Publicado em 5/02/2018 as 10:00am

Cresce nos EUA imigração de crianças desacompanhadas

Uma das primeiras memórias de Juan (nome fictício) é de sua casa em chamas, quando ele tinha quatro anos.

Natural da Guatemala, como contou a um juiz de imigração, ele e sua família foram desde cedo perseguidos por membros de gangues urbanas. Eles se recusavam a pagar a taxa mensal, "la renta", que o grupo criminoso cobra da população. Depois de mudar de bairro três vezes, ver o tio morto, ser ameaçado sob a mira de armas e deixar de ir à escola por medo de retaliações, Juan resolveu fugir para os EUA.

Ele chegou à fronteira sozinho em 2014, aos 14 anos, assim como outros milhares de adolescentes um grupo que soma pelo menos 200 mil crianças nos últimos cinco anos e cujo fluxo voltou a crescer nos últimos meses.

A maioria delas foge do aliciamento por gangues e de ameaças de morte em países do chamado Triângulo do Norte (El Salvador, Honduras e Guatemala), que tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo. Muitas têm pais que vivem nos Estados Unidos, fugidos antes. Por isso, vão sozinhas à fronteira.

Elas são bem mais novas que os "dreamers" (sonhadores), jovens imigrantes levados pelos pais aos EUA ainda crianças, no início da década. Para esse grupo, bandeira dos democratas, Donald Trump acenou com a cidadania.

Mas, para as crianças desacompanhadas, que a ONU afirma serem parte de uma crise humanitária, o republicano fechou a porta.

Elas não têm status legal no país, não se qualificam como refugiadas, quase nunca conseguem asilo para piorar, segundo Trump, impulsionam a violência em solo americano.

Um projeto de lei em análise quer restringir a concessão de asilo para crianças, que teriam de provar risco de vida se deportadas ao país de origem. Outro prevê a deportação imediata de crianças que não sejam vítimas de tráfico de pessoas ou que não tenham medo de retornar ao seu país.

"Muitos membros de gangues se aproveitam de lacunas em nossas leis para entrar no país como menores desacompanhados", disse o presidente, em discurso ao Congresso na terça (30).

SOZINHOS NA CORTE

Dados mostram que apenas 1,5% dos jovens apreendidos na fronteira são ligados a gangues, segundo a Patrulha da Fronteira dos EUA.

Mas o Departamento de Justiça afirma que há mais deles, que não revelam sua filiação criminosa. Por isso, menores desacompanhados viraram alvo do governo.

Nas cortes de imigração, seus casos se tornaram prioridade, determinou o departamento. Como o governo não tem obrigação de garantir advogado, a maioria precisa representar a si mesma ou seja, crianças de seis anos se veem sozinhas diante de um juiz. No último ano, isso aconteceu em 80% dos processos. Desses, quatro em cada cinco acabaram em deportação.

"Infelizmente, é o que acontece na maioria das vezes", afirmou à Folha Kathryn Kuennen, que assiste as crianças por meio da Conferência Nacional de Bispos Católicos dos EUA.

Nos últimos três meses, 4.000 adolescentes foram deportados a seus países de origem, ou quase metade dos casos analisados. Foi o dobro de deportações dos 12 meses anteriores.

Fonte: Redação - Brazilian Times

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