo dados do Departamento de Segurança Interna divulgados na última quinta-feira. \"Há uma relação entre o aumento da militarização na fronteira e a quantidade de mortes. Antes, eles cruzavam por caminhos planos e, em um certo ponto, um parente ou \'coiote\' [atravessador] os buscava de carro\", diz Geena Jackson, voluntária do No More Deaths (\"Chega de Mortes\"), organização de ajuda humanitária. \"Mas, com o recente aumento dos guardas e pontos de vistoria nas estradas, eles precisam abrir trilhas mais perigosas, escalar montanhas e caminhar até mais longe antes de serem buscados de carro. São pessoas comuns, sem nenhum equipamento adequado, arriscando a vida para fugir da Border Patrol [a Patrulha de Fronteira]\", declara Jackson. As travessias são feitas em grupo, mas alguns podem ficar pelo caminho -e muito provavelmente morrer- devido a uma desidratação ou a uma simples bolha nos pés que os impeça de continuar. Neste ano, foram encontrados 187 corpos de pessoas que morreram tentando cruzar para os EUA, segundo Daniel Wilson, um dos voluntários que estudam e refazem as trilhas deixando galões de água, latas de feijão, cobertores e meias secas, na esperança de que sejam encontrados por migrantes necessitados. \"No verão, o corpo precisa de 14 galões de água para suportar o tempo da travessia. Ninguém pode carregar tanto. Precisa de reabastecimento\", calcula Wilson. O No More Deaths diz que, ao deixar suprimentos aos migrantes clandestinos, está atuando dentro da lei, pois dar ajuda humanitária não é considerado ilegal. Alguns voluntários, porém, já foram presos, acusados de jogar lixo (as doações de água e comida) no ambiente.

Fonte: (da redação)