Publicado em 9/12/2016 as 3:00pm

Imigrantes temem definição mais ampla de "criminosos" no governo Trump

Imigrantes temem definição mais ampla de "criminosos" no governo Trump

Mayra Machado tinha um trabalho bem remunerado como assistente de oftalmologista que permitia que ela dirigisse sua BMW para buscar e levar seus três filhos para atividades escolares em sua cidade no Arkansas.

Poucos sabem que a mãe dela a trouxe ilegalmente para os Estados Unidos quando tinha apenas cinco anos de idade. Oriunda de El Salvador, elas queriam escapar da guerra civil que assolava seu país na época. Machado foi criada em Santa Ana, na California, pela sua avó, mudando-se depois para Fayetteville (Ark), depois de se graduar na high school.

Nesta cidade, ainda adolescente, Machado falsificou a assinatura de seu amigo em um cheque no valor de US$ 1.500. Ela, então com 18 anos de idade, se declarou culpada pelo crime. Mas a pena real de seu crime aconteceu 12 anos mais tarde, quando ela foi parada em uma blitz de trânsito rotineira e isso a levou para um processo de deportação.

"Eu sempre fui uma mãe ativa e presente na vida dos meus filhos", disse ela durante uma entrevista por telefone, de um centro de detenção em Louisiana. "Eu não sou uma pessoa má, eu não deveria estar aqui... Eu não sou uma ameaça à sociedade e não vou machucar ninguém, eu deveria estar cuidando dos meus filhos".

A detenção de Machado ressalta um crescente medo entre os defensores dos imigrantes: que as políticas de deportação que começaram sob a administração Obama provavelmente serão exercidas com um efeito ainda mais draconiano durante a presidência de Donald Trump, que fez promessas de acabar com a imigração ilegal no país.

Segundo a lei de imigração, Machado é considerada uma "imigrante criminosa". Este foi um termo usado repetidamente por Trump durante sua campanha para descrever pessoas a quem ele teria como foco para deportação.

Nos últimos dias, Trump tem citado com frequência o caso de Juan Francisco Lopez-Sanchez, um mexicano que foi deportado várias vezes antes de retornar aos Estados Unidos e assassinar Kathryn Steinle, em San Francisco.

Alguns imigrantes que estão no país ilegalmente têm graves históricos criminais. Mas outros cometeram crimes menores que são considerados delitos de deportação, mas são relativamente menores, como imigração ou violações de trânsito.

Em alguns estados, como na Geórgia, dirigir sem uma licença é um delito e uma ofensa prioritária que pode levar a deportação. Entrar no país ilegalmente é um delito.

Alguns defensores da imigração temem que imigrantes com crimenos menores, como um delito no trânsito, sejam deportados sob uma repressão do Trump.

Depois de sua vitória, Trump disse à CBS que seu governo deportaria de a 3 milhões de imigrantes criminosos. Para alcançar esse número, provavelmente o republicano teria que ir além dos criminosos violentos.

Um relatório do Departamento de Segurança Interna, de 2013, mostrou que cerca de 1,9 milhões de "imigrantes criminosos" residiam nos Estados Unidos. Mas isso abrange qualquer pessoa nascida no exterior que tenha sido condenada por um crime nos Estados Unidos, incluindo imigrantes indocumentados, residentes legais permanentes e pessoas com visto temporário que tenham uma condenação criminal.

Um estudo de 2015 sobre imigração e dados populacionais do Migration Policy Institute, em Washington, concluiu que cerca de 820 mil dos 1,9 milhões de "imigrantes criminosos" estavam no país ilegalmente. Cerca de 300 mil tinham condenações criminais e cerca de 390 mil tinham sido condenados por delitos graves. O restante - cerca de 130 mil - foram condenados por delitos de baixa intensidade, como imigração, perturbação ou violações de trânsito.

De acordo com dois altos funcionários da equipe de transição de Trump, os conselheiros do presidente eleito tentarão ampliar a rede de deportação para incluir os migrantes que foram acusados, mas não condenados, suspeitos de serem membros de gangues e traficantes de drogas e pessoas acusadas de violações como reentrada ilegal e ultrapassar os vistos, entre outros delitos.

