Publicado em 22/07/2016 as 6:00pm

Entalada em muro na fronteira, brasileiro é salvo por "coiotes"

Josias Ferreira ficou um dia e meio sem conseguir se soltar e pensou que fosse morrer

A onda de brasileiros se mudando para os Estados Unidos ficou maior com a crise financeira que atingiu o Brasil nos últimos meses. Com isso, todas as semanas novos compatriotas chegam a este país com o sonho e esperança de mudar de muda ou pelo menos dar um futuro mais digno aos seus familiares.

Também é comum as mais diferentes histórias contadas por quem atravessou a fronteira, seja pelo deserto, rio ou qualquer outro meio. O Jornal Brazilian Times sempre acompanhou os chamados de “causos”, que para alguns parecem mentira, mas para quem vivenciou os perigos de uma travessia, sabe que tudo pode acontecer.

Nesta quarta-feira, o rondoniense Josias Ferreira, que residia na zona rural de Vilhena, esteve na redação do jornal. Ele estava acompanhado de um amigo e foi atrás de um exemplar para olhar os classificados de emprego. Durante uma conversa, o rapaz de apenas 25 anos disse que estava chegado ao país há apenas duas semanas. “Entrei pelo México, mas passei o maior perigo e pensei que fosse morrer”, disse.

Ainda com medo e abalado, ele aceitou contar a sua história mas pediu para não ter a sua foto revelada. “Eu ainda sou novo aqui e não sei como tudo funciona”, disse ele, que está morando de favor na casa de amigos em Everett (Massachusetts).

A travessia de Josias durou 25 dias, segundo ele relata. Tudo começou quando entrou em contato com um agenciador na cidade de Cacoal. “Ele me garantiu que seria uma travessia segura e que eu precisaria desembolsar US15 mil, o que daria na época mais menos R$ 50 mil. Eu disse que não tinha este valor e ele me perguntou o que eu poderia dar de entrada”, fala ressaltando que ofereceu uma moto avaliada em R$ 8 mil.

O agenciador concordou, mas fez Josias assinar um documento em que colocou um lote rural como penhora em caso dele não pagar o valor em no máximo dois anos. Até aí tudo bem. O rondoniense foi levado para São Paulo, onde permaneceu um dia hospedado em um pequeno hotel à espera de sua liberação para a viagem.

No dia 09 de Junho ele embarcou em sua travessia e o avião seguiu para Guatemala City, na Guatemala. Ao chegar neste país, ele foi colocado em um pequeno ônibus, onde com mais alguns brasileiros e hispanos seguiram viagem, sem descansar. O veículo só parou quando eles chegaram em uma pequena cidade mexicana, a qual Josias não lembra o nome. Neste ponto, o grupo foi dividido em três e colocado em pequenas vans.

O veículo seguiu, então, para a fronteira. Josias disse que passou por várias cidades e teve algumas paradas para que o grupo se alimentasse. Quando o grupo do brasileiro chegou à Hermosillo, foi transferido para outro veículo e de lá seguiram para uma pequena casa no deserto. “Nós tomamos banho e dormimos até as quatro da manhã, quando apareceu uma pessoa gritando para que todos levantassem. Nós fomos colocados sem na traseira de uma camionete e seguimos viagem, lembra.

Josias relata que em determinado ponto da viagem o veículo parou e o responsável pelo grupo ordenou que todos descessem e seguissem a pé. “Andamos mais menos uns três quilômetros, quando nos deparamos com uma casa bem pequena, abandonada. Ao entrar nela, vi que havia uma portinha no chão com um tapete a cobrindo”, fala.

O “coiote” levantou o tapete e explicou aos imigrantes que se tratava de um túnel de aproximadamente um quilômetro que daria na California. “Ele disse para que todos deitassem e descansassem, porque seria uma travessia difícil. Eu já estava preocupado, pois não sabia como tudo aconteceria e perguntei se por seu estar acima do peso poderia ter problemas”, disse o rondoniense que pesava 125 quilos na época. “O cara que cuidava da gente disse que não, que estava tudo seguro, mas na hora de começar a travessia, ele me colocou em último na fila”, ressalta.

Segundo Josias, a travessia começou bem e nos primeiros metros o túnel era espaçoso. Mas ao logo do percurso ele percebeu que o local começou a se afunilar e ficar mais apertado. “Eu me mexia com dificuldade até que chegou um ponto em que não dava mais. Meu corpo não passava e eu não conseguia virá-lo para voltar. Através das outras, o coiote disse para que eu ficasse tranquilo, que ele voltaria para me ajudar”, disse.

Josias viu o grupo se distanciando e isso lhe deixava mais apavorado. “Eu fiquei com muito medo, pois as horas foram passando, tudo escuro, tinha medo de animais peçonhentos. Eu chorei muito”, fala ressaltando que quando achou iria morrer, ouviu vozes vindo em sua direção. “Era o coiote, que com uma ferramenta conseguiu alargar um pouco a parte onde o eu estava preso”, continua.

Quando o rondoniense se soltou, ele percebeu que a parte estreita era de apenas dois metros e que depois tudo ficou mais fácil. “Nós estávamos a poucos metros da saída, onde havia um carro nos esperando. O coiote me disse que eu fiquei um dia e meio preso e achou que eu estaria morto”, fala agradecendo-o por ter retornado.

Fonte: braziliantimes.com