Uma compra milionária do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) está no centro de uma controvérsia: a agência adquiriu 6 mil pares de luvas que aplicam descargas elétricas mesmo após conhecer uma avaliação militar que registrou dor intensa e medo de novas aplicações entre participantes. Os documentos foram obtidos pela organização American Oversight e compartilhados com a Associated Press.
Os testes ocorreram em outubro de 2024, em Fort Leavenworth, no Kansas. Militares simularam situações de resistência em uma prisão e interromperam suas ações rapidamente após o contato com as luvas. Participantes relataram desconforto e receio de passar novamente pela experiência.
O ICE apresenta o equipamento como uma ferramenta de “distração e desescalada”. Segundo a agência, controlar rapidamente situações de resistência pode proteger os agentes e reduzir a necessidade de recorrer a métodos mais graves de uso da força.
A principal cobrança, porém, envolve a segurança. Segundo a American Oversight, a avaliação mediu a utilidade operacional das luvas, mas não examinou seus efeitos sobre a saúde. O relatório considerou os dispositivos adequados para determinadas atividades em prisões militares, embora reconhecesse limitações nos dados coletados.
O próprio fabricante alerta contra a aplicação em crianças, gestantes, idosos e pessoas com deficiência. A organização questiona como esses grupos serão protegidos e quais mecanismos de fiscalização acompanharão o uso do equipamento.
A compra também provocou cobranças no Congresso. A senadora Catherine Cortez Masto e outros 15 senadores pediram esclarecimentos sobre treinamento e prevenção de abusos. Segundo a Associated Press, as perguntas permaneciam sem resposta na publicação da reportagem.
Com o contrato firmado, a discussão vai além do custo: envolve a justificativa para incorporar às operações migratórias um equipamento cuja avaliação registrou dor intensa, mas não estabeleceu sua segurança para as pessoas submetidas a ele.