Durante a administração Obama, cerca de 2,5 milhões de imigrantes foram deportados. A administração criou um sistema grande e robusto que aumentou os arranjos cooperativos entre autoridades locais e federais de imigração, levando um grande número de pessoas ao sistema de deportação e remoção do país.

"O que está acontecendo com esta pobre mulher (Machado) está acontecendo sob o governo de Obama", disse Olga Tomchin, porta-voz e advogada do National Day Laborer Organizing Network. "Agora ele vai entregar esse enorme e forte maquinário de deportação para Trump, que vai deixar as coisas piores do que já estão", continuou.

Isso preocupa pessoas como Benjamin Suy, um vendedor de rua em Los Angeles que está no país sem status legal. Ele, de 34 anos, vende espiga de milho refogada coberta de limão, chili em pó e maionese por US$ 2, em um carrinho de ambulante. Desta forma, ele provê o sustento de sua esposa e os quatro filhos.

Como muitos outros vendedores em situações semelhantes, ele vende comida sem uma licença, dizendo que não pode pagar a taxa necessária para obter licença. Ele está preocupado que uma condenação por delito menor por vender comida sem uma licença, emitida há três anos, possa torná-lo uma prioridade para deportação sob a presidência de Trump.

"Estou apenas tentando ganhar a vida. Eu trabalho 15 horas por dia, não estou machucando ninguém, não estou roubando, ninguém morreu por comer minha comida, eu não estou vendendo algo perigoso", disse.

No dia 23 de novembro, os membros do Conselho da Cidade de Los Angeles, Joe Buscaino e Curren Price, anunciaram que introduziriam uma nova política que impediria os vendedores de rua que estão no país ilegalmente de serem acusados ??de delitos menores.

"Queremos ter certeza de que com a chegada deste novo governo, possamos tronar estas pessoas menos vulneráveis", disse Buscaino. "Estes são os indivíduos que estão provendo para suas famílias e fazendo tudo o que podem para pôr o alimento em suas casas", seguiu.

Xochitl Hernandez, de 40 anos, de Los Angeles, enfrenta a deportação depois que agentes a prenderam em fevereiro durante uma incursão da Polícia de Imigração e Alfândega (LAPD), em East Hollywood para capturar um suspeito de roubo.

Hernandez, que está no país ilegalmente desde os 10 anos, estava visitando a casa de um amigo quando o ataque ocorreu. Agentes do ICE levaram-na sob custódia depois que um oficial do LAPD a acusou de ser membro de uma gangue.

Apesar de Hernandez nunca ter sido acusada de um crime, a alegação de ser membro de gangues foi o suficiente para fazer dela uma prioridade para a ser retirada dos EUA. Em agosto, em uma carta endereçada a um funcionário do programa Enforcement and Removal Operations, do ICE, Charlie Beck, revelou que Hernandez não era procurado pela polícia, não foi identificado como sujeito de atividade criminosa e "não era o objeto em qualquer banco de dados para a aplicação da lei que a identifica como um membro de gangue conhecida".

Depois de passar vários meses em um centro de detenção para imigrantes, Hernandez foi libertada, mas ainda está lutando contra sua deportação.

Quanto a Machado, ela ainda está detida no Centro de Detenção de La Salle, em Louisiana. Em 5 de dezembro, completou quase um ano longe de seus filhos.

Depois de sua prisão, há 12 anos, ela passou quatro meses em um campo de treinamento - onde sua cabeça foi raspada e teve que fazer exercícios militares. No ano passado, ela estava a caminho para escolher uma árvore de Natal, com seus filhos, quando parou em Washington County, Arkansas.

Um delegado do xerife a prendeu depois de perceber que tinha uma multa de trânsito não pago. Antes que Machado pudesse pagar a multa, outro delegado autorizado como agente do ICE, pesquisou seu nome e levantou o velho crime, colocando-a em processo para ser deportada.

Fonte: Brazilian Times