Publicado em 17/11/2017 as 1:30pm

Política migratória de Trump não reconhece diferença entre etnia e religião

Nova York se deparou, no dia 31 do mês passado, com o atentado terrorista mais fatal da cidade...

Política migratória de Trump não reconhece diferença entre etnia e religião Durante a campanha presidencial, Donald Trump expressou seu desejo de proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Nova York se deparou, no dia 31 do mês passado, com o atentado terrorista mais fatal da cidade desde o 11 de Setembro. Sayfullo Saipov, de 29 anos, foi o responsável pelo ataque. O cidadão do Uzbequistão, que emigrou para os Estados Unidos legalmente em 2010, se inspirou no Estado Islâmico para atropelar pessoas com um caminhão. Ao todo, foram 8 mortos e 12 feridos. Entre os mortos, estavam cinco amigos argentinos, de Rosário, que tinham viajado aos EUA para comemorar 30 anos de formatura.

Antes mesmo de prestar suas condolências, o presidente Donald Trump publicou, no Twitter, uma postagem com os seguintes dizeres: “não podemos deixar que o Estado Islâmico retorne, ou entre, no nosso país depois de o termos derrotado no Oriente Médio e em outros lugares”. No dia seguinte, o republicano declarou, mais uma vez em sua rede social preferida, ter ordenado que o Departamento de Segurança Interna intensificasse o programa que restringe a entrada de imigrantes no País e sugeriu que Saipov fosse enviado à controversa prisão de Guantánamo.

Treze dias antes do atentado em Nova York, a nova política migratória de Donald Trump entrou em vigor após sua segunda revisão. A medida mira cidadãos da Somália, do Iêmen, da Síria, da Líbia, do Irã, da Coreia do Norte, do Chad e da Venezuela. Os três últimos países entraram na lista com a publicação do novo texto, que prevê ainda a retirada do Sudão — o Iraque foi retirado na primeira revisão depois do governo local ter se comprometido a cooperar com investigações e, no caso da Venezuela, cabe ressaltar que as restrições se aplicam somente a integrantes do governo e seus familiares.

Durante a campanha presidencial, Donald Trump afirmou diversas vezes o intuito de bloquear a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. Contudo, trata-se de algo impraticável. Pessoas como o prefeito de Londres, Sadiq Khan, e a Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, estariam impedidas de pisar em solo estadunidense.

Além disso, a generalização dos praticantes da fé islâmica é, aqui, extremamente perigosa. Afinal, existem aproximadamente 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo, de acordo com dados do PewResearchCenter, espalhados por inúmeros países. O país com o maior número de muçulmanos é a Indonésia. Índia, Paquistão e Bangladesh também aparecerem no topo da lista. Mas os muçulmanos da Indonésia, da Índia, do Paquistão e de Bangladesh são bem diferentes dos muçulmanos do Egito, da Arábia Saudita, do Irã e do próprio Uzbequistão. O pensamento de Trump, neste caso, peca pelo desconhecimento da diferença entre etnia e religião.

Coordenador do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Danillo Alarcon explica que o conceito de etnia está ligado a afinidades linguísticas e culturais. O termo árabe, portanto, está relacionado à etnia e, muçulmano, à religião. Mas nem todo árabe é muçulmano e nem todo muçulmano é árabe. Por exemplo, Michel Aoun, presidente do Líbano, é um árabe cristão e Hassan Rohani, presidente do Irã, é um persa muçulmano.

Outro ponto interessante diz respeito à nacionalidade. O conflito entre Israel e Palestina tem as suas especificidades religiosas, mas o sentimento de pertencimento a uma nação também exerce sua relevância e, nesse sentido, pode-se dizer que existem cristãos identificados como palestinos, segundo Danillo Alarcon. É o caso da ex-prefeira de Ramallah, Janet Mikhail. O professor lembra ainda que, em algumas cidades palestinas, como Belém, é possível encontrar uma considerável população de cristãos.

Para Danillo Alarcon, a política migratória de Donald Trump, além de preconceituosa, está fadada ao fracasso. Ele argumenta que alguns aspectos da religião islâmica, como o véu, são evidentes. Entretanto, no geral, é complicado identificar muçulmanos em um aeroporto justamente porque não tem como assegurar que um cidadão, simplesmente por ter nascido em um determinado país, seja muçulmano.

Ademais, o doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) sublinha que os atentados costumam ser cometidos por pessoas que já estão no país e não conseguiram se adaptar. “É o tipo de postura que tenta jogar para fora uma solução que deveria ser jogada para dentro. Faltam políticas públicas de integração”, salienta Danillo Alarcon.

Fonte: JornalOpção