Publicado em 20/07/2008 as 12:00am

Cacique brasileiro visita Massachusetts divulgando a cultura indígena

Ele permanecerá no estado até o dia 10 de agosto

Há 18 anos, na Pedra do Rei, lugar sagrado para o povo Xukuru do Ororubá, o Cacique Xicão participa de um ritual para saber quem será seu sucessor. Ao seu lado, o filho de 11 anos assiste a tudo sem saber que mais cedo do que imagina, será ele mesmo quem dará continuidade ao trabalho de seu pai.

No primeiro ano em que servia o Exército Brasileiro, Marcos Luidson de Araújo soube do brutal assassinato de seu pai, o Cacique Xicão. Começava aí a luta precoce de um jovem para liderar seu povo contra a discriminação, grileiros e outros aproveitadores.

Situada no município de Pesqueira, no agreste de Pernambuco, hoje a comunidade Xukuru tem mais de 10 mil habitantes, distribuídos em 24 aldeias que ocupam uma área de 27.555,45 hectares. Esta região é conhecida como a bacia leiteira do estado por ser propícia à criação do gado de leite. Ali, homens e mulheres se dedicam à agricultura, pecuária e à confecção de renda "Renascença", arte aprendida com os europeus colonizadores. Apesar de vários artifícios usados para tirar-lhes a terra,  o povo Xukuru nunca deixou de lutar e tem um modelo de organização sócio-política que serve como exemplo de luta  para outros  povos indígenas do Brasil, resultado em grande parte, da forte liderança do Cacique Xicão, assassinado cruelmente.

Hoje com 29 anos, o agora Cacique Marcos Xukuru está nos Estados Unidos para divulgar o trabalho de seu povo, a luta pela preservação de sua cultura e direitos, e para arrecadar fundos para custeio de despesas jurídicas com processos que envolvem algumas lideranças indígenas de sua comunidade. "Na luta pela reconquista de nossas terras, nosso povo tem sido perseguido, morto ou acusado de crimes por nós não cometidos. Os custos processuais são muito altos e, embora nossa comunidade seja organizada e unida, não temos condições de arrecadar a grande quantia necessária", relata o Cacique.

A quantia a que se refere o Cacique Marcos, é de R$ 74.000 (setenta e quatro mil reais), preço do processo já em adantamento para  a defesa de lideranças acusadas da morte de um outro índio, José Lindomar de Santana. O referido índio foi executado a tiros, em 7/ago/2007 por motoqueiros. O irmão da vítima, que o acompanhava no momento do crime, disse a princípio que não poderia reconhecer os assassinos, mas depois mudou seu depoimento e acusou líderes Xukuru. Um dos acusados, José Agnaldo passou um mês no presídio e depois foi solto; os outros dois, José Edmilson Guimarães e Rinaldo Feitosa Vieira ainda estão no presídio de Caruaru aguardando julgamento. José Agnaldo é Líder do Projeto Educacional desenvolvido para os 2000 estudantes Xukuru e é também vereador na cidade de Pesqueira, eleito pelo voto da comunidade indígena. Segundo o Cacique, o processo tem sido conduzido de forma arbitrária e não existe nenhuma prova concreta para incriminar estes líderes. "Uma das razões do alto custo deste processo é porque os advogados têm que fazer vários deslocamentos dentro do Estado de Pernambuco e Brasília, onde se encontram os Tribunais Superiores," informa o líder Xukuru.

O Cacique Marcos tem algumas visitas agendadas com Lideranças, Organizações, Universidades, entrevistas e outros contatos com a finalidade de levar ao conhecimento da comunidade a luta e o trabalho do seu povo, e aproveita a oportunidade para reividincar ajuda financeira para combater o processo de criminalização do povo Xukuru. "Produzimos artesanato riquíssimo e raro como por exemplo a renda Renascença. A venda destes produtos é um dos principais meios de sustentabilidade do nosso povo", diz o Cacique.

Esta não é a primeira vez que o Cacique vem aos Estados Unidos. "No ano passado, com a ajuda da MIT e do Projeto Handeira, estive aqui para encontros importantes na ONU, com a Anistia Internacional e Acadêmicos envolvidos com a luta dos Direitos Humanos. Na ocasião consegui, através da união e pressão destes órgãos junto ao Governo Brasileiro, dois (02) policiais que trabalham para minha segurança pessoal e integridade física, pois no dia 07 de fevereiro de 2003, sofri um atentado onde morreram dois jovens índios. Até hoje perduram ameaças de morte contra minha pessoa. Na viagem deste ano,  estive pela segunda vez do Folk Art Market, uma feira de arte em Santa Fé, no estado do Novo México, onde participaram mais de quarenta  países. Ali tive a honra de representar o Brasil, divulgar nossa arte e começar com a  arrecadação que precisamos", conta Marcos.

O Cacique Marcos Luidson de Araújo é casado, pai de um filho de dois anos, membro da Comissão Nacional de Política Indigenista, criada pelo Presidente Lula em 2007. Em abril deste ano esteve com o Presidente Lula, ocasião em que o Presidente enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei para criação do Conselho Nacional de Política Indigenista. É membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena do Estado de Pernambuco e também membro do CEDSS - Conselho Econônico de Desenvolvimento Social Sustentável, a convite do próprio Governador Eduardo Campos, de Pernambuco..

O nome Xukuru do Ororubá significa a relação do índio com a natureza. Xukuru é o nome deste Povo Indígena e Ororubá é a junção das palavras Oro, nome de um pássaro e Ubá, nome de uma árvore. Dentro desta filosofia, o povo Xukuru tem vários projetos que visam a preservação da natureza, como projeto para criação de peixes, construção de novas escolas, resfriamento de leite, e projeto cultural, todos voltados para um desenvolvimento sustentável de sua comunidade. Assim que conseguirmos nosso objetivo de arrecadar este dinheiro, vamos poder prosseguir com todos estes projetos, alguns dos quais já em andamento, diz o líder Xukuru.

O Cacique permanece  em Massachusetts até o dia 10 de agosto e, além dos compromissos agendados, espera conseguir apoio da população em geral. Ele tem várias peças em Renascença que também são excelentes para presentear, a partir de $25 dólares. Cada peça é uma obra de arte para decoração ou vestuário. Algumas destas peças  demoram vários meses ou até mesmo anos para serem concluídas, explica o Cacique Marcos que pode ser contactado através do email handeira@gmail.com e telefone 774-232-3483.

Fonte: (Brazilian Times)