Publicado em 13/10/2011 as 12:00am

Mexicanos já deixam de emigrar para os EUA

A pergunta é: vamos morar nos EUA? E a resposta de um número crescente de mexicanos é: "Não, é melhor ficarmos em casa". Isto é notícia.

A pergunta é: vamos morar nos EUA? E a resposta de um número crescente de mexicanos é: "Não, é melhor ficarmos em casa". Isto é notícia.

Segundo pesquisas realizadas pelo Centro Hispânico Pew no início deste século, aproximadamente 500 mil imigrantes sem documentos cruzavam a fronteira dos EUA com o México a cada ano. Hoje um estudo recente da Universidade Princeton mostra que os cidadãos mexicanos essencialmente deixaram de emigrar para os EUA. "Ninguém quer dizer isso, mas o fluxo de imigrantes parou", disse Douglas Massey, codiretor do Projeto de Imigração Mexicana, ao jornal "The New York Times". "Pela primeira vez em 60 anos, o tráfego [migratório para os EUA] é zero."

Segundo o estudo de Princeton, as coisas começaram a melhorar no México. Há mais escolas, mais estudantes concluindo a universidade, mais água e mais eletricidade. Isto é, a vida tornou-se um pouquinho menos difícil. E as coisas também mudaram dentro das casas. Os mexicanos têm menos filhos que antes. Em 1970 uma família mexicana média tinha 6,8 filhos. Hoje o número baixou para apenas 2.

Apesar da narcoviolência, do desemprego, da falta de oportunidades e do aumento da pobreza (o Conselho Nacional para Avaliação da Política de Desenvolvimento Social do México relata que 52 milhões de habitantes vivem na pobreza), os jovens mexicanos estão preferindo ficar em seu país.

Mas esse fenômeno que o "New York Times" relatou em um extenso artigo também tem outra explicação. Há menos mexicanos indo para o norte porque nos EUA estão tornando sua vida impossível.

Basta ver as novas leis anti-imigração do Arizona e do Alabama. Políticos extremistas e xenófobos estão criminalizando todo tipo de comportamento, desde conseguir emprego até alugar uma casa. E muitos estão terminando na prisão e deportados por uma simples infração de trânsito.

Não exagero: 13.028 pessoas foram deportadas no último ano fiscal depois de serem detidas por violar uma regra de trânsito, segundo confirmou a agência de notícias AP. Imaginam passar por um semáforo ou não parar totalmente em uma placa de "stop" e de repente terminar detido e deportado?

E isso está ocorrendo com maior frequência porque os policiais de várias cidades dos EUA estão agindo como agentes de imigração. Depois de deter uma pessoa sem documentos por outras razões, a polícia a relata ao serviço de imigração para ser presa e deportada.

Isso ocorre cada vez com maior frequência porque a polícia está sendo autorizada a atuar como agente de imigração não só por novas leis estaduais, mas também pelo governo federal, através do programa de impressões digitais de Comunidades Seguras. O objetivo do programa, quando foi posto em prática em 2008, era identificar, deter e deportar imigrantes que tivessem cometido crimes graves no passado.

Hoje, entretanto, é cada vez mais comum que os funcionários o empreguem para deter imigrantes sem documentos, apesar de não terem antecedentes penais. Não estamos falando de criminosos nem de terroristas. Estamos falando de imigrantes que tiveram a má sorte de cometer uma falha ao conduzir ou que foram detidos simplesmente por seu aspecto físico - e terminaram do outro lado da fronteira, separados de suas famílias.

O presidente Barack Obama deportou mais de 1 milhão de pessoas desde que tomou posse do cargo - a maior quantidade desde a era Eisenhower - e nada indica que seu governo tenha a intenção de reduzir essa tendência. Como candidato em 2008, Obama ganhou 67% do voto hispânico e prometeu defender os imigrantes. No entanto, o governo do presidente americano continua deportando as pessoas sem documentos (embora a política oficial seja concentrar-se nos criminosos).

Como se isso fosse pouco, a atual campanha para a Presidência dos EUA fez que desapareça até 2013 qualquer possibilidade de uma reforma migratória que legalize 11 milhões de sem-documentos. Os EUA já não são vistos no estrangeiro como o país que cedo ou tarde acolhe e dá as boas-vindas aos recém-chegados.

Afinal de contas, quem sai perdendo com a falta de novos imigrantes são os EUA. Os imigrantes pagam impostos, criam trabalhos e aceitam os trabalhos que nenhum americano quer realizar. São um impulso extraordinário para a economia de qualquer país. Mas os EUA os estão rejeitando e no México estão encontrando a forma de sobreviver.

Esta é uma enorme mudança de atitude dos mexicanos, e tem profundas consequências. O México não terá mais essa válvula de escape que evitou distúrbios sociais durante décadas. Mas ficará com a energia, a criatividade e a visão de milhões de jovens que antes viam o norte como sua única opção para superar-se.

"É melhor ficarmos", estão dizendo muitos mexicanos. Veremos agora o que o México fará com eles.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

Fonte: UOL.COM.BR