Seis em cada dez imigrantes brasileiros detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) acabam sendo deportados. O dado faz parte de um levantamento divulgado pela Deportation Data Project, que apresenta um panorama das detenções e deportações de brasileiros em território americano entre 2023 e 2026.
A pesquisa foi desenvolvida pelo Observatório das Deportações, vinculado à Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais, com base em registros oficiais das autoridades americanas obtidos pelo Deportation Data Project, iniciativa que reúne informações sobre a aplicação das leis migratórias nos Estados Unidos.
Os números revelam um cenário de intensificação das operações de fiscalização migratória e mostram que uma parcela expressiva dos brasileiros atingidos pelas ações do ICE não possui acusações criminais formais.
Segundo o levantamento, aproximadamente 60% dos brasileiros detidos nos últimos dois anos não tinham acusações criminais registradas. Isso significa que grande parte das detenções envolve pessoas que podem estar respondendo exclusivamente a questões administrativas relacionadas à situação migratória.
É importante destacar que a ausência de antecedentes ou acusações criminais não impede uma pessoa de ser detida ou deportada. Nos Estados Unidos, a permanência irregular pode resultar em procedimentos de remoção, mesmo quando o estrangeiro não cometeu crimes.
Outro aspecto identificado pelo levantamento é a redução do tempo médio até decisões judiciais nos processos analisados.
De acordo com os dados divulgados, esse intervalo passou de aproximadamente 161 dias em 2024, durante o governo Biden, para 37 dias em 2026, já na administração Trump.
A redução representa uma mudança significativa na tramitação dos casos, embora o tempo de processamento possa variar conforme o tipo de procedimento, a situação individual do imigrante e a existência de recursos judiciais.
O levantamento também chama a atenção para a situação de crianças brasileiras atingidas pelas medidas de fiscalização migratória.
Segundo a pesquisa, 569 menores brasileiros foram detidos nos dois primeiros anos do segundo governo Trump, enquanto 625 detenções de menores foram registradas nos dois últimos anos da administração Biden.
Esses números, entretanto, precisam ser analisados considerando os períodos de referência e as características de cada operação migratória.
Deportações provocam separação de famílias
Além das estatísticas, a pesquisa destaca os impactos sociais e econômicos das deportações sobre famílias brasileiras estabelecidas nos Estados Unidos.
Em muitos casos, a pessoa deportada era responsável por grande parte da renda familiar, deixando cônjuges e filhos diante de dificuldades financeiras e emocionais.
A separação também pode afetar crianças nascidas nos Estados Unidos, que possuem cidadania americana, mas acabam enfrentando a possibilidade de permanecer no país longe de um dos pais ou acompanhar a família em um retorno ao Brasil.
Para especialistas em imigração, os dados reforçam a importância de compreender que uma detenção pelo ICE não significa necessariamente a existência de uma condenação criminal. Os procedimentos migratórios são, em grande parte, de natureza civil e administrativa.
Da mesma forma, a deportação não ocorre automaticamente após a prisão. Dependendo das circunstâncias, o imigrante pode ter direito a apresentar defesa, solicitar determinadas formas de proteção migratória ou contestar a remoção perante as autoridades competentes.
Levantamento expõe dimensão das operações migratórias
Os resultados mostram que as ações de fiscalização migratória têm atingido milhares de brasileiros e produzido consequências diretas para comunidades estabelecidas há anos nos Estados Unidos.
A concentração das detenções em estados como Massachusetts, Flórida e New Jersey também demonstra que as operações não estão restritas às regiões próximas à fronteira com o México, alcançando localidades com grande presença de trabalhadores e famílias imigrantes.
Embora o índice de aproximadamente 60% de deportações seja um dos dados mais expressivos da pesquisa, ele não significa que toda pessoa atualmente detida tenha essa mesma probabilidade individual de remoção. O resultado depende de fatores como histórico migratório, situação jurídica e andamento dos processos.
O levantamento evidencia que a fiscalização migratória nos Estados Unidos tem alcançado brasileiros com diferentes perfis, incluindo pessoas sem acusações criminais formais, e reforça a dimensão das consequências das detenções e deportações para a comunidade brasileira.
Fonte: Observatório das Deportações da Unimontes e do Deportation Data Project.





