Publicado em 20/11/2017 as 11:00am

Ameaças e perseguições levam brasileiros a pedirem asilo nos EUA

Perseguições, ameaças e agressões por conta de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou orientação sexual obrigam centenas de pessoas a deixar o Brasil em busca de asilo nos Estados Unidos. Alguns chegam a entrar ilegalmente no país.

Ameaças e perseguições levam brasileiros a pedirem asilo nos EUA Simmy Larrat, presidente da ABLGBT, diz que a falta de dados acerca da população LGBT contribui para a invisibilidade das violações e violências.

De 2012 a 2015, os Estados Unidos concederam asilo para 167 pessoas procedentes do Brasil, segundo dados do Departamento de Segurança Interna americano. Elas comprovaram ter sofrido perseguições, ameaças e agressões por conta de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou grupo social. Do total de asilados no período, 37 respondiam a processo de deportação e conseguiram convencer as autoridades de que um retorno ao Brasil representaria grave risco para suas vidas. Depois deles, mais brasileiros chegaram aos EUA em busca de proteção, como um ex-policial, um ex-traficante de pessoas, uma mulher homossexual e um empresário, ouvidos pelo Correio. À espera de respostas aos seus pedidos de asilo, eles comentaram sobre os momentos traumáticos que viveram e da esperança de recomeçar a vida num lugar mais seguro.

“Está difícil falar com você, mas vou tentar”, avisa Marta (nome fictício), 34 anos, emocionada ao contar que sobreviveu a duas sessões de tortura nas mãos de um grupo de policiais militares, entre eles três oficiais, em Minas Gerais. “Eles me agrediram só porque sou homossexual, me abordaram em plena avenida, na cidadezinha onde eu morava, e apreenderam minha motocicleta. Depois me agrediram, abusaram de mim sexualmente, de todas as maneiras possíveis, e colocaram algo quente nos meus ouvidos que me queimou. Eu não ouço bem do ouvido esquerdo e, até hoje, não me recuperei totalmente”, conta.

De acordo com Marta, ela só não foi morta devido à intervenção de um dos policiais. “Ele disse que não teria como explicar a minha morte, já que é uma cidade pequena e todos me conheciam. Eles me levaram ao hospital, e o médico perguntou o que tinha acontecido. Por ordem deles, respondi que foi um acidente de moto. Era isso ou eu morreria”, prossegue. “O médico viu minhas mãos cortadas pelas algemas, não acreditou e perguntou várias vezes se tinha sido mesmo acidente de moto. Ele viu que a moto estava intacta. Os policiais disseram que, se eu abrisse a boca, eles iam assassinar minha família.” A brasileira diz que o grupo é chamado de “Quadrilha da morte”.

TEMOR

O medo de sofrer novas agressões encorajou Marta a fugir para os Estados Unidos com a ajuda de um coiote, como é chamado o traficante de pessoas que querem entrar ilegalmente em outro país. Em certo ponto da viagem, o grupo em que estava foi abandonado pelo coiote, e ela caminhou por três dias no deserto, passou fome, até ser detida pela polícia de imigração americana, “para meu alívio”, frisa. A brasileira pagou US$ 5,5 mil de fiança e hoje responde a processo de deportação em liberdade. Apavorada com a possibilidade de ser mandada de volta ao Brasil, pediu asilo há um ano e nove meses. Com a ajuda de uma advogada de imigração, conseguiu cartão social e permissão de trabalho.

Outro brasileiro, Armando (nome fictício), 36 anos, é um ex-policial. Ele viajou três vezes aos Estados Unidos, todas de forma legal. A primeira, para visitar parentes; a segunda, com intuito de ficar longe da violência e melhorar o inglês. Em abril deste ano, decidiu deixar o Brasil de vez, após sofrer dois atentados.

“Sofri ameaça de morte por duas vezes, assim como dois atentados contra minha vida, decorrentes da função policial. O autor é membro de um grande grupo criminoso organizado, conhecido como PGC (Primeiro Grupo Catarinense), atuante em Santa Catarina e em vários estados adjacentes. Mesmo um ano após a primeira ameaça, os membros desse grupo ainda estão interessados em ceifar a minha vida”, conta. “Apesar de ter tentado um recomeço no Brasil, o precário sistema de segurança pública não é capaz de garantir minha vida e a dos meus”, critica ele, que abriu uma empresa de segurança em território americano.

Também jurado de morte, Josias (fictício), 29 anos, foi integrante de uma quadrilha de tráfico de pessoas, mas passou a sofrer ameaças depois de deixar o grupo. Ele entrou ilegalmente nos EUA em 2007. “Fiz uma grande besteira na minha vida, me arrependo até hoje por ter me envolvido nesse grande problema, que é a máfia do tráfico de pessoas. Um dos integrantes foi deportado para o Brasil, e eu consegui ficar, tirar minha licença de motorista”, afirma. “Mas soube por uns amigos que os membros da quadrilha acham que eu colaborei com a polícia americana e, por isso, querem me matar. Com isso, tenho muito medo de voltar ao Brasil. Não quero morrer.”

Já Diego (fictício), 35 anos, entrou legalmente nos Estados Unidos em novembro de 2016, pois, segundo diz, estava sofrendo ameaças do sindicato dos trabalhadores da empresa que mantinha no Brasil. Ele relata que temeu ser morto ou ter mulher e filhas sequestradas. “Pedi auxílio ao Ministério Público brasileiro, a um vereador da minha cidade e à Junta Comercial, porém ninguém tinha condições de garantir nossa segurança”, ressalta.

"Apesar de ter tentado um recomeço no Brasil, o precário sistema de segurança pública não é capaz de garantir minha vida e a dos meus", Armando (nome fictício), ex-policial.

"Pedi auxílio ao Ministério Público brasileiro, a um vereador da minha cidade e à Junta Comercial, porém ninguém tinha condições de garantir nossa segurança", Diego (nome fictício), empresário.

Fonte: Redação - Brazilian Times (Fonte: Correio Brazilienense)

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