Publicado em 10/08/2008 as 12:00am

Cessar-fogo da Geórgia não detém ataques russos

Rússia diz que Geórgia não se retirou da Ossétia do Sul; EUA acusam Rússia de impedir paz.

A Rússia continuou a realizar ataques aéreos contra a Geórgia, acusando o governo georgiano de ainda manter operações militares na Ossétia do Sul e rejeitando um anúncio de cessar-fogo proposto neste domingo.

A aviação russa bombardeou alvos próximos da capital do país, Tbilisi, incluindo o aeroporto, horas antes da chegada dos ministros francês e finlandês do Exterior, Bernard Kouchner e Alexander Stubb, respectivamente, em missão de paz.

Enquanto isso, russos e americanos medem forças no Conselho de Segurança da ONU pelo quarto dia seguido, sem que o grupo de países tenha chegado a uma declaração sobre o conflito.

Cessar-fogo

Neste domingo, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, declarou cessar-fogo e propôs o início das negociações com a Rússia para pôr fim à violência na Ossétia do Sul, que quer independência da nação georgiana e tem o apoio de Moscou.

Entretanto, a Rússia rejeitou o cessar-fogo, afirmando que tropas da Geórgia continuavam na província separatista.

Moscou acusa o governo georgiano de praticar violência contra seu próprio povo e contra cidadãos russos na luta contra o separatismo - uma polêmica que levou à intervenção armada na sexta-feira.

Bombardeio

No domingo à noite, pelo menos três explosões foram escutadas nos arredores da capital georgiana, Tbilisi. O governo georgiano diz que a aviação russa bombardeou pela segunda vez no mesmo dia uma fábrica de aviões e uma base militar próximos à capital.

Um navio georgiano também foi afundado no mar Negro – segundo a Rússia, porque teria ignorado tiros de alerta quando navegava em direção à Marinha russa com outras quatro embarcações.

O Exército georgiano diz também que a aviação russa bombardeou a cidade de Zugdidi e um território dentro da Abecásia, outra província separatista da Geórgia, informou a correspondente da BBC Natalia Antelava.

A Geórgia acusa a Rússia de enviar 4 mil soldados para a Abecásia através do mar Negro. Já os separatistas da província rebelde dizem que a Geórgia enviou número igual de soldados para a divisa.

Imagem 'confusa'

Segundo o repórter da BBC Gabriel Gatehouse, as informações que circularam no domingo dão apenas uma "imagem confusa" do dia.

Em uma estreita faixa de território entre a capital da Ossétia do Sul, Tskinvali, e a fronteira com a Rússia, pequenos grupos de soldados georgianos combateram soldados russos, ele disse.

Mas há relatos de que os confrontos dentro da Ossétia do Sul estão menos intensos, desde que tropas da Geórgia iniciaram a retirada e o controle virou para as tropas russas.

Moradores que deixavam a capital da província separatista, Tskhinvali, disseram à BBC que a cidade está relativamente quieta.

O repórter da BBC Richard Galpin descreveu, entretanto, um senso de pânico na cidade georgiana de Gori, próxima à divisa com a Ossétia do Sul, em meio a temores de que tropas russas marchem em direção ao vilarejo.

O repórter havia sido aconselhado pelo Ministério do Interior a deixar Gori – mas encontrou a estrada para Tbilisi repleta de carros cheios de civis que fogem da zona de conflito. Ainda não há estatísticas confiáveis de quantos morreram.

Refugiados

A Acnur, agência de refugiados da ONU, estima que entre 10 mil e 20 mil pessoas já foram deslocadas dentro da Geórgia, incluindo a Ossétia do Sul, enquanto a Rússia diz que outras 30 mil pessoas já cruzaram a fronteira para a Ossétia do Norte, no lado russo.

A Acnur e agências humanitárias pedem que as partes em conflito criem um corredor para a passagem de civis que querem deixar a zona em conflito.

Um porta-voz da Organização para Cooperação e Segurança na Europa (OSCE) em Tbisili afirmou por telefone à BBC que dois corredores devem ser criados entre a capital da Ossétia do Sul e o sul do país, como parte de um plano de cessar-fogo que será discutido pelos ministros francês e finlandês.

"Agora, o problema é que não há presença internacional naquelas áreas, de forma que os russos vão administrar a evacuação de civis. Precisamos ver quão eficiente será isto", afirmou.

Diplomacia

Enquanto isso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se encontra pelo quarto dia neste domingo para discutir o tema. Até agora, o grupo de nações – que inclui a Rússia como membro permanente com poder de veto – fracassou em chegar a um acordo sobre como pedir um cessar-fogo.

O embaixador americano na ONU, Zalmay Khalilzad, disse ao Conselho de Segurança que a Rússia está deliberadamente tentando evitar um cessar-fogo para forçar uma "mudança de regime" na Geórgia.

"A Rússia afirma que essas operações militares tinham como fim proteger seus soldados em missão de paz e a população civil da Ossétia do Sul. Entretanto, a reação vai muito além de qualquer medida razoável necessária. A escalada do conflito é a causa imediata da elevação das perdas de vidas inocentes", afirmou.

O embaixador americano relatou ainda uma suposta conversa com o ministro do Exterior russo, Vitaly Churkin, que teria dito que o presidente georgiano Saakashvili "deveria sair".

O embaixador americano teria então perguntado a Churkin se o objetivo da Rússia é "mudar a liderança da Geórgia".

Sem responder diretamente à pergunta, o representante de Moscou teria afirmado que havia líderes que haviam "se tornado um obstáculo".

Os Estados Unidos estão preparando uma declaração condenando a Rússia, que deve ser vetada por Moscou.

Fonte: (G1)