Publicado em 20/03/2008 as 12:00am

Homicídio de brasileiro gera caso diplomático

Moisés, cidadão brasileiro, foi morto no domingo num café da Charneca de Caparica, em Almada.

  Moisés, cidadão brasileiro, foi morto no domingo num café da Charneca de Caparica, em Almada. O móbil do crime terá sido fútil - o suspeito, um compatriota, estava embriagado, segundo as autoridades -, mas o que o distingue é sobretudo o facto de a sua morte ter originado um quase incidente diplomático. A PSP foi procurar o suspeito do homicídio no Consulado do Brasil, em Lisboa. A Casa do Brasil protestou contra o que considerou ser "invasão de território brasileiro". E os amigos de Moisés agradecem a actuação das polícias, que detiveram o alegado homicida.

As versões do episódio no Consulado do Brasil são tantas quantos os intervenientes: a Casa do Brasil, o cônsul, as autoridades policiais e a comunidade brasileira. "A PJ solicitou o apoio da PSP para fazer uma acção de identificação das pessoas no Consulado, na terça-feira, à procura de um alegado homicida. Entram três elementos da PSP em território brasileiro, saem e fazem a identificação das pessoas no interior do edifício, no patamar do andar e na entrada do prédio, tudo isto sem pedir autorização do cônsul-geral", protesta Carlos Vianna, da direcção da Casa do Brasil.

O episódio foi presenciado por Heliana Bibas, representante da comunidade brasileira no Conselho Consultivo para os Assuntos da Imigração, que considerou a acção uma "clara intimidação aos cidadãos brasileiros". Uma situação que nunca tinha acontecido, a não ser a pedido das autoridades brasileiras, sublinha.

Denunciaram o caso publicamente, o que motivou, ontem, o seguinte comunicado da PSP: "(...) A pedido da Brigada de Homicídios da PJ de Setúbal, três elementos deslocaram--se ao Consulado-Geral do Brasil, com a finalidade de interceptarem um indivíduo suspeito de homicídio (perigoso). Entraram até à área de atendimento ao público, onde houve necessidade de identificar algumas pessoas. A situação foi devidamente explicada ao senhor cônsul."

Em declarações à agência Lusa, o cônsul do Brasil em Lisboa, Renan Pais Barreto, considerou que a PSP deveria ter tido "um comportamento mais cauteloso". E justificou: "A actuação da polícia não foi a mais adequada. Até porque não se tratou de nenhum caso relacionado com imigrantes brasileiros, mas sim de alguém que praticou um homicídio."

Segundo a polícia, o indivíduo suspeito já não estava no Consulado, tendo a comunidade brasileira, em colaboração com as autoridades policiais, interceptado o homem na zona do Castelo de S. Jorge, que foi algemado pela polícia no Rossio e entregue à PJ de Setúbal. O indivíduo já foi presente ao juiz, que decretou a sua prisão preventiva.

"Os amigos de Moisés estavam no Consulado e viram Maurício (o alegado homicida), tendo telefonado para o inspector João de Sousa, da PJ de Setúbal. Ele avisou a PSP de Lisboa, que foi ao Consulado. Identificaram uma pessoa que não era o suspeito, mas os amigos de Moisés ficaram à porta do prédio e, quando este saiu, foram em sua perseguição. Apanharam-no e entregaram-no à polícia", conta um dos amigos da vítima, acrescentando: "A comunidade brasileira só tem de agradecer à PSP e à PJ, que agiram de boa vontade e na hora. E crítica a actuação do Consulado, que só hoje [ontem] telefonou à família. A pessoa que morreu era muito querida na zona, estamos a apoiar a família e a arranjar dinheiro para enviar o corpo para o Brasil [hoje às 10.40] ."

Moisés tinha 23 anos. Imigrou do Estado de Goiana há três anos, vivia na Charneca de Caparica e trabalhava nas obras como canalizador. A irmã, de 24 anos, também mora na localidade e a mãe reside nos Estados Unidos. No domingo, Moisés estava no local errado, à hora errada: no Café Johny, frequentado maioritariamente por brasileiros, às 19.00, quando um indivíduo lhe espetou uma faca no coração.

Fonte: (diario de noticias)