Publicado em 17/03/2009 as 12:00am

ONU propõe controle internacional de taxas de câmbio

Um relatório divulgado nesta quinta-feira pela Conferência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) recomenda que os ajustes nas taxas de câmbio dos países devem estar sujeitos a uma fiscalização multilateral

Um relatório divulgado nesta quinta-feira pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) recomenda que os ajustes nas taxas de câmbio dos países devem estar sujeitos a uma fiscalização multilateral, e que estas taxas não devem ser reguladas apenas pelo mercado.

O documento, intitulado The Global Economic Crisis: Systemic Failures and Multilateral Remedies ("A Crise Econômica Global: Falhas Sistêmicas e Remédios Multilaterais", em tradução livre), recomenda que as mudanças nas taxas de câmbio nominais devem refletir as diferenças nos índices de inflação entre os países que praticam as transações.

Desta forma, afirma o relatório, as taxas de câmbio reais permanecerão constantes, permitindo uma competição justa entre os produtores de diferentes países e evitando os riscos potenciais da especulação. "Arranjos multilaterais ou mesmo globais de taxas de câmbio são urgentemente necessários para manter a estabilidade global e para evitar o colapso do sistema de comércio global", diz o documento.

 

Especulação

O relatório afirma que a especulação monetária de curto-prazo contribuiu para intensificar o colapso de várias moedas com a crise financeira. Isto fez com que os efeitos da crise fossem muito mais graves em diversos países.

O documento afirma que a desregulamentação do sistema financeiro internacional fez com que especuladores se aproveitassem das diferentes políticas monetárias dos países para conseguir lucros rápidos.

Isto fez com que alguns pegassem dinheiro emprestado em países com taxas de juros baixas e investissem em outros com taxas altas, o que gerava lucros em curto prazo e inflava de modo artificial o valor das moedas dos países onde este dinheiro era investido. Com a crise, no entanto, esta "bolha estourou", provocando a desvalorização de diversas moedas.

Como exemplos, o documento cita a krona, moeda islandesa que perdeu 51% de seu valor em relação ao dólar no segundo semestre de 2008. Uma segunda onda de desvalorizações afetou também diversas outras moedas, como o real do Brasil, que perdeu 34% de seu valor.

 

Sistema multilateral

Para evitar estes efeitos desestabilizadores, o documento recomenda a extinção dos incentivos para a especulação de curto-prazo com as moedas.

Para isso, o Unctad propõe a criação de um novo sistema multilateral de administração das taxas de câmbio, que ligaria o que chama de "moedas líderes" com "moedas satélites" (tanto em âmbito global como regional), de modo a manter as taxas de câmbio reais em níveis constantes.

"Uma estrutura monetária multilateral seria baseada no livre fluxo de capital e seria governada por instituições globais fortes", diz o documento. "Se todos os países e governos reconhecerem que a crise global é, antes de tudo, uma crise sistêmica, então soluções amplas - como a criação de um título global que possa ser usado, a taxas de juros fixas, para ajudar qualquer país em necessidade - podem ser possíveis".

 

Comida

O relatório da Unctad também afirma que a grande elevação nos preços dos alimentos registrada em 2007 e no início de 2008, e a sua posterior desvalorização foram causadas, em parte, pela especulação. Segundo o documento, o peso maior que os investidores financeiros têm nos mercados futuros de commodities afetou a volatilidade dos preços destas mercadorias, fazendo com que surgissem, em alguns casos, bolhas especulativas. "Levando-se em conta que o preço dos alimentos pode ser uma questão de sobrevivência para milhões de pessoas pobres em todo o mundo, este tipo de especulação não pode ser aceita", afirma o documento.

Para evitar estas bolhas, a Unctad propõe uma maior transparência nos mercados futuros de commodities como alimentos e petróleo. O documento também afirma que órgãos reguladores devem ter mais poderes para agir no caso deste tipo de especulação - que normalmente é usada como um meio de lucros para investidores, no lugar de ser uma barreira para proteger os produtores contra as mudanças normais de preços.

 

Fonte: (G1)