Publicado em 25/08/2011 as 12:00am

Obama precisa parar de jogar para não perder e assumir a liderança

Apesar das críticas dos adversários, eu estou feliz pelo fato de o presidente ter saído de férias já que uma das coisas mais úteis que ele poderia fazer neste momento é jogar bastante golfe ? mas não aquele passatempo amigável de quatro pessoas com os seu

Apesar das críticas dos adversários, eu estou feliz pelo fato de o presidente ter saído de férias já que uma das coisas mais úteis que ele poderia fazer neste momento é jogar bastante golfe – mas não aquele passatempo amigável de quatro pessoas com os seus assessores, como ele geralmente faz. Não, eu falo de golfe real: match-play, uma competição acirrada, com dinheiro de verdade em jogo. O golfe jogado na modalidade match-play é um excelente professor. Conforme qualquer bom golfista pode atestar, a primeira regra do match-play é a seguinte: nunca jogue apenas para não perder. Não fique aguardando nem alimente a esperança de que o seu oponente venha a cometer um erro. Sempre jogue para valer, sempre jogue para ganhar e sempre assuma que o seu oponente terá um bom desempenho, de forma que você terá que jogar melhor do que ele.

Há meses Obama vem jogando para não perder, deixando vagos os seus próprios planos para uma “Grande Troca” referente à dívida, aos déficits, impostos, empregos e investimentos, enquanto fica aguardando que os republicanos digam maluquices cada vez maiores – como prometer o retorno da gasolina a US$ 2 o galão (ou 53 centavos de dólar o litro), ou insistir que a mudança climática foi inventada pelos cientistas para a obtenção de verbas para pesquisa (mas podemos confiar nos políticos que recebem milhões de dólares das companhias de petróleo e acreditar que eles nos dizem a verdade em relação a essa questão), ou afirmar que o Texas tem o direito de se separar do país. Mas se os candidatos republicanos fizeram favores ao presidente ao falar tantas loucuras, isso não ajudou Obama nas pesquisas de opinião.

Muitos norte-americanos são capazes de perceber que a maioria desses candidatos republicanos lembra mais lutadores de telecatch do que políticos – com os seus golpes de mentira e a retórica anti-Obama. Só falta mesmo eles usarem tangas de Tarzan. Esta é a temporada da tolice. Mas eu não assumiria que os republicanos não apresentarão candidatos mais sérios quando for necessário, nem que alguns desses candidatos não venham a se deslocar para o centro do espectro político. O que eu assumiria com certeza é que eles vão na verdade fazer um trabalho melhor do que o atual.

É por isso que os últimos meses têm sido tão preocupantes para os que apoiam Obama. O presidente surpreendeu a todos ao apresentar a ideia da “Grande Troca” durante as negociações sobre a dívida – um corte de despesas de aproximadamente US$ 3 trilhões na próxima década e aumentos de impostos de US$ 1 trilhão – como um sinal para os mercados de que nós estamos colocando em ordem a nossa casa fiscal. Esta foi sem dúvida alguma a ideia correta – contanto que ela fosse acompanhada de investimentos em infraestrutura, educação e pesquisa –, mas o presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner, não foi capaz de convencer a bancada do Partido Republicano, que é liderada pelo Tea Party.

Entretanto, em vez de esclarecer a sua Grande Troca de forma detalhada e procurar implementá-la – e fazer com que todo norte-americano entendesse e escutasse todos os dias que ele tinha um plano, mas que os republicanos não aprovariam a proposta –, Obama abandonou a ideia. Mas será que ele pelo menos tentou explicar os detalhes da sua Grande Troca e por que esta era a única opção? Não.

Isso fez com que os aliados de Obama se perguntassem se o presidente estava de fato comprometido com a ideia – e se ele contava realmente com o apoio do seu partido quanto a ela. E a atitude de Obama fez também com que os seus oponentes ficassem extasiados e passassem a ditar eles próprios a agenda política. Foi por isso que a recente campanha feita por Obama, viajando pelo país de ônibus, não teve sucesso. As pessoas simplesmente não querem mais aplaudi-lo. Elas querem aplaudir o homem e o seu plano – um plano real, e não simples generalidades e táticas para reelegê-lo com 50,0001% dos votos, sem um mandato real para fazer o que é necessário para consertar o país neste momento.

Sem a sua Grande Troca sobre a mesa – impressa na mente de todo norte-americano –, Obama viu-se obrigado a jogar na defesa, em busca da negociação menos pior, ou seja, jogando para não perder. É por isso que nós estamos escutando todas essas indagações do tipo “O que aconteceu com Obama?” e as variações tolas dessa questão (por exemplo, “Ele é um derrotado”; “Ele não é muito brilhante”; “Ele é um Jimmy Carter”).

Tudo isso não passa de besteira. Obama é inteligente, decente e duro, e possui exatamente os instintos certos para determinar qual é o rumo necessário para o país. Ele realizou muito mais do que tem sido reconhecido – apesar de uma oposição que se dedica a fazer com que ele fracasse. Mas ultimamente ele está preocupantemente distanciado do seu jogo. Ele não é um Jimmy Carter. Ele não é um Tiger Woods – um indivíduo naturalmente brilhante que perdeu o seu talento. Obama está com tantas opções circulando pela cabeça, há tanta gente sussurrando ao seu ouvido aquilo que as pesquisas estão dizendo e como ele precisa se posicionar para se reeleger, que ele perdeu todo o seu instinto natural para o jogo. Obama precisa retornar ao básico.

Isto que está acontecendo atualmente nos Estados Unidos é uma loucura: nós estamos enfrentando uma crise econômica e os políticos estão lidando com uma eleição – e quase não existe superposição entre esses dois fatos. O presidente precisa reintegrá-los. Mas isso só poderá ocorrer se ele parar de jogar para não perder e assumir a liderança. Os nossos problemas não são insolúveis. Nós precisamos de uma Grande Troca – na qual cada um dos lados forneça algo no que diz respeito aos gastos, aos impostos e a novos investimentos –, mas estamos nos distanciando disso.

Faça a campanha com base nisso, senhor presidente: na melhor das hipóteses você gerará uma pressão política (que agora é totalmente inexistente) suficiente para fazer com que os republicanos que não são insanos se juntem à sua causa, de forma que obtenhamos um acordo. E na pior das hipóteses você poderá disputar a reeleição em 2012 com uma plataforma que, caso você vença, lhe concederá de fato um mandato para promover as mudanças das quais o país necessita.

Enquanto isso, senhor presidente, em um dia de chuva, alugue o filme “Tin Cup” (“O Jogo da Paixão”). Há nele uma excelente cena na qual a médica Molly Griswold tenta ajudar Roy “Tin Cup” McAvoy, o golfista profissional, a redescobrir o seu talento – e a si próprio. Ela finalmente diz a ele: “Roy... não tente ser legal, suave ou qualquer outra coisa; seja simplesmente honesto e assuma um risco. E, sabe de uma coisa? O que quer que aconteça, se agir baseado no seu coração, você não terá como errar”.

Fonte: UOL.COM.BR